Arquivo do mês: fevereiro 2010

Parauagrécia – o presente

Pelo fato de ligar para marcar taxi pra outras pessoas, mantive certo contato com O Guia da Floresta seu Luiz Gonzaga, pai do também motorista Nelson Nedi. Ademais do contato pelo telefone, trocamos cordialidades, inclusive presentes. Regalei-o um porta-retratos com foto sua que tirei e, em troca, mandou-me um pesado isopor que recebi pelas mãos de minha amiga de trabalho, Xandinha Magalhães. No ápice da curiosidade e entre os astutos olhares dos colegas de trabalho, resolvi abrir aquele sarcófago para ver que mistérios guardava. Vi um monte de sacos plásticos enrolados e não era possível compreender mais nada. Foi quando gigantescas formigas amazônicas saltaram do isopor como gregos saltaram do Cavalo de Tróia. Fechei o presente enquanto era tempo e pisoteei algumas formigas que se aventuravam pelo carpete. Com o isopor bem fechado, cheguei em casa e criei uma estratégia de guerra baseada em Sun Tzu, pus luvas, enfiei o isopor dentro do tanque, abri. Formigas estavam ansiosas para saltar dali, fugiam com perspicácia e dominavam diversas artes marciais. Apressado, desenrolei as sacolas plásticas: encontrei doce de bacuri, polpa de cupuaçu, queijo, castanhas descascadas e castanhas com casca e terra – daqui vinham as formigas. Fervi água no microondas, retirei tudo que tinha no isopor – menos as castanhas com casca e terra e tasquei aquele fervor dos infernos nas bichas. Elas agonizaram e não desistiram, algumas tentaram ataques suicidas. O combate durou uma interminável noite. Desta vez, quem venceu foi Tróia!

Antunes
11 de fevereiro de 2010

O Isopor no tanque

Deixando só as castanhas com terra no Isopor

Só as castanhas no Isopor

Vitória obtida, mesa posta

Los diez mejores y los diez peores

Depois que Emanoelle e eu desbravamos Buenos Aires resolvemos fazer um clássico, tosco, porém emocionante TOP 10. Confira a lista abaixo (os melhores estão separados por opinião dela e dele, os piores foram eleitos em conjunto)

TOP 10 – melhores de Buenos Aires

Ella – primero las damas

1-Floralis
2-Caminito
3-Feria de la plaza francia
4-Dulce de leche
5-MALBA
6-Calle Florida
7-Helados
8-Plazas (incluso la de Mayo)
9-Supermercados
10-Zoo

Él – después los caballeros

1-Caminito
2-Floralis
3-Zoo
4-Dulce de leche
5-Bombonera
6-Plazas (incluso la de Mayo)
7-MALBA
8-Ateneo
9-Empanadas
10-Precio de los libros de Borges

TOP 10 – Piores de Buenos Aires

Por los dos (ella y él)

1 – Notas falsas
2 – Mosquitos
3 – Filme do cinema 3D do Zoo
4 – Proibição de tirar fotos no MALBA
5 – Vendedores de loja de couro
6 – Cocô de cachorro nas calçadas
7 – Centro Cultural Borges
8 – Molho das massas vendido separadamente
9 – As carnes estranhas
10 – Senhoras de biquíni nas praças

Antunes e Nôla Farias
Janeiro de 2010

Obrigada! Muito obrigada!

Por Nôla Farias – participação especial

A primeira dificuldade foi hablar a língua hermana. Para o cérebro, a Geografia não faz sentido no apenas saber-se em algum lugar. Pois bem, havia voado por três horas e sabia que estava em Buenos Aires, mas o espanhol não me saía da boca. Aliás, não me chegava à boca.

Vinícius não compreendeu, achava que eu não falava porque não queria, ou porque me sentia insegura. Mas não era o caso, eu queria. E ainda que não tenha estudado regularmente espanhol – as aulas do ensino fundamental não contam – me dou muito bem com a língua nos tantos textos acadêmicos sobre a geografia da América do Sul e mesmo nas músicas e filmes com os quais, não raro, me relaciono.

