Arquivo do mês: abril 2010

“Onde as estrelas menten.”

Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.” (Lima Barreto, Elogio da Morte)

A inscrição está no aqueduto da Colônia Juliano Moreira: “onde as estrelas menten.” Pichação, poesia ou somente uma frase sem significado e com erro ortográfico? Conheci seu autor, chama-se Epimênides da Rocha e diz-se filho de Lima Barreto com uma enfermeira, logo, o próprio Lima Barreto, pois para ele, pai e filho são a mesma coisa vide os impérios antigos e a Santíssima Trindade.  Para quem não sabe, o escritor Lima Barreto foi dado como louco e passou parte da sua vida, ou de sua morte, na Colônia em Jacarepaguá.

Os moradores do lugar atribuem loucura a Epimênides, dizem ser apenas um interno cheio de invenções sem sentido algum. O cotidiano deste velho louco é preenchido por músicas que canta diante da igreja, rabiscos que faz nas paredes das casas antigas e passeios sob o aqueduto. Segundo ele, não há mais loucos ali, pois sua missão foi curar a todos. “Antes haviam lunáticos, agora só olhamos pra terra, deixamos o mundo da lua.” Diante do aqueduto, tive o prazer de perguntar a Epimênides o porquê de sua curiosa frase. Respondeu-me:  “As estrelas mentem porque são um falso espelho, refletem sempre beleza. Mas, na verdade, o que há aqui não é belo: é dor, é feiúra. O que há aqui é aflição, gritos de tortura de muitos que têm seus espíritos ainda em sofrimento. Por isso as estrelas mentem, pois sobre a Colônia elas deveriam ser feias e tristes.”  Depois que me respondeu, ele levantou-se e saiu a rodopiar, livre. Fiquei em dúvida de quem era o louco e quem era o são.

Antunes
18 de abril de 2010

Inscrição de Epimênides no Aqueduto da Colônia Juliano Moreira

A perseguição de Lúcia

Por Bel Oliveira – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Lúcia Maria vivia feliz com sua família em uma pequena fazendinha na região oeste do Rio de Janeiro. Naquela época, não se tinha medo de andar pelas ruas, pois eram tranquilas. Lúcia, como era sempre chamada, gostava de passear todas as tardes pelos arredores de sua casa. Um certo dia viu que tinha novos vizinhos, logo pensou: “Que maravilha! Quem sabe agora terei uma amiga!”. Porém, levou poucos dias para descobrir que não havia moças de sua idade naquela casa. Lúcia, que contava dezesseis anos, continuava sem amigos, a não ser seus primos e primas que vez ou outra apareciam para visitar. Numa tarde de outono, com calor agradável, ela saiu para mais um de seus passeios. Ao perceber que estava sendo seguida, tentou apressar os passos, mas não conseguiu se livrar da sombra que a seguia por trás das árvores. Nesse instante decidiu parar e perguntar quem estava lá a espreitá-la. Viu uma figura que lhe pareceu um tanto quanto macabra, era levemente corcunda e tinha uma expressão que a fez arrepiar dos pés à cabeça. Saiu correndo e só parou quando entrou em casa. Naquele momento não contou uma palavra a ninguém. Mas ainda curiosa, voltou no dia seguinte ao mesmo ponto do dia anterior, descobrindo por trás das árvores a mesma figura nojenta. Agora percebia melhor sua feição, além da expressão de um grito doloroso constante, tinha algumas cicatrizes e parecia que falava sozinho. Apesar do asco e horror que sentia, percebia que não havia nada com que se preocupar, aquele ser repulsivo só podia ser algum doente fugido da tal colônia que ficava mais ao alto do bairro. Assim como se enganou com a figura anteriormente, Lúcia se enganava agora. Ao voltar para casa, foi informada por sua mãe que teriam convidados para o jantar: os novos vizinhos. “Corra, se apronte! Fiquei sabendo que eles têm um filho!”. Qual não foi a surpresa de toda a família de Lúcia quando viram que o filho, João Luiz, era um rapazote de saúde duvidosa, com uma cifose acentuada. Enquanto contavam as mazelas passadas pela família, Lúcia Maria ouvia a história calada, matutando consigo. João Luiz não falava com estranhos, estava sempre de cabeça baixa e desse jeito permaneceu todo o tempo na casa dos anfitriões.

