Arquivo do mês: novembro 2009

O amendoim fantasma!

Desculpe-me povo de Belo Horizonte! Mil perdões! Desculpe-me, mas a verdade escapa-me como água por entre os dedos: convenhamos, BH está longe de ser um lugar turístico. Sinceramente (maldita sinceridade, parece que cuspo no prato que comi), não sei o que um turista vem fazer em BH. Só se for descansar depois de visitar Ouro Preto. Desculpe-me, povo tão gentil, mas se BH fosse bom como dizem as placas trilingues, vocês não iam passar as férias no Rio de Janeiro.

Guardei esta verdade comigo até agora, mas escapa-me depois que visitei a rua do Amendoim. Na falta de ponto turístico, BH – inventiva cidade de poetas – criou um. Arrisco sem medo de erro: a rua do Amendoim é a mais bem sinalizada de toda a Cidade, senão de todo Estado, senão de todo País, senão de todo Mundo! Há placas por tudo que é canto que dizem: rua do Amendoim. Quando não: calle, street! Curiosidade, curiosity, curiosidad! E foi esta curiosidad que me moveu até aqui: mas, afinal, o que tem a rua do Amendoim? Quem me dera leitor, que a resposta fosse óbvia e eu encontrasse lá amendoins de todos os tipos, ou, como está no singular, eu encontrasse lá ao menos um amendoinzim… bom, se por lá já existiu algum amendoim, já comeram faz tempo. É triste, mas lhes compartilho: a rua do Amendoim é como outra qualquer: casas dum lado, casas do outro, asfalto no meio e carros. Mas, que raios, então, faz com que ela seja tão difundida? Fui sanar minha curiosity no deus-pai-que-tudo-sabe: Google. Veja o que encontrei:

Ficou conhecida por uma ilusão de óptica. Visitando-a de automóvel, ao deixar o motor desligado e desengrenado e soltar os freios, temos a ilusão de que o automóvel sobe a rua, ao invés de descê-la.Várias explicações folclóricas tentam explicar o fenômeno. Uma delas diz que os carros são movidos devido à alta quantidade de minério de ferro existente no lugar, o que pode ser desmentido ao observar que objetos não metálicos, como líquidos e bolas, têm o mesmo comportamento no local. Na verdade, trata-se de mera ilusão de óptica.
Fonte: Wikipedia.

É, querido leitor, antes este texto fosse, também, uma mera ilusão de ótica.

Antunes. 26 de novembro de 2009 – Belo Horizonte

Primeira placa de sinalização na própria rua

Segunda placa de sinalização na própria rua

Terceira placa de sinaização na própria rua

Quarta placa de sinalização, na própria rua. Chega! Paremos por aqui.

Rua do Amendoim, a própria

As casinhas do Bairro Alto

Agora sou um ditador: mão napoleônica sobre a pança. Meu primeiro decreto é o seguinte: todos devem conhecer as músicas do Victor Jara. Pronto, resolvido o problema deste texto.
Agora que todos já sabem que Victor é um cantor chileno, assassinado pelo governo do Pinochet e já conhecem suas canções, passo a traduzir um trecho de uma delas:

As casinhas do Bairro Alto
Com cercas e com jardim,
Com garagem para carros,
Esperando um Peugeot.
Tem rosadas, verdezinhas,
Branquinhas e azulzinhas
As casinhas do Bairro Alto
Todas feitas com recipol.

Esta letra foi baseada em Little boxes, canción de Malvina Reynolds e ironiza a elite chilena, um dos motivos óbvios que levou Victor a ser assassinado. Mas, o que isto tem a ver com BH? Bom, ontem conheci as casinhas do Bairro Alto aqui de Minas Gerais. O bairro se chama Mangabeiras, fica na alta Serra das Mangabeiras, junto ao Parque das Mangabeiras e à Praça do Papa. Aqui é possível ver as casinhas coloridinhas sobre as montanhas, com cercas elétricas, Peugeots na garagem e, como disse Victor, todos “se sonríen y se visitan”.  O ponto de ônibus serve apenas para levar e trazer os empregados e os aventureiros como eu.

O curioso é saber que justamente ali, Vossa Santidade, João Paulo II celebrou a sua missa e soltou a pérola: “Daqui vejo um belo horizonte” (sacou o trocadilho? Hã, hã?).  Pronto, pegou, a praça virou Praça do Papa e o simpático velhinho marcou a história de BH. E por que a missa não foi feita em bairros como Santa Lúcia ou em lugares como o Papagaio? A resposta é fácil, benfazejo leitor, Mangabeiras é um Bairro Alto, está mais perto de Deus.

