Desce, moço! Desce!

Parece que o dia 10 de novembro de 2009 era mesmo meu dia de histórias com taxi. Depois do Rio, dita na postagem anterior, conto outra, já em Belo Horizonte. Cheguei perdido a um aeroporto que sei lá qual era, saí quase cambaleando, impressionado, parecia que pousáramos no meio do mato. Olhei um busto: era o presidente Tancredo, descobri que o nome do aeroporto era o nome de vossa excelência. Liguei prum número de taxi que constava no voucher.

– Preciso dum taxi.
– Pois diga.
– Digo: tô no aeroporto.
– E qual?
–  Do Tancredo.
–  Da Pampulha?
– Sei lá, só sei que é do Tancredo.
–  Tá bom, já mando o taxi
.

Nada do taxi vir. Chegou um sujeito até mim.
– Pediu um taxi?
– Pedi.
-Qual?
– É tal.
– Iiih, tal taxi não atende aqui não.
– Como não?
– Não.
– Entendi.

Liguei e perguntei. A moça confirmou que viria. Veio de novo o sujeito:

– Liga de novo.
– De novo?
–  É.

Liguei. Expliquei pra moça do telefone e ela falou: ah, cê tá no Confins, aí a gente não atende mesmo não. Logo me assustei, pois o nome do lugar era muito sugestivo. Como eu conseguiria um taxi no Confins, ou, talvez, nos confins. Veio o moço de novo, disse que tal empresa lá aceitava o voucher e ficava ali onde apontava ele. Fui. Cheguei diante dos carros:

– Seu moço, aceita este voucher.
– Pois, sei não, vou perguntar pra meu amigo.

Perguntado, o amigo respondeu: aceita, leva ele (esse ele sou eu). Fui com o velhinho quase centenário a dirigir com sua cara de bonzinho. Chegamos ao meio do caminho, toca o celular do vô. Fala um pouco e, depois, o velhinho passa o celular pra mim: a moça da cooperativa quer falar contigo. Atendi.

– Com quem falo? – disse ela.
– É com o Vinícius.
– Seu Vinícius, não aceitamos tal voucher.
E? – falei-lhe sonoramente.
Como ‘e?’?
– O que você quer que eu faça?
– O senhor vai ter que pagar.
– Até pago, mas quede dinheiro?
– Se o senhor não tem dinheiro vai ter que descer
(lembro ao leitor que estávamos no meio da estrada)
– Não vou descer, pois o erro foi de vocês.
– O senhor vai ter que descer ou pagar a corrida
– dizia a dona que começava a se desesperar.
– Não vou descer – respondi-lhe.

Então, já sem saber o que falar, nervosa e desesperada, pois a empresa poderia perder esta viagem de 87 Reais, a senhorinha começa a me dizer, infantilmente: Desce, moço! Desce! Vai ter que descer, moço. Desce!

E eu, como alento para aquele pobre coração, com uma palavra definitiva e revitalizadora, lhe respondi: Tá bom, pode deixar que vou descer. É só esperar chegar no hotel. Desliguei o telefone, finalizei a crônica.

Antunes
Belo Horizonte, 12 de novembro de 2009

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