No ventre duma bexiga

“Uma das turmas foi cancelada”. Recebi esta notícia à noite e tive minha volta ao Rio antecipada. Como não estava por dentro de todos aeroportos próximos, restaram-me duas opções: 1-esperar de sexta-feira até segunda; 2-ir de ônibus até Belém e voltar ainda no sábado.

Insano, escolhi a segunda opção. Ainda era quinta à noite: liguei para o meu guia, Luiz Gonzaga, e pedi que comprasse, por favor, minha passagem de ônibus em Parauapebas.

Ocorreu como previsto: sexta-feira, mal nascia a Lua, mal se punha o Sol, eu tava na rodoviária de Peba. Tive o prazer de conversar com uma senhorinha muito engraçada, vendedora muambeira, que dizia ter morado e trabalhado na Goiânia Francesas, seja lá o que for isso.

Quando entrei no ônibus, tomei a seguinte decisão: farei toda a viagem sem sequer mover um músculo, só o suficiente pra respirar. Detive-me em posição fetal e assim foi. Viajei dormindo a viagem inteira e fui premiado com a sorte de um furo no pneu (do ônibus) e o aumento da viagem de 14 para 16 horas. Além disso, o ônibus tinha um cheiro tão forte, mas tão forte de mijo que aprendi a respirar de formas diversificadas. De madrugada, sonhei que estava no ventre de uma bexiga, do qual só nasceria de manhãzinha na rodoviária de Belém, onde reaprenderia a andar.

Antunes

Rio de Janeiro, 10 de novembro

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