Arquivo do mês: março 2010

A decoração do palhaço!

As imagens deveriam falar por si só, leitor. Mas, além de ridículo, sou prolixo. Esboçarei um brevíssimo parágrafo:
Cheguei a Ourilândia às 10 da noite e fui deixado diante do hotel. Qual minha surpresa com aquelas impróprias cores: verde e roxo. Andei pela cidade e vi mais algumas casinhas audaciosas nas cores, todas verde e roxo. Pensei cá com meus botões: quem será este decorador que anda por aqui? Foi quando, num deslumbramento homérico, musas falaram ao meu ouvido: o Coringa, o Palhaço, o Joker! Exatamente como naquela redublagem do Batman que o leitor deve conhecer, intitulada Feira da Fruta. Sendo assim, buscando uma resposta para a crônica anterior, pensei: quiçá Ourilândia cause risos por isso, é a decoração do palhaço!

Antunes
Rio de Janeiro, 30 de março de 2010

Links:
Para acessar a crônica a qual me refiro:
https://cronicasdumasviagens.wordpress.com/2010/03/23/ourilandia-–-a-cidade-ridicula/

Para ler e ver a imagem do Coringa, do Palhaço, do Joker:
http://desciclo.pedia.ws/wiki/Coringa

Para ver o episódio redublado do Batman intitulado Feira da Fruta (não recomendado para menores):
http://www.youtube.com/watch?v=2vgI2BLTd_8

O hotel decorado pelo Coringa, o Palhaço, o Joker...

As paredes do quarto coringuiano

O hotel do Joker com vista pra rua de Ourilândia

Casinha em tons de verde e roxo, cena comum

Sinais dos tempos

Professô, agora Ourilândia é o paraíso, o sinhô tinha que vê cuméra antes.” (frase de um aluno, morador de Ourilândia há 25 anos)

Aqui é precário, né, professor? É um choque quando a gente vem pra cá. Por isso que eu sempre falo pro pessoal: aqui a gente tem que estar unido, pois a cidade não tem estrutura, o que faz possível viver aqui são as pessoas.” (aluna, moradora de Ourilândia há 2 meses)

Ao chegar pela estrada de terra batida e lama, tem-se a impressão que por ali passou um furacão. Não se pode dizer destruída porque sequer a cidade chegou a ser construída algum dia. As pessoas carregam no olhar a presença da ausência. As crianças andam cobertas de terra, desnudas pelas ruas, trabalham nos estabelecimentos. Não vi riso de criança em Ourilândia, não vi criança brincar. Vi legiões de crianças atendendo em hotéis, servido nos bares, vendendo nas tendas. Não vi criança nenhuma, vi corpos de crianças que agem como adultos. E a gente humilde e solícita, unida como deve ser um povo, feliz por receber os de fora, emprenhada daquele otimismo que nos causa inveja e raiva: a cidade já melhorou e ainda vai melhorar mais.

Antunes

Ourilândia, 26 de março de 2010

A BR que passa por Ourilândia

Égua!

– Fia, como vai essa terra aí de Ourilândia?

– Vai bem, minha mãe. E BH?

– Bem, fia. Sabe, ligo pra te dar uma notiça que num é muito boa não.

– Pois diga, minha mãe.

– Seu tio Anastaço, mataram.

– Égua, mãe!

– Tá doente, menina? Como me trata assim? Num fui eu que matei não.

– Tá doida, mãe?

– Tu me chamô de égua, eu bem ouvi.

– Não mãe, esquece isso, depois explico. Mas diz por que mataram o tio.

– Vingança, ele tava com muié casada.

– Pai d’égua!

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Para quem gosta de peculiaridades lingüísticas, tá aí a de Ourilândia. Por aqui “caramba”, “carambola”, “cacete”, “caraca”, “cacildis”, “putsgrila”, “nossinhora”, “virgimãe”, “meudeus” e outras não tão escrevíveis foram substituídas pelo feminino de cavalo: égua.  Ou seja, deu topada, morreu alguém, tirou nota baixa, recebeu má notícia, é só mandar um saudável: égua! Porém, se o caso for gravíssimo e um égua não bastar, não pense que Ourilândia te deixará na mão. Já inventaram o possante “Pai d’égua”, um superlativo, algo como: “carambíssimo”, “cacetíssimo”, “caraquíssimo”, bom para ser usado em mortes maternas, batida de ônibus com caminhão e perda de nota de cem. Esta crônica é de utilidade pública, principalmente para regiões como Ourilândia, interior do Pará de forma geral e mesmo Nordeste. Difunda esta mensagem para que mais pessoas não fiquem na mão.

