Arquivo do mês: outubro 2009

peculiaridades lingüísticas

Claro que eu sabia de nossas fricções lingüísticas, de nossa língua malandreada e de nossa informalidade vocabular, só não imaginava que o realce começava no primeiro bom dia, ou melhor BOM DJIA (como dizemos os cariocas). A cada fricção, surge um coro que faz se repetir pela sala de aula: ts, ts, ts… dj, dj, dj… xi, xi, xi… e por aí vai. Óbvio – orgulhoso que sou – que direi que há certa inveja de nossa despreocupação, de nossos escorregões e de como assobiamos e falamos ao mesmo tempo. Até aí caminhamos bem, o problema é quando os dicionários não batem. Levante-se aí, não tenha vergonha, cê é O CARA. E foi um mar de risos. Perguntei: mas que risos são esses? Ele é o cara mesmo, acertei? E foram mais risos. Todos gritavam É O CARA e abanavam com as mãos, com a munheca quebrada a lembrar-me o juiz Margarida, o Lafond, o Clovis Bornay… descobri que O CARA em Parauapebas é sinônimo de transviado e eu acabara de chamar o aluno de boiola. Outra dessas, foi o infeliz exemplo de divisão das turmas em dois grupos: assim, amados alunos, teremos o CURSO A e o CURSO B. Ouviram-se risos. Professor, O CU SUÁ só se for lá no Rio de Janeiro, aí descobri que CURSO A e CU SUÁ são homônimos homófonos em Parauapebas e ainda levei algumas horas pra entender a piada.
Posto o ponto final, deixo a dica para os cariocas: se se arriscarem em Parauapebas, ou Peba, como eles chamam, assim como chamamos de Rio nosso Rio de Janeiro, jamais falem em curso A, mas, em compensação sempre chamem os outros de O CARA e depois saiam com a desculpa: foi mal, é que eu sou do Rio de Janeiro. Afinal, quem disse que eu não sabia quando chamei assim o aluno?…

Parauapebas, cidade de aventureiro

Foi um taxista quem cunhou a expressão do título: Parauapebas, cidade de aventureiro! Isso dizem outros, não eu. Dizem que Parauapebas é feita por uns fugidos que vem do Maranhão pelas linhas do trem e perduram pelas linhas do tempo. Não sei da veracidade das informações. O que sei é que na segunda-feira, 21 de setembro, mataram um sujeito com seis tiros na cara no ponto de ônibus. É vingança, a droga do lugar. E quando se fala em violência, por associação, falam Rio de Janeiro. Todos temem o Rio. E quando me apresentava como carioca, a polifonia das vozes se repartia em perguntas e exclamações: como você vive no meio das balas perdidas? a Linha Amarela é aquilo mesmo? nossa virgi! ai, meu Deus, é do Rio, deixa eu esconder minha carteira! E num dia, resolvi inventar uma explicação mui parcial para o caso: Pessoal, não é que o Rio seja assim por demais violento, a coisa é que pra não ter migração de nortista e nordestino pra lá inventam estas histórias pra assustar vocês. E criando esta história sobre outra história, frágil como castelo de cartas, todos arregalaram os olhos, pois o castelo de cartas é frágil, mas impressiona pela sua habilidade de construção.

Com 152 mil habitantes, Parauapebas é uma cidade escura, cortada por uma estrada envolta por floresta. Dizem que nas suas esquinas, sob a penumbra, habitam assaltantes à faca e a canivete descendente de indígenas empobrecidos. Há foliões fora de época, ou melhor, há épocas por fora de foliões que trazem consigo o calor das noites vividas nas zonas de baixo meretrício da Pirâmide e da Rocinha. Há quiosques e supermercados em quantidade que jamais vi, há pássaros negros como pequenos urubus que estão nas árvores, mais que folhas. Um deles, de vôo curto, acompanhou-me pelas caminhadas como se fosse delatar-me a alguém: é o anu-preto. Mata-se em Paraupebas, mas o anu rejeita a carne, mata-se por qualquer cinqüenta centavos e a lei sai das mãos de qualquer um, a vingança é a lei. Vingar-se é um direito que cabe ao homem. Pois vinguei-me, baseado nas leis das bocas do lugar: menti-lhes. Menti-lhes que nossa violência é mentira, vinguei-me.

Antunes

Rio de Janeiro, 8 de outubro de 2009

 

A Câmara Municipal de Parauapebas

A Câmara Municipal de Parauapebas

O começo da estrada que leva à floresta

O começo da estrada que leva à floresta

Cachorro brinca com as flores da árvore

Cachorro brinca com as flores da árvore

Anu pousado na árvore

Anu pousado na árvore