Dois heróis contra a ditadura hoteleira

Diz a sabedoria popular: “as regras são feitas para serem quebradas.” Há, biologicamente comprovado pela Universidade José Ribeiro de Andrade e Silva, localizada ao número 500 da rua Engenheiro Américo Bismarck de Souza – Centro, um gene carioca que tem por característica deixar os que nascem na região do Rio de Janeiro com o ajeitamento da malandragem. Cuide-se leitor para que não seja devorado pelo mar de sentidos da palavra “malandragem”. Poderá interpretar-me mal, querendo reduzir o texto a um elogio à bandidagem, ode ao desrespeito, apologia à contravenção. Porém, falarei aqui de malandragem no sentido romântico. Falarei de dois heróis que ousaram derrubar uma ditadura com a arma da esperteza. Se vossos olhos preferem outra interpretação, busque-a. Entretanto, é problema exclusivamente seu.

O direito humano à água é indispensável para viver dignamente e é condição prévia para a realização de outros direitos humanos. (Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas)

Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação. (Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Em Buenos Aires, ficamos em um hotel que vai contra os mais essenciais direitos humanos: comeire e bebeire (diria meu avô português). Não se podia entrar no quarto portando bebida qualquer. Não se podia entrar no quarto portando comida qualquer. Tampouco havia comida no hotel. O quarto não possuía frigobar, não se servia almoço e janta. O que confirmava a regra era a exceção chamada desayuno (café-da-manhã).

Benfazejos somos, ainda, por movimentar a economia argentina. Estávamos no supermercado a comprar coisas, quando fomos constrangidos pela dor da fome. Resolvemos adquirir comida, mas lembramos que o hotel nos impedia. O que respeitar, leitor: nossa fome, criada por Deus, ou as regras injustificáveis de uma ditadura hoteleira? Quem tem fome, tem pressa, diria Betinho. Corremos para as prateleiras e nos abastamos de comida. Porém, como entrar com tudo que compramos pelas muralhas do hotel? Resolvemos, sabiamente, levar uma mala (apenas 40 reais na Argentina) e irromper a fortaleza.

Feito! Subimos ao quarto e banqueteamos. Porém… no seguinte dia viria o revés.

Vinícius, jogue o que sobrou do suco de maçã fora. – Solicitou-me minha esposa.

Ingenuamente, joguei a embalagem num saco plástico sem despejar o conteúdo na pia. “Não há nada tão ruim que não possa piorar” (guarde este sábio ditado).

Saímos do quarto. Emanoelle levava o lixo em sua bolsa. Quando chegamos ao elevador, todo o chão do andar estava batizado em suco de maçã, a bolsa plástica havia furado e a bolsa de nossa heroína estava encharcada. Rapidamente, resolvemos voltar à base. Porém, quando chegamos à porta, a chave havia ficado do lado de dentro. Parecia que nós, seus heróis, estávamos derrotados.

O revés do revés:

Depois de ficarmos alguns momentos como formigas que perderam o rastro, achamos a solução. Emanoelle sentou-se na escada como quem está exausto e escondeu a bolsa entre seu corpo e a parede. Eu desci, só, pelo elevador, fui ao banheiro do térreo e recheei minha super cueca com toalhas de papel. Retornei ao andar e sequei o chão com as toalhas. Desci novamente, fui à recepção e falei nervoso: –  Buen día, les pido perdón, pero mi esposa se olvidó de la llave en la habitación.O gerente respondeu-me: No hay problema, señor e, pelo rádio, pediu que a camareira abrisse a porta. Dona Carmen (era seu nome) pisoteou o grudento chão do andar e abriu-nos a base. – Gracias. – No, por favor. Estávamos próximos da vitória. Pegamos uma toalha de rosto, molhamos na banheira e tiramos o grude de maçã do chão. Posteriormente, pegamos uma toalha seca e enxugamos. Emanoelle trocou de bolsa, lavou a que estava suja na banheira, deixou-a secando na varanda. Com o lixo em bolsas de presente, conseguimos ganhar as ruas. Estávamos libertos da ditadura, havíamos vencido.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2010

Herói zomba da ditadura hoteleira

La nochebuena. Heróis brindam a vitória!

Chocolatinho de sobremesa. Comer ou não comer, eis a questão?!

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