Antunes
Belo Horizonte, 26 de novembro de 2009

 

 

 

O horizonte de Belo Horizonte, foi isto que o Papa viu

Praça do Papa

Casinhas do Bairro Alto

 

O mundo gira ou pára?

Hora do almoço! Sob um Sol massacrante, cruzei a Avenida do Contorno, segui pela Célio de Castro e me arrastei até a rua Varginha. Tudo isto para chegar ao museu de marionetes do grupo Giramundo (que dá nome ao lugar). Decepção: fechado para almoço. Questionei-me: como pode um museu fechar justamente na hora do almoço? O lugar abre às 9h, fecha às 5h e fecha pra almoço? Desta forma, trabalhador nenhum, nunca no mundo, poderá visitá-lo. Formulei logo o mixuruca trocadilho: assim o mundo não gira, pára!

Fiz resistência em pé na porta, debaixo duma árvore, aproveitando a sombra. Quando deu uma e sete, as portas se abriram. Fui recebido por um manipulador de marionetes chamado Neto. Muito solícito, o titiriteiro foi apresentando-me o lugar e misturando-o com a história do grupo, tirou fotos e informou-me que a entrada era três Reais, pois eu já quase saía sem pagar.

O lugar é muito interessante e vale à pena visitá-lo com calma (coisa que não fiz). Há bonecos de todos os tamanhos e para vários gostos. Não é à toa que o Giramundo é o maior grupo de titiriteiros do Brasil e já tem, mais ou menos, uns 40 anos. Ao longo desta história, o grupo já girou todo o mundo enquanto o mundo parava diante dos seus incríveis bonecos.

Antunes
Belo Horizonte, 25 de novembro de 2009

Frente do museu Giramundo

Bonecos do Giramundo

O dragão e a princesa

Quijote y yo

Sancho y yo

Bonecos do espetáculo Giz

Bonecos em cena

Dieta a pão de queijo

– Bom, dia senhor Vinícius, é o nosso serviço de despertador, já são sete e meia.

– Muitíssimo obrigado mesmo! – agradeço.

É assim que começa o meu dia no hotel. Como esqueci o carregador do celular, sou despertado por alguém que me acorda pelo telefone. Desço, trezeguetiando, até o pilotis e desjejuo rodeado de pães de queijos. Vou ao curso. 10:30 é sinônimo de intervalo. O lanche: muitos pães de queijo. Quando chega o almoço eu nem tento comer nada, com medo que me ofereçam pães de queijo. 15:30 é sinônimo de um segundo intervalo e, adivinhem: mais pães de queijo. Como não almocei, sinto fome e sou obrigado a comer. Às 18h saio do trabalho e vou procurar um lugar para jantar que não possa oferecer-me pão de queijo, difícil tarefa, até McDonald’s, hoje em dia, serve pão de queijo. Imagino: dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles, num pão de queijo! É Minas Mac! Volto ao quarto. Recostado, durmo. Tenho pesadelos terríveis com um imenso senhor Pão de Queijo que me persegue rodeado de pães de queijinho. Sempre que estou no auge do pesadelo, toca o telefone. Então, não resisto e agradeço enfaticamente àquele que me salva: Muitíssimo obrigado mesmo!

Antunes
Belo Horizonte, 25 de novembro de 2009

Belo Horizonte por trás dos muros

Voltei a BH. Viagem bem distinta da outra, embora se repita o local de trabalho e de hospedagem.  Outrora, a cidade foi-me um pátio aberto a descobertas, agora é uma prisão de luxo. Vejo o sol nascer, cotidianamente, por trás das grades. O quarto do hotel é gélido, a sala de aula também, embora seja o calor que reine do lado de fora. Vivo no império do ar-condicionado e eu não sei se tenho prazer em ser seu súdito. Passo, todo dia, pela Praça da Estação, mas não me toca, sinto-me no quarto, encarcerado pelo laptop, pelo trabalho, pelo cansaço. BH, parece que já te conheci e não quero mais conhecer-te. Tuas ruas me chamam? Se chamam, não ouço. BH, deixa-me aqui no meu quarto escuro, neste frio de cemitério, pois esta noite eu morri.

