Rio do janeiro

A piada, aprendi no berço: inda pequeno meu pai dizia, se a fralda teimava em baixar da cintura: tá com o janeiro de fora, garoto. Na fase das interrogações lhe perguntei: janeiro?, explicou-me fácil: é o comecinho do anus!

Na estória que conto, o protagonista não tem nome. A bem da verdade, até tem, mas não lhe posso revelar pois, por ser amigo próximo, pediu-me que guardasse segredo. Imagine-o João, Pedro, Daniel, talvez, um nome russo: Gorbatchev. Lhe darei dois dados: antes tinha uma imensa barriga e não tem mais, antes tinha peitos enormes e os operou. Se acertas, ganhas um doce, mas não será isso que adoçará a narrativa.

A Central do Brasil às 18 parece ser o ponto de encontro de todos os trabalhadores do Rio de Janeiro. Ali, vão os das biroscas, das farmácias, dos escritórios, das ruas. Vai também o protagonista desta estória: um gordo desajeitado, ou, se o leitor é de eufemismos, um cheinho simpático. Vão todos juntos, ladeados, o protagonista e os coadjuvantes, parece que a disputar o mesmo último espaço no vagão do trem. A corrida até o vagão é desrespeitosa, cruel, inumana. Cada qual faz uso das armas que tem: as senhoras, das bolsas; as moças, das unhas; os cavalheiros, dos guarda-chuvas; os senhores, das bengalas. Ao protagonista, por conta de seu sobrepeso, sempre subestimado e humilhado, cabe suportar a união de bolsas, unhas, guarda-chuvas e bengalas, além de ter que ouvir todas as reclamações por ser o último dos últimos a entrar no vagão e por espremer ainda mais o que já está espremido.

Neste dia de longo azar – após o protagonista encontrar um lugar para seu braço direito sobre o ombro direito do velhinho, para sua perna direita entre as saias da senhora, para o braço esquerdo sobre a cabeça do anão, para a perna esquerda entre dois senhores de terno, seu corpo entre dezenas de corpos e sua cabeça com o nariz pra cima buscando ar – noticiou o maquinista da geringonça: esta composição não realizará serviços por problemas técnicos. Por favor, dirijam-se à composição na linha 8H.

Passo a este parágrafo, pois de desordem já basta o que aconteceu naquele momento do anúncio. Todos resolveram descer do trem quase ao mesmo tempo, porém os de trás antes dos da frente e o protagonista foi atropelado pela manada humana. Se pensas que todos resolveram usar os métodos recomendados para a transferência de composição, te digo que nunca deves ter ido à Central do Brasil. Os passageiros foram saltando de um trilho a outro, atirando-se na vala com cerca de metro e meio que os protegeria de possíveis atravessamentos. O gordinho, estarrecido, arregalou os olhos e ficou com aquelas dúvidas de um segundo que parecem levar eternidades: pulo ou não pulo? faço o caminho do povo ou o caminho correto? Nos segundos seguintes, atrás dos malandros que saltaram, foram os senhores, as senhoras, as crianças, até os mais idosos e deficientes. Pensou o gordinho: lá vou eu. Tomou distância, saltou na vala dos trilhos do trem, riu-se por ter se saído bem até ali. Porém, quando foi subir de volta para plataforma, encalhou. Ficou ali, de bunda pro ar e suas calças desceram, exibindo o comecinho do anus. Os outros passageiros e eu, que estávamos ali apenas para observar, rimos, rimos daquele janeiro.

Antunes,
Rio de Janeiro, 7 de abril de 2010

No vídeo acima, exemplo do que o nosso protagonista tentou fazer.

2 Respostas para “Rio do janeiro

  1. Hahaha! Muito bom como sempre!

  2. obrigado pelo comentário que me foi muito elucidativo pelo viés da questão na obra literária. e achei, particularmente, o “romance” entre o Chapeleiro e a Alice extremamente de mal gosto. pobre das crianças e fãs…

    tanks pelo link
    e pela visita!

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