Arquivo do mês: maio 2010

O que escondem os rotos

Se fossem quaisquer pedintes, provavelmente a multidão os tornaria invisíveis como tem o dom de fazer. Mas não são. Parecem uma rede localizada estrategicamente no centro da cidade de Santa Cruz de la Sierra, responsável por arrecadar moedas.

O que os favorece é sua aparência incomum. São pontos de referência social. Personagens românticos como que saídos da pena de Victor Hugo, ainda mais por habitarem as cercanias da Catedral.

A indiazinha anã: localiza-se à saída direita da Catedral diante da Bodeguita. Pede moedas de 50 centavos, pois as de 1 boliviano são maiores que ela. É de feiúra encantadora capaz de converter-se em beleza, o que faz com que os pedestres se sensibilizem e lhe atirem moedas como atiram milho aos pombos.

O mendigo perneta: confunde-se às imagens da catedral. Ao seguir os quadros da via crucis, se esbarra com ele, como um cristo que caiu das molduras. Seus olhos de cão são ímãs para moedas, suas mãos são cofres.

O aleijado da bicicleta: um senhor imóvel que se locomove sobre uma geringonça que lembra uma bicicleta. Chama atenção tanto pelo fantástico de seu aparelho como pelo exagero de seu bigode. Anda dentre os pães do mercado a ver se lhe sobram os trocos.

Dizem, entretanto, que quando cai a noite, a indiazinha anã abre o ziper que está sobre a sua pele e de dentro de si sai uma loira de sotaque yankee, seios fartos e um metro e oitenta de altura. Dizem, também, que o mendigo perneta se levanta e retira a pele que esconde por baixo um engravatado norte-americano de poucas palavras e muitas ações. Dizem, ainda, que o senhor de bigode transforma sua bicicleta num tanque de guerra e retira a máscara que esconde um coronel das forças armadas que se regozija em ostentar bandeirinhas com a sigla USA. Eles, à penumbra da noite, enquanto a população dorme, cantam New York, New York, comem no Burger King e brindam refrigerantes de cola, enfartando o coração da América Latina.

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de maio de 2010

A indiazinha anã

O mendigo perneta

O aleijado da bicicleta

Entre o céu e o inferno

Aos turistas, quiçá não seja a missa o principal atrativo da Catedral de San Francisco. Ao pagar-se 3 bolivianos, pode-se subir ao mirante e vislumbrar a praça sob a copa das incontáveis árvores. Dali vê-se o verde, os pombos, vê-se o dentro de nós na ausência de conseguir ver algo mais. O mais interessante é a companhia que temos lá em cima: casais ardentes que se aproximam para arderem-se mais, mãos ousadas que lêem corpos em braile, degustadores de gente. A igreja, castíssima e ainda que não fosse, vê-se no dever de tolher os amantes – que vão procurar um motel! – espalhou pela escadaria avisos de não fornicar na santa igreja. E penso, olhando a paisagem, que curiosa representação: abaixo acontece a missa, acima os casais comungam. Seria um desarranjo de tudo: o céu abaixo e acima o inferno? Ou Deus está brincando com essa metáfora pra nos dizer: tudo continua no seu lugar: o inferno está abaixo e os céus acima?

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010

Subindo ao mirante da Catedral

É proibido fornicar! Aviso na Catedral de Santa Cruz!

De longe consegui fotografar um casal se amando

Uma catedral perdida no tempo

São tijolinhos, uns sobre os outros, que se equilibram e se encaixam, feito Lego, e vão até o céu. Todos eles, uns sobre os outros, ficam na praça 24 de Septiembre no Centro de Santa Cruz de la Sierra, compondo a Catedral de São Francisco. Quando chega domingo, a igreja lota, vão as mães com seus filhos pedir a Deus (quem sabe a Pacha) o dinheirinho pro de comer, pedir saúde, pedir futuro. Ouvem um padre, um espanhol, com sotaque de quem sabe muito do exterior. Depois da missa, se sentam na praça, comem lanches de procedência qualquer. As crianças imitam pombos e com eles brincam de voar. E assim segue, toda semana, Santa Cruz, insistindo em ser uma cidade pequena de qualquer lugar do passado.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de maio de 2010

A Catedral de Santa Cruz de la Sierra

Às portas da Catedral de Santa Cruz

Um casal de turistas

A cruz da lateral da Catedral

Catedral de Santa Cruz por dentro

O cristo de saia da Catedral

Mirante da catedral

A praça vista do mirante da Catedral

A Catedral de Santa Cruz vista de longe

O jogo de xadrez como metáfora da sociedade

Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória.” (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de história)

O jogo de xadrez como metáfora da história e da sociedade atravessa os tempos. Foi na Bolívia que pude vivenciar e compreender de forma mais clara esta parábola. Ao entrar em uma lojinha crucenha de suvenires, me deparei com o magnífico jogo de xadrez, dos mais bonitos que já vi em vida, largado e empoeirado sobre uma prateleira qualquer. Imaginei que seria caríssimo, mas pude comprá-lo por pouco menos de 30 Reais.