Antunes
Belo Horizonte, 24 de novembro de 2009

BH por entre a janela

O frio quarto do hotel

Respaldado à Estação

Nôla,

E se entrelaçássemos as mãos? São tantos os casais respaldados às muretas que dão para a Praça da Estação. Já não há Sol, nem Lua, só nuvens disformes.  Não posso comentar que o dia está lindo, nem que a Lua brilha, tampouco sobre os desenhos que as nuvens deveriam fazer, mas não fazem, estão incomunicáveis. Só há silêncio nesse segundo. Eu despedaçaria aquele relógio elevado aos céus para ascender a ti. Aí, sim, o mundo seria mais belo, contigo no centro de tudo. As pessoas não correriam ao ver o tempo passar, andariam devagar pra ver a ti. Observo uma paisagem de prédios, daqui há mais arte de homens que de Deus. Aperta firme a minha mão, Nôla, pois o trem está passando e não quero que te leve. Confesso-te: a única certeza que tenho é que choverá, inclusive, engano-me no tempo do verbo: chove. Já sinto as gotas. Temos que ir, Nôla. Temos que deixar de olhar o horizonte. Vamos. Vou-me. Mas, afinal, por que estou a falar contigo se estás tão longe?

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2009

Vista da Praça da Estação em fim de tarde nublado

Libertas quae sera tamem

Logo que cheguei ao aeroporto de Minas Gerais, deparei-me com um bochechudo Tancredo Neves e embaixo a frase: Liberdade é o outro nome de Minas. Com manias de turista nipônico, fui andar no Mercado Municipal, a tirar fotos e a comprar regalos inúteis. Não resisti a uma camisa com a bandeira do Estado que contém a frase do título: libertas quae será tamem. Consultando o mapa com os pontos turísticos que eu havia separado, percebi que um dos principais deles era uma tal Praça da Liberdade. Liberdade, liberdade, liberdade… vi que essa é uma marca da qual o mineiro se orgulha. Podemos andar livres pelo Centro de Cidade, sem qualquer ameaça, sentimo-nos seguros, suas praças transmitem uma sensação de liberdade, ao ponto de lembrar-me um ditado medieval: “o ar da cidade cheira a liberdade”.  Durante a tarde, a igreja de São José está lotada, os parques lotados, as praças lotadas. Terá o homem se libertado do trabalho? Andando na hora do almoço pelo Parque Municipal, vi casais que se beijavam apaixonadamente entre mendigos. O parapeito da Praça da Estação é repleto de casais que se beijam: vi menina de quinze beijar homem de trinta e homem barbudo beijar homem bigodudo na boca, sob a luz do Sol. Minas, teu outro nome é liberdade! Então pra que tanta polícia montada?

Antunes, 13 e 14 de novembro de 2009 – Belo Horizonte e Rio de Janeiro

Casal entre mendigos no Parque Municipal
Um apaixonado casal sob a copa da árvore entre mendigos

A Polícia Montada desmontada

A Polícia Montada desmontada


O fofinho Tancredo Neves do Aeroporto

Um pássaro morto no Museu das Artes e Ofícios. Casual metáfora?

Turismo andarilhante pelo Centro de Belo Horizonte

Comprometi-me comigo mesmo a andarilhar pelas ruas de Belô, depois de todo dia de trabalho, para sentir o clima da cidade e conhecer os pontos turísticos. Algumas vezes arrisquei as caminhadas na hora do almoço também. Desta forma, passei pela Praça da Liberdade, pelo Centro Cultural, pelo Parque Municipal, pelo Mercado Municipal, Pela Igreja de São José e comi no famoso, tradicional e caro restaurante da Dona Lucinha. Além disso, tive o privilégio de trabalhar três dias bem de frente pra Praça da Estação, na minha humilde opinião, o lugar mais bonito e charmoso de Belô.