Depois daquele dia, nunca mais se falou na casa de Lúcia sobre aquela família. Mas Lúcia continuava a ver João Luiz todas as tardes. Não sabia muito bem o motivo, mas sentia necessidade de estar perto daquele ser tão inconveniente para a vizinhança. Contudo, não contava a ninguém e fazia questão de não ser vista em tal companhia. João Luiz, em sua inocência, a seguia por todos os lugares, em festas, nas missas, lá estava ele, sempre de longe, parecendo pedir desculpas por sua presença. Todos se sentiam incomodados, menos Lúcia Maria. Quando alguém percebia que ele a observava, ela se sentia feliz em seu íntimo, mas desmentia qualquer contato com a “coisa”, como era chamado. Com o passar do tempo, a intimidade entre os dois crescia. E foi nesse momento que se sucedeu um fato que deixou toda a vizinhança estupefata. Numa quermesse, enquanto Lúcia conversava com seu primo, João Luiz, num momento de ciúme, atacou o acompanhante de Lúcia, toda a multidão se afastou, só podiam ver uma única massa. Depois do acontecido, não havia uma só pessoa que tolerasse aquele ser na vizinhança, começaram a fazer estardalhaço para que a família se mudasse. Quanto a isso, a família de João Luiz não sabia o que fazer, ficava cada vez mais difícil segurá-lo em casa, ele havia se transformado numa pessoa violenta e atacava quando se sentia ameaçado. Só havia uma solução a se tomar: enviá-lo à colônia. Então, num dia calmo ele foi levado, sem mesmo saber para onde. Toda vizinhança sentiu um leve desconforto, que passou já no dia seguinte. Lúcia Maria sentiu um alívio muito grande ao saber do acontecido. Tinha certeza que aquele sentimento que havia entre eles nunca seria compreendido, e logo tratou de esquecê-lo. Mas foi João Luiz que nunca a esqueceu e dizem que até hoje, anda pela colônia seguindo mulheres e perguntando-lhes o nome.

Bel Oliveira
Rio de Janeiro, 25 de abril de 2010

A Colônia

Ouço gritos no silêncio da Colônia Juliano Moreira, gritos que estão apenas no âmbito da imaginação, gritos que são ouvidos pelos olhos ao me deparar com a arquitetura pretérita que fala mais do que o tempo em que estou. Há loucos por ali, eu entre eles, entre eles: eu. A floresta da Pedra Branca avança sobre as construções, a paisagem é de assustadora paz. Pelas ruas daquela cidade quase cenográfica marcham crianças, idosos, cães e loucos com a mesma importância, com o mesmo olhar. Há uma igrejinha pelo caminho, há um aqueduto, paisagem que testa nossa sanidade, paisagem que testa nossa fé em crer que no meio da mata de Jacarepaguá está uma cidade perdida com casarões e favelas. Jacarepaguá seria o cu do mundo, coberto por mata, a esconder o feio: a ela estavam destinados os leprosos do Curupaiti, os pobres da Cidade de Deus, os loucos da Colônia. Quantos mais viriam? Viríamos eu e você, para ser cortês, vá à frente: você e eu. Foi então que veio a virada, veio uma tal Barra da Tijuca e passaram a dizer do enobrecimento de Jacarepaguá, surgia a Nova Elite. Mal sabem, são apenas mais uma escória, como o são todos os humanos igualmente leprosos, pobres e loucos, todos, igualmente você e eu, habitantes da Colônia.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de abril de 2010

A entrada da Colônia Juliano Moreira

Caminhos irracionais

A igreja da Colônia

As casas da Colônia

O cão

O cavalo

A paisagem

Os internos

O forasteiro louco

Aqueduto

Sem razão

E a floresta avança sobre tudo...

