A perseguição de Lúcia

Por Bel Oliveira – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Lúcia Maria vivia feliz com sua família em uma pequena fazendinha na região oeste do Rio de Janeiro. Naquela época, não se tinha medo de andar pelas ruas, pois eram tranquilas. Lúcia, como era sempre chamada, gostava de passear todas as tardes pelos arredores de sua casa. Um certo dia viu que tinha novos vizinhos, logo pensou: “Que maravilha! Quem sabe agora terei uma amiga!”. Porém, levou poucos dias para descobrir que não havia moças de sua idade naquela casa. Lúcia, que contava dezesseis anos, continuava sem amigos, a não ser seus primos e primas que vez ou outra apareciam para visitar. Numa tarde de outono, com calor agradável, ela saiu para mais um de seus passeios. Ao perceber que estava sendo seguida, tentou apressar os passos, mas não conseguiu se livrar da sombra que a seguia por trás das árvores. Nesse instante decidiu parar e perguntar quem estava lá a espreitá-la. Viu uma figura que lhe pareceu um tanto quanto macabra, era levemente corcunda e tinha uma expressão que a fez arrepiar dos pés à cabeça. Saiu correndo e só parou quando entrou em casa. Naquele momento não contou uma palavra a ninguém. Mas ainda curiosa, voltou no dia seguinte ao mesmo ponto do dia anterior, descobrindo por trás das árvores a mesma figura nojenta. Agora percebia melhor sua feição, além da expressão de um grito doloroso constante, tinha algumas cicatrizes e parecia que falava sozinho. Apesar do asco e horror que sentia, percebia que não havia nada com que se preocupar, aquele ser repulsivo só podia ser algum doente fugido da tal colônia que ficava mais ao alto do bairro. Assim como se enganou com a figura anteriormente, Lúcia se enganava agora. Ao voltar para casa, foi informada por sua mãe que teriam convidados para o jantar: os novos vizinhos. “Corra, se apronte! Fiquei sabendo que eles têm um filho!”. Qual não foi a surpresa de toda a família de Lúcia quando viram que o filho, João Luiz, era um rapazote de saúde duvidosa, com uma cifose acentuada. Enquanto contavam as mazelas passadas pela família, Lúcia Maria ouvia a história calada, matutando consigo. João Luiz não falava com estranhos, estava sempre de cabeça baixa e desse jeito permaneceu todo o tempo na casa dos anfitriões.

Depois daquele dia, nunca mais se falou na casa de Lúcia sobre aquela família. Mas Lúcia continuava a ver João Luiz todas as tardes. Não sabia muito bem o motivo, mas sentia necessidade de estar perto daquele ser tão inconveniente para a vizinhança. Contudo, não contava a ninguém e fazia questão de não ser vista em tal companhia. João Luiz, em sua inocência, a seguia por todos os lugares, em festas, nas missas, lá estava ele, sempre de longe, parecendo pedir desculpas por sua presença. Todos se sentiam incomodados, menos Lúcia Maria. Quando alguém percebia que ele a observava, ela se sentia feliz em seu íntimo, mas desmentia qualquer contato com a “coisa”, como era chamado. Com o passar do tempo, a intimidade entre os dois crescia. E foi nesse momento que se sucedeu um fato que deixou toda a vizinhança estupefata. Numa quermesse, enquanto Lúcia conversava com seu primo, João Luiz, num momento de ciúme, atacou o acompanhante de Lúcia, toda a multidão se afastou, só podiam ver uma única massa. Depois do acontecido, não havia uma só pessoa que tolerasse aquele ser na vizinhança, começaram a fazer estardalhaço para que a família se mudasse. Quanto a isso, a família de João Luiz não sabia o que fazer, ficava cada vez mais difícil segurá-lo em casa, ele havia se transformado numa pessoa violenta e atacava quando se sentia ameaçado. Só havia uma solução a se tomar: enviá-lo à colônia. Então, num dia calmo ele foi levado, sem mesmo saber para onde. Toda vizinhança sentiu um leve desconforto, que passou já no dia seguinte. Lúcia Maria sentiu um alívio muito grande ao saber do acontecido. Tinha certeza que aquele sentimento que havia entre eles nunca seria compreendido, e logo tratou de esquecê-lo. Mas foi João Luiz que nunca a esqueceu e dizem que até hoje, anda pela colônia seguindo mulheres e perguntando-lhes o nome.

Bel Oliveira
Rio de Janeiro, 25 de abril de 2010

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