El Ateneo

A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas
(BORGES, a biblioteca de Babel)

A frase acima é de Borges, diante da mágica Biblioteca de Babel, onde tudo está escrito. Arrisco, abusadamente, ir além e dizer que o alfabeto é futuramente uma biblioteca de Babel, pois através dele está tudo potencialmente escrito. Digo também: pior que saber que tudo está escrito, é saber que apenas Deus possui tempo hábil para ler tudo e não precisa lê-lo, pois é onisciente. Evoco Sartre e a dor da escolha: ler é escolher o que ler. Quando morrer, quero ser cremado e que minhas cinzas sejam esquecidas dentro de um livro sem título que fique numa imensa e repleta prateleira, entre Cervantes e Borges. Pois, é na solidão de papel que me sinto bem. Tenho um delírio estético quando olho o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro; sinto-me confortável entre as estantes da Travessa. Tive também delírios em El Ateneo, em Buenos Aires. A livraria segundo o jornalista inglês Sean Dodson do The Guardian é a segunda mais bonita do mundo, atrás apenas da Boekhandel Selexyz Dominicanen. Porém, beleza, quiçá, não seja realmente tudo. A imensidão da livraria, a distância entre as estantes, fez com que me sentisse frio e, confesso, que não encontrei ali o calor que encontro em um feio, empoeirado, pequeno, mas familiar sebo da Regente Feijó no Centro do Rio.

Antunes
Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2009

Entre os livros do Ateneo

Nôla no Ateneo

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