Rio do janeiro

A piada, aprendi no berço: inda pequeno meu pai dizia, se a fralda teimava em baixar da cintura: tá com o janeiro de fora, garoto. Na fase das interrogações lhe perguntei: janeiro?, explicou-me fácil: é o comecinho do anus!

Na estória que conto, o protagonista não tem nome. A bem da verdade, até tem, mas não lhe posso revelar pois, por ser amigo próximo, pediu-me que guardasse segredo. Imagine-o João, Pedro, Daniel, talvez, um nome russo: Gorbatchev. Lhe darei dois dados: antes tinha uma imensa barriga e não tem mais, antes tinha peitos enormes e os operou. Se acertas, ganhas um doce, mas não será isso que adoçará a narrativa.

A Central do Brasil às 18 parece ser o ponto de encontro de todos os trabalhadores do Rio de Janeiro. Ali, vão os das biroscas, das farmácias, dos escritórios, das ruas. Vai também o protagonista desta estória: um gordo desajeitado, ou, se o leitor é de eufemismos, um cheinho simpático. Vão todos juntos, ladeados, o protagonista e os coadjuvantes, parece que a disputar o mesmo último espaço no vagão do trem. A corrida até o vagão é desrespeitosa, cruel, inumana. Cada qual faz uso das armas que tem: as senhoras, das bolsas; as moças, das unhas; os cavalheiros, dos guarda-chuvas; os senhores, das bengalas. Ao protagonista, por conta de seu sobrepeso, sempre subestimado e humilhado, cabe suportar a união de bolsas, unhas, guarda-chuvas e bengalas, além de ter que ouvir todas as reclamações por ser o último dos últimos a entrar no vagão e por espremer ainda mais o que já está espremido.

Neste dia de longo azar – após o protagonista encontrar um lugar para seu braço direito sobre o ombro direito do velhinho, para sua perna direita entre as saias da senhora, para o braço esquerdo sobre a cabeça do anão, para a perna esquerda entre dois senhores de terno, seu corpo entre dezenas de corpos e sua cabeça com o nariz pra cima buscando ar – noticiou o maquinista da geringonça: esta composição não realizará serviços por problemas técnicos. Por favor, dirijam-se à composição na linha 8H.

Passo a este parágrafo, pois de desordem já basta o que aconteceu naquele momento do anúncio. Todos resolveram descer do trem quase ao mesmo tempo, porém os de trás antes dos da frente e o protagonista foi atropelado pela manada humana. Se pensas que todos resolveram usar os métodos recomendados para a transferência de composição, te digo que nunca deves ter ido à Central do Brasil. Os passageiros foram saltando de um trilho a outro, atirando-se na vala com cerca de metro e meio que os protegeria de possíveis atravessamentos. O gordinho, estarrecido, arregalou os olhos e ficou com aquelas dúvidas de um segundo que parecem levar eternidades: pulo ou não pulo? faço o caminho do povo ou o caminho correto? Nos segundos seguintes, atrás dos malandros que saltaram, foram os senhores, as senhoras, as crianças, até os mais idosos e deficientes. Pensou o gordinho: lá vou eu. Tomou distância, saltou na vala dos trilhos do trem, riu-se por ter se saído bem até ali. Porém, quando foi subir de volta para plataforma, encalhou. Ficou ali, de bunda pro ar e suas calças desceram, exibindo o comecinho do anus. Os outros passageiros e eu, que estávamos ali apenas para observar, rimos, rimos daquele janeiro.

Antunes,
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2010

No vídeo acima, exemplo do que o nosso protagonista tentou fazer.