Poucos pontos me chamaram verdadeiramente a atenção. Um deles, como disse, foi a Praça da Estação, por possuir um clima peculiar e ter me lembrado uma Central do Brasil que deu certo. Pensei que os arredores da nossa estação de trens também poderiam ser seguros e bonitos como aquele, até porque têm um potencial muito maior. O segundo ponto me surpreendeu pelas demonstrações religiosas bem no horário do almoço: foi a Igreja de São José, com sua diferente beleza, abrigava todos os tipos de pessoas que se ajoelhavam às portas e cultuavam um deus do meio-dia. Além disso, o Mercado Municipal também foi um bom passeio, com seus infinitos queijos e corredores, é um bom lugar para quem quer conhecer melhor a culinária mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

praça

Praça da Estação, o lugar mais charmoso de Belo Horizonte

centro_cultural

Centro Cultural de Belo Horizonte

liberdade

Praça da Liberdade

igreja_jose

Igreja de São José

igreja_dentroInterior da Igreja de São José por volta de meio dia

parque

Parque Municipal

mercado

Interior do Mercado Central

viaduto

Viaduto de Santa Teresa

Pampulha

O nome é feio, mas o lugar é bonito. Logo que cheguei de viagem fui visitá-lo. É provável que tenha sido o dia em que mais andei em toda a minha vida. Meio perdidão, fiquei rodando feito um peru em torno da Lagoa, a ver as criações do Niemeyer. A Pampulha, pra quem não sabe, é um bairro de magnatas que fica em Belo Horizonte. Ali, podem-se ver casarões que avistam as águas da lagoa e recebem a sombra de palmeiras. Vale destacar que os mineiros são obcecados por palmeiras. Tudo que é ponto turístico mineiro tem destas árvores.

Logo de cara, uma coisa me chamou a atenção: no meio da lagoa dos mauricinhos, sai uma Iemanjá meio torta, mas toda serelepe. É um monumento à cultura negra, curiosamente, no meio de um dos lugares que menos têm negros em Minas Gerais. Talvez Iemanjá atenda a algum tipo de cotas, visto que logo ali por perto está a Igreja de São Francisco. Se bem que, pensando direitinho, São Francisco é o santo católico relacionado ao voto de pobreza: por que cargas d’água está logo na Pampulha?

Antes de chegar à Igreja que está sob a sorte de ter a junção de Portinari e Niemeyer, andei diante da Casa de Baile e do Iate Tênis clube. Pude contemplar vários pescadores pescando em local proibido os peixes que, segundo a placa, estão envenenados. Na Igreja, um misto de decepção e alegria. Alegria por ter chegado e visto a beleza arquitetônica, decepção, pois a igreja é tão pequena, mas tão pequena, que não fiquei ali um décimo do tempo que levei pra chegar. Além disso, tem que se pagar dois Reais à entrada… foi tempo em que a fé era pública.

Terminei minha Via Sacra no estádio do Mineirão, o qual é bonito, mas pra quem está acostumado com Maracanã, não é nada impressionante. Por fim, fui me sepultar na cama do hotel para ver se ressuscitava no dia seguinte.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

casas

Os casarões da Pampulha cercados de palmeiras

lagoa

A Lagoa da Pampulha

iemanja

A Iemanjá: tortinha, mas serelepe

casa_de_baile

A Casa de Baile

igreja

A Igreja de São Francisco

O Mineirão
Mineirão

A tela e o texto

Já disse em outras crônica, volto a dizer. Mineiro gosta de ser intelectual e apresenta as provas: quantos presidentes mineiros tivemos? Quantos poetas e prosistas mineiros? Minas Gerais cheira a cultura, dizem. Não sei se é exagero ou se está na medida, sei que em BH são muitos os teatros e o fato que mais me impressionou ocorreu no ônibus: lá, no lugar do povão, por onde passam milhares de pessoas todos os dias, estão escritores de todo o Brasil. Mas, como assim? Entre num ônibus de BH, sente no banco e olhe atentamente. Pendurado nas costas do acento da frente, você verá uma folha, plastificada, contendo um texto literário: poema, crônica, conto. O projeto é muito interessante e pode ajudar o trabalhador a melhorar a qualidade de seus engarrafamentos. O fantástico está no seguinte: não é você que escolhe o texto, é o texto que escolhe você. Foi ali que me escolheu A Mulher de Anacleto e sua vingança post-mortem. A curiosidade que trago é: será que alguém resiste a ler um destes textos e não cortar o barbante para levá-lo pra casa?! Há que resistir a tentação, senão, que se vingue a Mulher de Anacleto, que se vingue Lima Barreto.

Para quem quiser conhecer mais do projeto o site é: http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/index.html

Antunes No avião da Gol, saindo de Belo Horizonte, rumo ao Rio de Janeiro, 13 de novembro de 2009.

tela e texto

Foto que tirei dentro do ônibus, lendo A Mulher de Anacleto.