Arquivo do mês: outubro 2009

O Guia

Sabe aqueles filmes ou livros em que o protagonista vai prum lugar desrumado e encontra um guia? Pois assim foi: o protagonista sou eu, afinal, sou o dono da pena e o meu guia tem um emblemático nome: Luiz Gonzaga. Nome de cantor! E do meu filho é Nelson Nedi!, fala ele, orgulhoso. Seu Gonzaga foi meu motorista em Parauapebas e me levou até Canaã dos Carajás. É uma personalidade local, gente humilde, um monumento da cidade nascido no Piauí, deveria ser tombado ainda que vivo e ainda que gente. Entre nenhum patrimônio histórico de Carajás há um: ele.

Gonzaga é um contador de histórias nato, facilitador das causas impossíveis, quase São Judas Tadeu. Nasceu antes da própria cidade de Peba, nasceu antes de Canaã de Carajás, é parte de lá. Quando morrer tem projeto de ser padroeiro do lugar, santo protetor das moças de pernas bonitas e de pêlos aloirados. As melhores pérolas da região saem de sua boca e as contarei por aqui, transcrevendo a palavra deste profeta impuro da cabeça chata.

Quem estiver perdido pelo local, não é difícil encontrá-lo: tem número pra cada operadora. Seus preços são os melhores da região, o que não significa barato: taxi no interior do Pará é caríssimo. Vale para puxar uma conversa e andar sem se perder.

Telefones do Luiz Gonzaga:

(94) 8116-9841

(94) 8801-7692

(94) 9165-3751

(94) 9908-9858

(94) 3346-0187

Endereço:

Rua São Paulo, nº440 – B. Primavera

SDC11374
Luiz Gonzaga, motorista e Guia

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2009

Palavra de quem sabe

E não é só nos filmes. Antes fosse, porém não é. Não é só nos filmes que estão aqueles terratenentes, coronéis, latifundiários. O interior do Pará é um ninho deles, ninho da elite mais caquética, reacionária e faraônica do Brasil. Voam nos aviõezinhos entre abraços e apertos de mãos: Olá, deputado, Olá, senador. Onde era pra ser floresta, são fazendas infindáveis com um número tão findável de vacas que dá para contar nos dedos. Andam pelas ruas com seus sorrisos de promessas e estão pelos hotéis. Pra eles, sempre é hora do café da manhã. Conheci um assim, no hotel de Canaã. Já não aguento mais o governo Lula, dizia ele. Com esta coisa de bolsa família está acabando com os trabalhadores. Seu João, cuide disso, pois se Lulinha dá bolsa pros seus funcionários do hotel o senhor vai perder todos. E no auge de sua graça estendeu a mão e chamou a cozinheira: Vem cá, dona bolsa família. Cê não tem não, né? Ela esquivava os olhos. Pois, garanto, se cê tivesse ia preferir ficar em casa do que trabalhar. E assim são os senadores, deputados e parasitas no geral, preferem viver da nossa bolsa megafamília do que trabalhar. Aposto que o doutô falou por experiência própria.

Gastronomia pebana e canaense

Parauapebas e Canaã dos Carajás são lugares sem livrarias e não é porque as cidades são contra a comercialização do saber. Como consolo, falaram-me que há uma biblioteca perdida por Peba, mas não vi, escondeu-se de mim. Mesmo assim, se bater aquela vontade de comprar um livrinho, controle-se ou saia correndo pra Belém. Sendo impossibilitado deste maior bem que o homem pode ter: ler, vamos ao segundo: comer. Ficar nestes lugares significa engordar. Não que a comida seja maravilhosa, mas comer é a melhor opção de lazer. Assim que cheguei em Parauapebas e Canaã apanhei para encontrar “comidinhas e bebidinhas”, mas consegui superar o sofrimento e indico aqui os menos piores lugares para quem não quer morrer de inanição no meio da floresta.

PARAUAPEBAS

Acarajé do Baiano
Rua G, 258 – Bairro União

Eu nunca tinha comido acarajé e vatapá e arrisquei no Pará. Deu certo. O baiano tem uns pratos muuuito baratinhos e o acarajé é delicioso, transborda camarões – por um momento fiquei em dúvida se estava mesmo no Pará, ah, mas os paraenses reagem: o Vatapá é nosso!

Don Mendonça – restaurante e pamonharia
Rua 10, nº242 – Cidade Nova

Diferente do acarajé, eu já tinha comido pamonha. Pra ser bem sincero, eu não tinha gostado muito não. Porém, quando entrei no Dom Mendonça achei tudo meio caro e restou-me arriscar as pamonhas que são baratinhas… caramba, tomei um susto, o treco era muito gostoso. Se for a Parauapebas, não deixe de comer as pamonhas do Mendonça.