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– Januário, quem foi que descobriu a América?

– Égua!

– Zero! Pra aprender a não zombar mais da professora.

– Pai d’égua!

Antunes

Ourilândia (hahahahHAHahahaha), 26 de março de 2010

É proibido usar capacete!

Creia, leitor. Creia porque a lógica é esta. Em Ourilândia é proibido usar capacete. Não que haja leis escritas, mas afinal de que servem as leis escritas se as que valem são orais? O meio de transporte mais comum aqui é a moto. Dos meios de vida, garantiram-me: um dos mais comuns é o roubo. E não fizeram a boa combinação dos meios: moto+roubo? Só duas estirpes de pessoas usam capacete por aqui, falou-me um aluno que está na cidade desde antes de sua emancipação: ou são funcionários da Vale ou são ladrões. Os funcionários da Vale usam capacete por medidas de segurança incentivadas pela empresa; os ladrões usam pra esconder a cara qual máscara. Daí vem a lenda de Jack Cabeça, dos mais misteriosos bandidos da região.

Dizem que ninguém nunca viu a cara do Jack Cabeça e que sua referência é o fato de mandar fazer seus capacetes sob medida, tamanha cabeça tem o moço. Jack Cabeça é/era (não se sabe seu paradeiro) assaltante cruel, matava e só depois mandava levantar as mãos. Inicialmente assaltava em dupla, com seu companheiro de garupa, Jacinto das Morte. Mas se desentenderam e o próprio Jack Cabeça o matou. Dizem que o diálogo foi rápido e rasteiro:

– Jack, quero saber se cê vai me pagá aquele dinheiro que tá me deveno.

– Já disse: vô! Num me aperreie mais!

– Tô precisano do dinheiro, Jack. Quero só vê se vai me pagá hoje!

– Tá me chamano de mentiroso!

– Tô não, Jack!

-Eu afirmei, num apergutei! E agora tá dizeno que eu tô mentino porque eu disse que cê disse que eu tava mentino!

Depois cantou o revólver de Jack. Era o fim de Jacinto das Morte.

A abordagem policial, por conta dos ladrões de capacete, é sempre a mesma. Param os motoqueiros que seguem as leis nacionais e mandam que cumpram as leis regionais:

– Ei, ô da moto. Encoste!

– Que foi, seu moço poliça?

– Tire o capacete!

– Tem cara de ladrão esse, Jailto?

– Tem não, Creisso.

– Tá liberado, então. Mas, num volte a colocá capacete que isso é coisa de bandido.

Tive o (des)prazer de ouvir como funciona o método de roubo de Jack Cabeça. Dizem que em seu último assalto parou a moto diante da mulher da barraca de bijuterias. A senhora, já trêmula e quase se urinando, só conseguiu perguntar:

– O sinhô de capacete é bandido, né?

E Jack Cabeça, irônico a respondeu:

– Sou não, sou funcionário da Vale.

A pobre, coitada, num breve alívio respondeu:

– Então o que o sinhô deseja?

– Vim só garimpar teu ouro! – Disse o Jack e deu uma risada estrondosa abafada pelo capacete.

Antunes

Terra dos Sem Capacete, 25 de março de 2010

Ourilândia, a Terra do Nunca

Logo que soube que iria a Ourilândia, joguei o nome da cidade no Google. A primeira coisa que me apareceu foi o site da Desciclopédia com o bizarro verbete que dizia o seguinte:

Sem dinheiro para ter uma terrinha em Tucumã todos esses garimpeiros invadiram uma fazenda e fizeram um povoado, construíram seus barracos de lona e pau-a-pique e viveram em condições sub-humanas de saneamento e urbanismo e assim Ourilândia do Norte foi fundada. Sabe-se-lá como foram elevados à condição de município.”

“A grande expressão da economia municipal são os pequenos coronéis criadores de gado, que aproveitam pouco menos de 2% de suas terras para tal ou as arrendaram para a mineração, desviando para si a maioria dos Royalties que a cidade consegue com a mina

A cidade possui uma infra-estrutura de comércio e serviços limitada, em seus supermercados quase sempre faltam mercadorias e as poucas que existem estão vencidas e foram adquiridas nos lixões de Marabá. No setor de vestuário, suas lojas apresentam algumas peças de roupas fora de moda e empoeiradas, tornando a cidade dependente de caixeiros viajantes para conseguir alguma coisa mais atual, como Jeans e camisetas.”

