Uma fazenda em Canaã

Quem me contou esta história foi meu guia: Luiz Gonzaga. Viajávamos de Parauapebas para Canaã e o “era uma vez” foi balbuciado diante duma fazenda abandonada. Transcrevo: “Era uma vez um homem que cá vivia: chapéu rasgado, macacão rasgado, botas rasgadas, olhos rasgados, parecia descendente de índios, não se sabe. Vivia entre os suínos que eram os primeiros a lhe grunhir “bom dia”. Comia ao lado deles. Dormia ao lado deles. Namorava com eles, ou, dizem alguns, namorava-os. Era porco também. Dado dia, chegaram dois famintos e lhe roubaram um porco das centenas. Zé dos Porcos foi à polícia, deu parte e ajudou a caçar e a prender os rateiros. Passados dias, um tiro fechou os olhos do Zé. Dizem que foi um amigo dos moços à guisa de vingança. Os porcos lhe comeram as carnes e quando descobriram o corpo só tava esqueleto. Descobriram também que debaixo da cama havia montanhas de ouro ainda da Serra Pelada. A família do Zé era de São Paulo e cansava de chamá-lo pra morar consigo. Zé dizia sempre não, se é que sabia pronunciar algo. Suas carnes ficaram para os porcos, seu ouro para os herdeiros e seus ossos bastaram ao chão.” Foi assim que seu Luiz concluiu a história, lembro como fosse agora.

Antunes

Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2009

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