Nany’s Caldos Grill
Rua 10, esquina com a Rua G, Cidade Nova.

Longe de ser o paraíso, o lugar serve pra aumentar ainda mais o calor do lugar, ainda mais se lascar pimenta como eu fiz. Quando voltei pro hotel eu suava até pelos fios de cabelo. Mas, é uma pedida barata pra comer um caldo de mocotó, costela, camarão, ovo e por aí vai.

Praça Mahatma Gandhi

Pra quem gosta de comer podrão no Rio de Janeiro, o lugar não vai assustar. É um pólo gastronômico: tem sorvete de frutas típicas e barracas com várias descendentes de indígenas vendendo Tacacá. Explico: Tacacá é uma comida típica do Pará, o sabor é desconfortável, como se estivesse tomando uma cuia de água do mar com vinagre. Tem, também, o guaraná da Amazônia. A receita é: xarope de guaraná, pó de guaraná, castanha, amendoim, leite em pó e água. Se você quer arriscar o diferente, vale à pena.

CANAÃ DOS CARAJÁS

Vale dos Carajás – Bar & Restaurante
Rua Sucupira, 13 – Centro

É difícil encontrar comida boa em Canaã dos Carajás. O Vale é um restaurante familiar típico de Goiás, possui o melhor espetinho de carne com bacon da região e o atendimento é quase igual ao do sofá da sua casa.

Garfos Pizzaria
Rua Asdrubal Bentes, nº519

Se há uma coisa cara em Canaã é a pizza. Porém, na falta de opção, vale arriscar a portuguesa do Garfos, com a massa grossa, meio queimadinha, mas gostosa. O suco de cupuaçu é o melhor que tomei em todo o Pará.

Beer.com
Av. Weyne Cavalcante, 846


Este restaurante é dos mais originais: sua vista dá pro cemitério local, o que nos faz questionar sobre as origens de suas carnes, com disse meu amigo Roberto Augusto: não é carne, é presunto. Não recomendo a carne-de-sol, os defuntos do Rio são bem melhores. A especialidade do lugar é o Tucunaré, mas não posso recomendar porque não arrisquei. O atendimento não é bom e a maioria dos pratos são pra duas pessoas.

Girafas – Alacarte Gril
Av. JK nº114

Esta é uma pérola local. Na falta de outro melhor, deveria virar ponto turístico. É um genérico do famoso fastfood Giraffas, sendo que o cardápio é igualzinho e a comida é bem melhor. Só vendo pra crer.

Dado o mapa da mina vale a pena você sair do conforto do seu lar, atravessar a floresta, adentrar o Pará, só para comer nos deliciosos “restaurantes” interioranos. Aproveite!

Antunes

Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2009

O Tucunaré com vista pro cemitério

O Tucunaré com vista pro cemitério

Girafas genérico

Girafas genérico

A terra prometida

Canaã foi a terra que me prometeram após sair de Peba (nome íntimo de Parauapebas, assim como o Rio é de Rio de Janeiro). Porém, esta, um pouquinho diferente da Canaã bíblica, não oferecia uvas, azeitonas e mel por mais que fosse razoável o café do hotel. Pra falar francamente, escrevendo em letras miúdas para que ninguém me leia, Canaã dos Carajás é tão quente que está mais pra inferno. O ar tem uma densidade de lama com a constante poeira que desprega das ruas não asfaltadas. A cidade é pequena ao ponto de todos serem vizinhos e o entretenimento é ir pra avenida principal tomar açaí com farinha de tapioca e ouvir música em alto volume. Não existe linha de ônibus, muito menos trem, menos ainda metrô. Pela cidade se locomove de moto, bicicleta ou 10 Real no taxi, mas isso não é muito perturbador, pois não se tem pra onde ir. Não há muito o que se dizer e fazer, vale à pena ficar trancado, curtindo o ar condicionado do hotel: Canaã é uma jovem cidade, nascida quase junto comigo, ou seja, eu poderia ter sido seu fundador e ter entrado pra sua história, ainda bem que não fui e que ela é que entrou pra minha.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de outubro de 2009

