Quarto de Sade ou quarto de Alice?

Cheguei ao hotel de Belém já daria meia noite e não começo, assim, uma história de terror, embora pudesse ser. Senhor, informamos que os quartos executivos estão todos ocupados, vamos transferi-lo para um quarto de melhor qualidade. Pensei cá comigo: dei-me bem, porém até agora me pergunto: onde fui parar, num quarto de Sade ou num quarto de Alice?

O número era 503 que, como é de se imaginar, tinha, ao lado, o 502. Abri a porta e deparei-me com duas camas de casal. Mas, porque motivos tão nobres me recepcionariam assim? Afinal, sou um e magro, uma cama de solteiro, quando não um sofá, já me bastaria. Pensei que o quarto deveria, em outras ocasiões, ser palco de noites bacantes, com orgias dionisíacas regadas a muito vinho, quando não champanhe . Pensei melhor, talvez fossem, ali, necessárias para atender clientes com grande índice de obesidade que juntariam as camas para se abrigar e enfrentar a lei da gravidade sobre oito pés.  Percebi que no quarto estavam quatorze travesseiros e imaginei casais desnudos guerreando-se com aqueles objetos de pena, a ver quem ganharia na batalha algum amor. Porém, repensei e reimaginei, que talvez os travesseiros fossem para fazer companhia àqueles que chegam solitários, como eu, talvez apenas cumprissem a missão de ocupar o tanto de cama que não poderia simplesmente ficar vazio. À frente d’uma das camas, entretanto, novo mistério e o maior deles: a porta verde. No meio do quarto, como poesia, sem objetivo algum encontrei uma porta. Mas, logo vi que não era tão poética e que deveria ter suas finalidades. Abri-a e encontrei outra porta. Uma porta que quando se abre dá pra outra. Então tive a certeza que era para integrar o quarto com o 502 e, assim, não só compor um quarto de Calígula, mas toda a Roma, toda a Grécia juntas a unir infinitos casais em festas que não acreditamos que realmente existam. Porém, logo desfiz minhas certezas, imaginei que eram portas como as de Alice que sempre levavam a um novo caminho, a uma nova porta e que tudo aquilo, quem sabe, fosse uma grande metáfora da vida que o arquiteto que projetou o hotel quis esculpir.  Fui até o banheiro para lavar o rosto e despertar de tantas ambigüidades e deparei-me com um chuveiro que caía dentro de uma banheira. Seria um plano devasso para obrigar que todos se banhassem naquelas águas de Afrodite, mesmo os avessos à banheira, ou seria apenas um despropósito infantil para que todos levassem seus patinhos para o chuveiro e passassem ali, dias e noites, a brincar no sem sentido das horas?

Não me restou tempo para descobrir se estive em um quarto de Sade ou em um quarto de Alice, passei ali apenas uma breve noite em que dormi apenas quatro horas. Quiçá eu tenha estado nos dois, se é que só há essas duas possibilidades.

Antunes – 20 de outubro de 2009 – Parauapebas

As duas camas de casal

As duas camas de casal

Uma porta dentro da porta

Uma porta dentro da porta

Só é possível tomar banho de banheira.

Só é possível tomar banho de banheira.

2 Respostas para “Quarto de Sade ou quarto de Alice?

  1. Amor, vc está proibido de voltar para esse hotel devasso! Hum.

  2. Esse lance de porta que dá em porta é maneiro… principalmente para os sonâmbulos distraídos.. haha!

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