“Próxima estação: CENTRAL DO BRASIL desembarque ao lado de gente muito diferente”

Por Thiago Angola – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

A Central do Brasil significava medo para mim. Ir de trem até esta estação era um desafio. Medo do que falavam de lá, medo das pessoas que por lá transitavam, medo dos trens que constantemente descarrilavam ao longo da linha férrea até chegar a ela, medo dos assaltos, dentre muitos outros medos que eu me permitia ter por causa da fala de outras pessoas. É verdade que muita coisa acontece, nós vemos nos jornais, porém é impagável a possibilidade de conviver com tanta diversidade!

Houve um dia que tive que quebrar esses paradigmas… precisava fugir dos longos engarrafamentos e das mais de 2 horas que levava para chegar ao trabalho, e não era que muito do que falavam não era verdade! Há mais de 1 ano e meio este é o meu principal meio de transporte. Como ele é rápido! Em 20 minutos chego da estação Madureira até a Central do Brasil para fazer integração com o Metrô. No final das contas pago mais barato e levo 1h e 10 minutos para chegar ao meu trabalho.

No trem você encontra de tudo: do engravatado ao de bermuda, a de sapato alto até a que usa havaianas top, o da pasta de couro ao do isopor cheio, do que não quer enxergar ao que enxerga muito bem, do ateu ao crente exagerado. É isto: uma composição de 6 vagões, que muitas das vezes espremidos, tem em seu interior gente tão diferente, feliz e infeliz, indo pra lá e pra cá.

Uma vez fiz a proposta para o meu amigo, que escreve este divertido blog, de experimentar ir embora de trem. Eu falei que seria uma experiência única, e não é que foi! Assim que chegamos à Central, presenciamos uma das cenas mais hilárias: para conseguir vaga sentado no trem, as pessoas correm, literalmente, entre os trilhos quando anunciam a partida em outra plataforma. A princípio é uma cena que assusta, você acha que o mundo está acabando, mas para ter um lugar no trem, vale de tudo. Eu mesmo já experimentei esta situação, mas não me dei muito bem, não tive forças para subir na plataforma (rsrsrsr). Há também os variados sons que tocam ao mesmo tempo: do papo sobre o vizinho, passando sobre a pregação do evangelho, até o funk do momento no celular e isto tudo ao mesmo tempo!

Quando falo que vou e volto de trem as pessoas, com os mesmos paradigmas que tinha anteriormente, se assustam e dizem: “você vai de trem?”, e eu animado, digo: “vou, e é melhor que o metrô”! Que lugar oferece tanta diversidade social? Que lugar te dá oportunidade de vivenciar a antropologia? Não que o metrô não o tenha, mas o trem é mais divertido, as pessoas interagem mais com você e com as outras! Deve ser pela simplicidade peculiar dos passageiros. Ouvir os ambulantes que vem e vão com suas mercadorias baratas. Que lugar proporciona você ouvir coisas do tipo: “Eu não sei quem foi que roubou, eu sou só o vendedor. Bandeja de Iogurte direto de Manguinhos, 3 por 5 real!”. Não estou aqui para discutir este tipo de comportamento, só quero ressaltar que a criatividade existente no trem é intrigante!

Narrar tudo que já vivi e presenciei no trem é impossível aqui, porém deixo a você leitor, o convite para vivenciar este momento único. Pode me convidar para ir junto, me sentirei lisonjeado de ser o anfitrião neste passeio. Garanto a você que serão momentos de muito conhecimento e auto-conhecimento, porque, por experiência própria, é impossível você não refletir, ao, de estação em estação, conviver com pessoas embarcando e desembarcando com suas variadas experiências e esquisitices, assim como as que eu e você temos.

Thiago Angola
Rio de Janeiro, 24 de abril de 2010

SE VOCÊ QUER ANDAR DE TREM COM THIAGO ANGOLA ESCREVA PARA: thiagoangola@gmail.com OU COMENTE ESTA POSTAGEM!