Entretanto toda minha racionalidade não foi suficiente para que eu pensasse antes de falar e pudesse pronunciar “gracias”, “permiso” ou mesmo “buenos días”. Mas felizmente esse problema se resolveu e lá pelo terceiro dia já conseguia estabelecer uma comunicação básica na língua local.

Como disse inicialmente, este foi apenas o primeiro problema. Porque, cá entre nós, tirar férias é muito bom, mas turista em terra estranha só se ferra. E foi obedecendo à regra que eu pisei em cocô de cachorro, recebi pesos falsos, paguei caro em táxis, confiei em sugestões pouco confiáveis de um guia, entrei em ônibus sem moedas…

Aliás, outro dia estava andando pra Lapa quando dois TURISTAS (com letras maiúsculas porque são aqueles branquelos de chapéuzinhos e com a câmera pendurada no pescoço, os mais assaltáveis) me perguntaram onde ficava a estação pro bonde de Santa Teresa e se, lá, era perigoso… me questionei se os boanerenses sentiam de mim a mesma pena e achavam a mesma graça que senti/achei dos dois…

Nôla Farias

Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 2010

Nove rainhas e trinta pesos – o caso das notas falsas

Estão por toda a parte, só que não os vemos: ladrões, batedores, bandidos, criminosos, larápios, enganadores, malandros, seteuns, mãos-leves… Esta frase com que começo, é muito próxima da que diz Ricardo Darín no miolo do filme Nueve Reinas. E, na Argentina, quiçá seja mesmo assim. Não os vi, mas acredito que estavam ali, prontos para passarem a perna em alguém, principalmente se for um turista bobo-alegre.  Inclusive, o guia de viagens da Abril, recomenda: em Buenos Aires, cuida-te das notas falsas.

Foi assim: o casal de recém-casados recheado de parrillada e fugido dos mosquitos portenhos tombou pra dentro de um taxi em que o motorista era um vovozinho quase Noel. Foram, no silêncio daquele olhar que os espreitava pelo retrovisor, até a porta do hotel. Na despedida, pagam com 50 pesos. Agradeceram e receberam 30 de cambio. No dia seguinte, foram ao mercado, pagaram com as notas que haviam recebido e acabaram sob os olhares de todos: !estos billetes son falsos, señores!

Antes de ir para Buenos Aires, assista infinitas vezes o filme de Fabián Bielinsky, Nove Rainhas. Mas não assista a ponto de acostumar e sim de continuar estranhando. Vá atento, acredite nas histórias mais mirabolantes, desconfie, inclusive, de todos os vovôs e vovós (para isso dê uma olhada no filme Elsa e Fred no qual está uma argentina embustera), ande apenas com dinheiro trocado e de baixo valor. Porém, se você quer histórias para contar: deixe-se enganar, arrisque. Afinal, agradeço ao amado vovô-taxista-ladrão, se não fosse ele, eu não teria esta experiência para compartilhar. Nem foi tão caro, esta crônica custou-me 15 Reais.

Antunes
5 de fevereiro de 2009

Foto dos Pesos falsos

Outro lado dos pesos falsos

Puerto Madero – embarque ao futuro

Un ciego riachuelo de aguas barrosas, infamado de curtiembres y basuras” (BORGES, Riachuelo)

Brincar de Mãe Diná, dar uma de Nostradamus: prever! Puerto Madero parece ser o futuro, a saída, para as cidades com suas baías e rios fétidos e poluídos. Pegue um esgoto, dê uma disfarçada no cheiro, coloque umas pontes modernas e o envolva com restaurantes: eis a receita. Imagino a Praça XV, daqui a alguns anos, assim. Na Europa, ouço dizer, nunca vi, tudo é assim. Falam que Veneza nada mais é do que monte de águas podres vestidas de charmosas e que o rio Sena é quase um Tietê, porém, repare no glamour das frases: andei de balsa em Veneza (romantismo),  andei de barca na baía de Guanabara (sofrimento); andei às margens do Sena (parece verso), andei às margens do Tietê (parece piada). O problema é que estas mudanças nunca envolvem a cidade como um todo. Sempre existe aquela velha eleição de quais serão os locais favorecidos e os outros que se danem. Se vamos a Puerto Madero vemos a turistada tirando fotos e – se bobiar – há até quem sonhe em mergulhar naquelas águas podres – afinal, é glamoroso comer à beira delas. Porém, em Palermo, as águas são as mesmas e não houve uma limpezinha que fosse. O fedor está lá, a sujeira bem à vista e ninguém ousa tirar uma fotinho sequer – ninguém sendo eu a exceção, fui lá e bati, afinal, os feios também querem sair na foto.

