Estória do Zoológico de Buenos Aires

Este texto ficou em segundo lugar no concurso Olha Andarilho.

Há doenças que se adquirem na infância e ficam. Há doenças que se adquirem até antes de nascer: ser gente. É por eu ser gente e por ser gente ser uma doença que me adoeci pelos bichos. Gosto de vê-los, ainda que presos. Sendo de sincero egoísmo, não me importo com suas liberdades, importo-me tão somente em vê-los. Na Quinta da Boa-vista, talvez, tenha eu vivido as maiores diversões de minha infância, parecia-me gigante e mágica. Com o tempo, sua magia despedaçou-se. Hoje, acho seu zoológico pequeno, seus bichos maltratados e tristes, resta-me o parque. Já com mais de vinte, fui ao Zoológico de São Paulo e, a falsa liberdade dos bichos, complementada pelas faces saudáveis, animaram-me, novamente, quanto a visitar zoológicos. Assim, em Buenos Aires, não poderia deixar de interpretar infâncias. Encontrei um zoológico imenso, com animais que vivem em família, bem cuidados e enganam-nos como se sorrissem. A interação com eles é fantástica e a proximidade também. Oportunamente, acariciei os carrapatos da cabeça duma mula, fui juiz em rixa de babuínos, contemplei uma família chimpanzés, maravilhei-me diante da imensidão do urso polar e perdi-me pelas misteriosas listras dum tigre branco. Foi quando estava diante da jaula do tigre que conheci Jorge Francisco Acevedo, não sei se visitante ou funcionário, velho cegueta que puxou assunto assim que me debrucei no parapeito:

– ¿Te gustan los tigres?

– Mucho – o respondi.

– Mas este não é o mais perigoso dos animais que temos aqui. Há um muito mais traiçoeiro.

– Mesmo? Estou ansioso pra vê-lo.

– Não o verás.

– Sua jaula está em obra?

– Não, apenas não sabes o caminho.

– E podes me dizer?

– Siga-me.

Acevedo foi passando sua bengala pelo chão e conduziu-me pelo zoológico como se já o tivesse decorado, porém muito me assustei quando tomou a direção do banheiro, pensei: “ou o cego errou o caminho, ou irá mostrar-me algum aracnídeo foragido…” Tomou cuidado com o degrau e mandou-me entrar. Dentro, pôs-me diante da pia, apontou-me o espelho e disse: “olhe, lá está.”

Antunes

Rio de Janeiro, 23 de janeiro de 2010

A bonita arquitetura do Zoo de Bs.As.

Acariciei os carrapatos da cabeça duma mula

Diante dum tigre branco

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