Dos trens de Pedro ao chicote da Supervia, passando pelo Guimbaustrilho de Nei Lopes

Dizem as más línguas que ele até trabalha
Mora lá longe e chacoalha
Num trem da Central

(CHICO BUARQUE, Homenagem ao Malandro)

Central do Brasil, quem a conhece? De alguma forma, todos os brasileiros. Quanto não se falou naquele filme do Walter Salles? Até hoje acho que vou entrar lá e encontrar a Fernanda Montenegro sentada num banquinho qualquer. Central do Brasil, desconhecida do Brasil. Quantos mitos não rodam em torno do seu nome? Em pensar que foi pelas bandas do Rio que começou essa história de trem no Brasil: Pedro II e Mauá, hoje são colégios por onde passam velhos vagões. O que estes homens do progresso diriam ao ver a Supervia famosa por distribuir chicotadas em seus clientes? Começamos em trem e acabamos em navio negreiro! E a malandragem ainda está lá, nada romântica, quebrada, dura, suada, mas está lá, entrando pela janela do trem, tomando cervejinha no vagão, pulando nos trilhos. E fica a memória de tempos dourados, do guimbaostrilho, como ensinou Nei Lopes, jogo em que a rapaziada ficava disputando jogadas de guimba de cigarro no trilho do trem. Assim o trem atravessou o tempo: cambaleando, enguiçando, chacoalhando, igualzinho atravessa o Rio.

Antunes
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2010

Eu com o relógio da Central ao fundo

Povão, de manhã, chegando pra trabalhar

"O trem corre no trilho da Central do Brasil"

Visão raríssima: vagões vazios

Bem-vindo à Central do Brasil

Interior da Central do Brasil

A capela da Central

Um Japeri no painel é comemorado como prêmio da Sena

Noite chegando, povão voltando pra casa

Rose: genérica, alternativa, pirata

Mal começavam a berrar os alto-falantes do Saara e Rosecleide já se aventurava sob o sol. Tinha por hábito começar as compras de sábado pelas lojas com vista pro Campo de Santana e acabava batendo perna pelo Camelódromo da Uruguaiana. As lojas de panos eram caminho certo, as de bijuterias também. Era impossível não comprar uns calçados e as bolsas, tê-las era lei. Sabia escolher o que era bom e o que ficava bem. Sexta-feira ia sempre ao shopping, olhava as lojas de grife pra, no sábado, comprar os produtos genéricos, alternativos, piratas (chame como quiser), na Rua da Alfândega. E acertava, quando não, comprava coisa ainda melhor. Porém, ultimamente, Rosecleide andava com um amor maior, na verdade uma paixão, talvez um vício: era o swarovski!Ela dizia que a culpa era da maldita voz que gritava por todas as ruas: swarooooovski! swarooooovski! Acabou fazendo-lhe lavagem cerebral e obrigando-a a consumir loucamente. Quando batia a hora do almoço, resistia à tentação de entrar no Cedro do Líbano e torrar o dinheiro que economizara num arroz com lentilha e kafta. Optava por parar numa barraquinha ao lado da Biblioteca Estadual e comer uma esfiha de carne cheia de cebola, acompanhada de guaraná natural. A parte da tarde reservava pro camelódromo e esbanjava nos produtos eletrônicos. Sua última grande aquisição fora um celular, cópia perfeita do da loja, só que made in China. De tarde voltava pra casa, no Méier, no máximo 30 minutos do Centro, tomava um banho caprichado e se cobria com as imitações de perfumes franceses que abusavam na quantidade de fixador. Quando chegava à noite, despencava pra casa do seu paquera lá no Leblon. Ele, ao vê-la e cheirá-la, subia pelas paredes, lhe abraçava no sofá e dava a perguntar: Como é que você consegue ficar tão linda assim, Rose? A moça, toda vaidosa respondia: Vem tudo de Paris, Carlos! É tudo coisa boa, coisa importada!

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de abril de 2010