Antunes
Paragominas, 8 de fevereiro de 2010

Riachuelo em Palerno - a parte fétida da história

Puerto Madero - a parte rica da história

Mi mujer en puente de la mujer (puerto madero)

¿Dónde están los otros?

Deve ser uma questão que passa pela cabeça de todo mundo que vai a Buenos Aires: ¿Dónde están los negritos? Se repararmos bem, a cidade com suas tendências italianas, diferente do Brasil, não é um lugar muito simpático à miscigenação.

Vamos a breves e generalizantes explicações:

No território que hoje corresponde à Argentina, os espanhóis, na época colonial, investiram pouquíssimo em mão-de-obra negra. Já os indígenas que estavam no local, levaram o maior couro e foram praticamente dizimados.

O mais curioso não é isso, pois sabemos o quanto os processos históricos são complexos e conturbados e muitas questões perdem suas origens através dos tempos. Curioso de verdade é a literatura formadora da identidade gaucha, ostentar total aversão aos indígenas. Deixo aqui, à guisa de curiosidade, alguns trechos para leitura e espanto:

Y cuando se iban los indios
Con lo que habían manotiao
Salíamos muy apuraos
A perseguirlos de atrás

Tradução:
E quando partiam os índios
Com o que tinham roubado
Saíamos bem depressa
Deles, íamos atrás

Allí sí, se ven desgracias
Y lágrimas y afliciones;
Naides le pida perdones
Al indio: pues donde dentre,
Roba y mata cuanto encuentra
Y quema las poblaciones.

Tradução:
Ali sim, se vêem desgraças
Lágrimas e aflições
Ninguém pede perdões
Ao índio: porque onde surge
Rouba e mata quem encontra
E queima os vilarejos

No salvan de su juror
Ni los pobres angelitos;
Viejos, mozos y chiquitos
Los mata del mesmo modo:
Que el indio lo arregla todo
Con la lanza y con gritos

Não se salvam de seu furor
Nem os pobres anjinhos
Velhos, moços e pequenininhos
O índio resolve tudo
Com lança e com gritos

Moral da história: não se vê negros e indígenas na Argentina, salvo as exceções e vários mendigos, é claro.

Antunes

Belém, 7 de fevereiro de 2010

Diante de Rosas, um dos governos que mais matou indígenas na Argentina

Tango-tchan!

Passam as épocas, passam as modas, passam… mas, algumas coisas perduram a despeito do tempo: em Buenos Aires é o tango. Tango, magnífico tanto, bailado com aquela imensurável sensualidade, tango das telas de Carlos Saura, tango que tive que ir até a Argentina para saber que sua origem está no candomblé. Tango, provavelmente a maior marca argentina. Vejam o samba no Brasil, parece imortal e sobrevive às suas milhares versões, deve ser assim também com o Tango. Há tango eletrônico, show de tango estilo broadway, o tradicional tango e o tango de rua. O tango que se consegue achar fácil na Argentina é aquele pra brasileiro ver, está em qualquer esquina de ponto turístico. A nós brasileiros faltou mostrarmos o quanto somos gratos. Passou-se a época do É o tchan! O grupo fez tchan no Havaí, tchan árabe, mas nunca rolou um Tango-tchan. Ia ser um sucesso! Por que falo isso? Pois a Argentina, pra agradar a nós, brazucas, praticamente lançou esta idéia (infelizmente antes de mim). As dançarinas de tango de rua estão além do sensual, estão perfeitamente vulgares com seus vestidos de rasgos ginecológicos, batons luz de zona e interpretações orgásmicas. Os brasileiros tarados agradecem.

Para quem quiser conferir como vai o Tango argentino, apesar de tudo, ou graças a tudo, muito bem bailado, ficam os vídeos abaixo.

Antunes

Belém, 7 de fevereiro de 2010