Obviamente, achei muito estranho, porque todas as outras cidades, por mais precárias que fossem,  o Google sempre mostrava algumas informações positivas também. Resolvi escrever para um aluno de Parauapebas, pedindo informações sobre o Eldorado paraense. Eis a resposta:

Ourilândia é um lugar muito feio e perigoso, aconselho quando chegar na cidade fazer somente o deslocamento do hotel para Vale e vice-versa. ” (Cabe ressaltar que o aluno que deu este depoimento está longe de morar no paraíso)

A partir daí foi que vi que a brincadeira era coisa séria. Porém, idiota como todo otimista, continuei insistindo mentalmente que a viagem seria boa. Assim que cheguei a Marabá, às 3 da tarde, perguntei para o meu motorista e guia da floresta, seu Luiz Gonzaga, a que horas estaríamos em Ourilândia. Ele me respondeu: 22h. Eu levei na brincadeira e ri. Demorei, vítima de meu otimismo, sete horas para compreender que ele não tinha brincado. O caminho até a cidade é lunar: só possui buracos e, garanto, a poeira que comi não tinha o menor sabor de queijo. Fui deixado às portas de um bizarro hotel e comi em uma espelunca de aparência também bizarra. Com o transcorrer dos dias, descobri a importância do lugar: OURILÂNDIA É A TERRA DO NUNCA!

Em Ourilândia o celular NUNCA pega

Em Ourilândia o hotel NUNCA é bom

Em Ourilândia a lama NUNCA acaba

Em Ourilândia as ruas NUNCA são iluminadas

Em Ourilândia NUNCA se anda pela calçada

Em Ourilândia os buracos NUNCA são fechados

Em Ourilândia NUNCA há atendimento médico

Em Ourilândia NUNCA há opções de comida

Em Ourilândia NUNCA a imagem da TV é boa

Em Ourilândia NUNCA a conexão da internet é estável

Em Ourilândia NUNCA há entretenimento

Em Ourilândia NUNCA se está seguro

E Ourilândia é a cidade a qual não voltarei, NUNCAAAAAAA!!!!

Antunes

Terra do Nunca, 24 de março de 2010

Ourilândia – A Cidade Ridícula

Calma, inteligente leitor. Não ache que o título é um preconceito de minha parte. Na verdade, quero o sentido original da palavra ridículo: aquele que provoca o riso. Falo isso não por mim, mas pelo que me mostraram os outros. Toda vez que falei de Ourilândia marquei um encontro com o riso, com o dente alheio.

As galhofas começaram ainda no Rio.

– Vou pra Ourilândia!

– Pra onde?

– Ouri-lândia!

– Urilândia? Haha. Deve ter muito mijo nessa cidade.

É, leitor. A primeira piada foi assim: Ourilândia apareceu-me como a Dinsney da urina. Viria a segunda, irmanada à terceira:

– Vou pra Ourilândia.

– Pra onde?

– Ouri-lândia!

– Haha. Gurilândia, deve ter muitos guris por lá.

– É? – dizia eu de riso torto.

– Pensando bem, acho que não. Deve ter é muito gorila, fica no meio da Amazôna. Haha. Gorilândia!

É, leitor. Este pobre escrevedor foi vítima até de humoristas que não sabem que não existem gorilas na Amazônia. Logo pensei: este maldito etnocentrismo do Rio de Janeiro acabará em breve, quando eu chegar a Ourilândia, o Eldorado tupiniquim! Liguei pro Pará para me informar:

– Oi, eu gostaria de uma informação sobre Ourilândia…

– Sobre onde?

– Ouri-lândia!

E depois, só ouvi os risos abafados da telefonista.

Quando encontrei o meu guia da floresta e motorista, o piauiense, seu Luiz Gonzaga, também ouvi piadinha:

– É, barão, sabe que Ourilândia cresceu, né?

– É?

– É, já está alcançando o Rio.

– É?

– É, o Rio Verde que fica aqui do lado de Gogó da Onça. Hahaha.

