Os anjos

Quase sempre retratam os anjos como sendo aquelas criancinhas gordinhas, arianas e peladas, com as bochechas rosadas. Não fico com essa imagem. Fico com a do anjo do García Marquez no conto Senhor muito velho com umas asas enormes. Feita esta observação inicial, passo ao causo que ocorreu comigo na volta de Belém para o Rio de Janeiro.

Era uma família com quatro pessoas: uma senhora bem idosa, um idoso senhor, um cinqüentão japonês e uma cinqüentona nordestina. Ali estavam pais e filhos, mais pais que filhos, pois os filhos pareciam querer desvencilharem-se dos velhos pais que falavam pelos  cotovelos. Ele muito paciente. Ela parecia ter Alzheimer.  Transcrevo o diálogo ipse liters:

Ela: Eu quero mais viajar de avião não.
Ele: Estão fazendo um trem bala, não precisa mais se preocupar.
Ela: É que eu não gosto de voar.
Ele: Linda, voar é tão rápido.
Ela: Mas aquelas aeromoças ficam cochichando, eu acho que tá acontecendo alguma coisa.
Ele: Não tá acontecendo nada, bem.
Ela: Mas quando você foi no banheiro, eu achei que fossem me assaltar.
Ele: Fica tranqüila. Relaxa e olha a paisagem.
Ela: Tá tudo nublado.
Ele: É verdade, hoje não vou poder te mostrar aqueles anjos que voam por aqui.

E, por agora, esta foi a última história da viagem que fiz ao Pará. Volto ao Rio.

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2009

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