Vozes de Paragominas

“E isso é o pior mesmo. Essa coisa da especulação imobiliária aqui. Eu num sei não, às vez penso até em largar tudo. São dois peso e duas medida: se cê chega com o uniforme da Vale o apartamento é um preço, chega sem uniforme é outro. Eles acha que porque é funcionário da Vale tem dinheiro, num faz idéia de quanto a gente ganha. E como se vive assim, uai? E comprar terreno? Num dá também não. Chuta aí, sabe quanto tá? Cinqüenta mil um terreno! Não, mas já tô vendo, qualquer dia volto pra Minas.”

Henrique Andrade – 33 anos – Mineiro

“Pense: como é que faço com minha família? Os colégio são fraco, num tem lazer, num tem faculdade direito também. Tá certo que se compará com Parauapebas, Canaã, Ourilândia, até tem. Mas, se comparar com Recife donde vim, tem não. Recife é uma metrópole, homi, a gente vem pra cá estranha, né? E o carnaval agora? Tem nada. É bom pra dormí, só assim descansa. Senão eu ia pra Olinda, mas vô não, com filho, sabe como é, né? Oxi, mulé ciumenta também, aqui num se pode nem olhá pro lado, é todo mundo conhecido. Cidade pequena tem disso, né?”

Januário Martins – 38 anos – Pernambucano

“Mesmo sendo judeu. Isso, judeu. Sempre me trataram muito bem aqui. Paragominas é uma cidade cosmopolita (risos). Deve ser porque tem gente de todo lado: maranhense tem muito, mineiro, goiano. Do Paraná não tem muitos não. Tem eu, conheço mais uns três. Então, aí por isso deve ter essa coisa de aceitar todo mundo. Já trabalhei em lugar que fui muito discriminado, mas aqui não. Guardo o sábado, não como comida impura e nunca tive problema. Sempre o maior respeito, sabe? Tem gente que reclama muito, eu até gosto daqui. Claro, não é que nem o Paraná, eu tenho vontade de voltar, mas não agora, mais pra frente, quem sabe? O Paraná é um Estado incrível. Conhece? Não! Tem que conhecer. Não tem violência que nem aqui. Aqui, se tem moto, tão roubando. Se briga, é capaz de te matarem sem perguntar o nome. Lá não tem isso não. Sem falar que a cidade é limpa, nem parece Brasil. Aqui parece bastante.”

Igor Benjamin – 29 anos – Paranaense

“Às vezes acho que nem tô no Pará. É muito diferente de Belém aqui. É um pessoal estranho, é todo mundo do seu trabalho, sempre as mesmas pessoas. Olha, não vou dizer que não gosto porque não vô falar mal de onde vivo, né? Mas, Belém é muito melhor, tem lugares pra ir. E pra casar? Não sei como vou casar aqui não. Outro dia liguei pra minha mãe, tava falando com ela: mãe, vô morrê soltera nesse lugar! Por quê? Porque é sempre os mesmos homes. O pessoal é simpático, mas vira coleguinha de trabalho. Sem falar na fofocada, né? Você vai comê pizza com alguém, amanhã já tá todo mundo comentando. E ainda tem os preconceitos do pessoal dos outros lugar, né? Ah… tem muitos. Por exemplo, dizem que a gente só gosta de calypso. Mentira. Bom, até gosto, mas gosto de outras coisas também: axé, sertanejo…”

Márcia Nascimento – 27 anos – Paraense

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de fevereiro de 2010

3 Respostas para “Vozes de Paragominas

  1. “Por exemplo, dizem que a gente só gosta de calypso. Mentira. Bom, até gosto, mas gosto de outras coisas também: axé, sertanejo…”

    Hahahahahaha!!! Sensacional!!

  2. Pena que ela não goste de funk a grande contribuição à música carioca atualmente

  3. Gil,

    Uma pena mesmo, principalmente depois que surgiu o MC Vitinho Sou Foda. Um gênio!

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