Inconformado, esperei chegar à cidade e, diante de minha turma repleta de alunos moradores de Ourilândia, enchi a boca e pronunciei com o peito estufado de orgulho: Bom, gente, vamos começar nosso curso de formação de multiplicadores de Ourilândia do Norte. Mas, quando acabei de pronunciar a palavra, todos trocaram olhares, morderam os lábios e não conseguindo esconder, riram. Riram a mais sonora gargalhada que ouvi nos últimos anos. HahahaHHAhahahahHahahahaha! Também me senti ridículo, ridículo como Ourilândia. Sentei. Esperei que acabassem e, enquanto isso, ri. Ri de mim e de Ourilândia, ri um riso amarelo para esta cidade ridícula.

Antunes

Ourilândia (hahahahahahahha), 23 de março de 2010

O moleque flatulento

Assim como existem em estabelecimentos espaços para fumantes e não fumantes, deveria existir nos aviões com relação às crianças: espaços para crianças e não crianças. Respondam-me a pergunta: pode-se embarcar portando armas? Não! Então como se pode embarcar portando crianças? Sou, desculpem-me a intolerância, favorável a um apartheid infantil nos aviões. Acredito que crianças e cães deveriam ir juntos, trancafiados naquelas gaiolinhas, ao lado das bagagens.

Com o hábito de viajar, acabamos banalizando alguns bons costumes e, com a banalização, às vezes os perdemos. Desta vez que viajei à Marabá me esqueci de pedir um lugar à janela. Resultado: meu acento foi reservado ao corredor. Ao sentar no avião, comecei as mais honestas orações para que ninguém sentasse naquela fileira e eu pudesse ir sentado na poltrona que queria. Aos 48 minutos do segundo tempo, entrou uma mãe arrastando um moleque. Resolvi mudar minha oração: Deus, que qualquer um sente aqui, menos este moleque agitado. Oração não atendida, o moleque e a mãe sentaram-se justamente ali, 8A e 8B, enquanto eu caía derrotado pela 8C.

Logo fecharam as portas, olhei pra trás e vi que várias fileiras estavam inteiramente vazias. Chamei a aeromoça e anunciei: – Vou mudar de lugar pra sentar na janela, tá? – Assim eu aproveitaria e, além de sentar à janela, me livraria daquele moleque loiro com cara de intérprete de personagem da Profecia. Antes da aeromoça responder, a loira mãe do moleque, mui gentil e amável falou: – Não por isso, pode se sentar aqui no meu lugar, não faço questão da janela. Totalmente sem graça e de plano sabotado, não tive como recusar a oferta: lá fui eu para a janela, ao lado do moleque da Profecia com o 666 estampado na nuca.

Assim que o avião decolou, levantou-se no avião um odor de fraldas cagadas, um cheiro de leite estragado, um aroma de peido que só poderia ter saído da bunda de uma criança. Olhei pro moleque e ele ria feliz: – mamãe, tamo voano!

Assim que passamos das nuvens, o flatulento resolveu ficar meu amigo, olhou pro lado e perguntou meu nome. Respondi e retribuí a pergunta. Ele me respondeu Pedro, mas eu juro, estimado leitor, que só consegui ouvir Peido. Passados mais dois minutos o cheiro novamente tomou conta do avião.

Passada meia hora de vôo, o moleque, não sei por que cargas d’água, já achava que eu era seu amigo de colégio: dava-me tapinhas no braço, brincava de boxe com meu cotovelo e puxava a gola da minha camisa. Enquanto isso, sua bela mãe ouvia seu MP3 de olhos fechados. Tomado por um maldito espírito benigno (com toda a força que a contradição permite) resolvi retribuir a amizade do moleque e, imbecilmente, fiz cosquinhas na sua barriga. Novamente, sentiu-se o cheiro do incrível traque que, não sei como, aquele serzinho conseguiu dar. Porém, desta vez, o maldito de mão amarela se entregou: – Mãe! Mãe! Eu sou um peidão! Hahahaha. Sem graça, a mãe fingiu não ouvir, mas suas bochechas coradas a entregaram.

Já beirando uma hora de vôo, o flatulento cismou que tinha que olhar pela minha janela e se jogou por cima de mim pra ver a maldita paisagem. Com a sua bunda empinada e o indicador colado na janela, ia narrando cada nuvem que passava. Foi aí, leitor, foi nessa hora, que novamente aquela bunda de bebê disse ao mundo ao que vinha. Diante de seu peido rasgado, sua mãe nervosa olhou pela janela e gritou pra todo avião ouvir: – Se você não parar de peidar, vou fazer você descer do avião agorinha mesmo! Depois disso, informo: fiz uma viagem tranqüila.

Antunes
Ourilândia(hahahhahahaha!), 23 de março de 2010