As ruas de barro responsáveis pelo ar de poeira

As ruas de barro responsáveis pelo ar de poeira

Panapaná

Sempre quis usar esta palavra e agora me surge a oportunidade (viva!). Pra quem não a conhece, explico: panapaná é o coletivo de borboletas de origem tupi (não de borboletas de origem tupi e sim o coletivo é de origem tupi). Refletindo sobre a palavra, pensei que ela é bastante supérflua no meu cotidiano, afinal, quando vejo borboleta, vejo uma e não um coletivo delas. Todavia, tive o privilégio. Foi na ida de Parauapebas para Canaã dos Carajás. Enquanto eu lamentava a substituição da floresta amazônica por centenas de fazendas com meia dúzia de cabeças de gado, um vento canhoto batia no mato a brincar de balançar. Foi aí que se deu: centenas de milhares de borboletas amarelas, miudinhas, saíram de seus esconderijos e atravessaram a estrada aproveitando o embalo vadio do vento. Batiam nos vidros do carro, entravam debaixo do veículo, cobriam a visão, num espetáculo que eu nunca imaginei que existisse. Cheguei a temer e, ao mesmo tempo, a desejar que elas levassem o carro com elas, a voar por aí. Metido naquela nuvem amarela, não pude evitar que o motorista do taxi visse a minha cara de bobo, boquiaberta. É, garoto, estas são as borboletas. Foi aí que lhe retruquei: Borboletas uma ova, isto é um panapaná!

Antunes
15 de outubro de 2009

A Santa Missa

Buscava aventurar-me por Carajás. O dia estava úmido e resistia à troca de passos, criando barreiras de microgotas. Tomei uma van e atravessei a Serra dos Carajás. As gotas de chuva cresciam e pesavam, as árvores pareciam se agregar para segurar a chuva, a vila queria remontar floresta. Andei desrumado a procurar abrigo que não fosse árvore, vi uma igrejinha católica azul, me escondi ali no momento exato em que desabou o céu. Por dentro era colorida, lembrava-me estas igrejas campesinas, tinha um ar de madeira, um povo meio índio, meio português. A missa desenrolou-se melhor que tomar chuva, o padre (tenho minhas dúvidas, acho que quem realizou a missa foi um diácono) lembrou-me Nero: era um sujeito baixinho, gordinho de cabelo encrespado, faltavam-lhe apenas os louros atrás da orelha. Fiquei imaginando-o a tocar harpa, sentado na mesa eucarística enquanto a igreja pegava fogo. Um diácono que taca fogo na própria igreja… logo o diácono, o zelador, quiçá isso fosse pior que Nero. A névoa era tão intensa, tão intensa, que cheguei a pensar que realmente a igreja se consumia em fumaça, não dava pra ver nada do lado de fora, as portas batiam com o vento. A chuva foi cessando junto com a missa do diácono Nero e as portas se abriram para exibir um sol teimoso que despontava, saí tendo evitado a maldita chuva: santa missa!

A igreja por fora depois da tormenta...

A igreja por fora depois da tormenta...

 

O diácono Nero no interior da igreja

O diácono Nero no interior da igreja

Carajás, cidade da Vale

Na vila da Vale as casas são todas iguais

Na vila da Vale as casas são todas iguais

Carajás é um nome de vários donos, mas os primeiros que sei, são índios que habitam a região do Pará em que estive. E, por muita homenagem, ou por falta de criatividade mesmo, foram batizando os lugares assim. Serra dos Carajás é uma serra florestada que separa o Centro de Parauapebas da vila de Carajás, uma pseudocidade da Vale e tema desta crônica. Tem também Canaã dos Carajás, tema de futuras crônicas e Eldorado dos Carajás que seria tema de crônica, todavia não mais será. Os viventes no geral, racionais e sentimentais, ambos, ou nenhum, conhecem Parauapebas e Carajás como duas coisas diferentes, embora não sejam. Diga a um taxista: leve-me para Parauapebas e ele levar-te-á para um lugar; diga leve-me para Carajás e, sabiamente, levará a outro, porém, politicamente, diz-se que Carajás é parte de Parauapebas, tenho também minhas dúvidas. Os animais, igualmente, reconhecem a diferença: em Parauapebas com exceção dos anus e algumas colônias de abusados insetos, não se vê bicho; já em Carajás, rebolativas cutias atravessam as ruas, cigarras prolongam seus cantos, passarinhos sabe-se lá seus nomes, camaleões são pedras andantes. A vila é arborizada, as casinhas são bonitinhas e todas iguais, as flores são paisagem comum e o símbolo da Vale é mais famoso que do McDonalds que não existe. Mas seria estranho se não houvesse reclamações diante do lugar que se candidata a Éden. Adão diz que não agüenta mais andar pelas ruas carajaras, conhece todos os seus vizinhos, pois são funcionários da mesma empresa e, pra ele, sentar à mesa dum bar é como sentar à mesa de trabalho. Eva carece cidade e em Parauapebas tá se aprontando shopping, a sua amiga serpente só a vive tentando e o que tem de melhor parece estar pendurado em algum’árvore do centro de Peba. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que prova que os bichos são menos perigosos que os homens. Carajás é uma vilinha de casas sem grade em que o tédio corre solto pelas esquinas. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que sua fachada bonitinha esconde a cratera imensa que a mina de ferro faz lá’trás. Carajás é uma vilinha de casas sem grade que prova que o homem mesmo sem grades é prisioneiro do trabalho.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2009