Quando cheguei ao hotel, montei o tabuleiro sobre a cama e fiquei a olhá-lo. De um lado estavam as peças brancas: os espanhóis com seu rei e sua rainha europeizados, com sua torre à moda ibérica, seus cavalos de combate. Do outro lado estavam as peças vermelhas: os incas com sua monarquia indígena, suas torres ao modo incaico, suas lhamas ao invés de cavalos. Simulacro infinito do combate que se realiza dia a dia na sociedade boliviana, resquício da guerra colonial, desdobramento de novas lutas: collas x cambas, estrangeiros x nacionais…

Como em qualquer jogo de xadrez, os primeiros a cair em combate são sempre os peões.

El Quinua y la vida

Amada mamãe,

O quinua, reza a lenda, é o alimento mais nutritivo do mundo! Pois, a senhora, que tanto se preocupou ao longo da vida em dizer que eu deveria me enriquecer de vitaminas, pode ficar tranqüila porque na Bolívia achei em abundância esta pérola da alimentação. Aprendi sem pestanejar: QUINUA É FONTE DE VIDA! Os bolívia, nos hotéis, comem que nem sucrilhos, acordam e batem um prato de quinua com trigo e soja. Fiz isso pra crescer com saúde: acordava de manhã e tomava uma tigelona de quinua coberto de iogurte! Mas, querida mãe, essa coisa de ser fonte de vida é um problema sério. Todo santo dia, juro por Deus nóssinhô, quando eu ia colocar a comida na boca, ela começava a andar. Era tanta vida dentro daquele pote de quinua que ficava difícil ingerir todas elas, pois muitas saíam correndo de mim. Porém, não se preocupe, Elisabeth mãe, não é desculpa pra não comer tanta vitamina. Eu juro que corri atrás daquela comida andante que fugia do meu prato e comi tudinho.

Beijos do filho saudável

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de maio de 2010

Meu café da manhã de todo santo dia boliviano

Tentei fotografar os seres que viviam no meu Quinua, mas ficou fora de foco.

Los microbuses de Santa Cruz

Tenho uma amiga chamada Xandinha Magalhães que morou alguns anos em Santa Cruz de la Sierra. Conversava com ela e me contava que lá praqueles lados da Bolívia não tinha sinal de trânsito, tampouco ônibus. A diversão da gaja era ficar, no fim de semana, a olhar da janela de seu apartamento os acidentes de trânsito. Pois venho, então, contar as boas novas: Santa Cruz de la Sierra já tem sinais de trânsito e ônibus. Os sinais de trânsito são meia dúzia que ficam no centro da cidade e os ônibus são o que eles chamam de “microbuses”. Os microbuses são, como diz o nome, onibusinhos. Além de pequeninos, são coloridos e adesivados. Tem microbus com adesivo do Che Guevara, do Garfield, da Nação Camba, do Johnny Bravo e por aí vai. Os ônibus vão sempre cheios, mas são freqüentes e baratos (custam um boliviano e cinqüenta = cinqüenta centavos de Real). Visualmente, parecem sucata que sobrou do Japão, mas, se perdem em qualidade, sobra em cordialidade, pois os motoristas estão sempre prontos a informar e a população, além de espremida, é bem educada. Com cara de turistas, minha esposa e eu, estávamos sentados em um microbus saído da rodoviária e um boliviano meio grogue, quis dar-nos as boas-vindas: “Rai, rou are iú? Ere iú from?” Sorte que ele não estava sóbrio e, diante das risadas do ônibus, pude simplesmente ignorá-lo e não decepcionar o público crucenho, pois afinal, não era um gringo que falava inglês que estava ali tendo o privilégio de andar em seus microbuses.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de maio de 2010

Vários microbuses crucenhos

Un microbus

Um microbus por dentro

Eu penso quadrado, ele redondo

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

“Supõe que já cruzamos pela vida
Mas nos deixamos sempre para trás
Porque eu andava pelas avenidas
E  tu corrias pelas transversais.”
Supõe – Chico Buarque,
Versão de Sílvio Rodriguez.

Sempre me gabei de saber andar onde quer que estivesse, de ter um ótimo senso de direção. Creio que eu não seja uma pessoa com bom senso de orientação por ser geógrafa, nem o contrário, mas acredito que as duas coisas têm a ver. Esta minha suposta qualidade se sobressaía ainda mais quando andava com meu delicioso marido, dono deste blog, que é a pessoa mais desorientada que já vi na vida. Nunca consegui lhe convencer de que a menor distância entre dois pontos sempre é uma linha reta, apesar de já ter provado mil vezes, não só matematicamente, quanto praticamente.

Pois bem, esta minha suposta qualidade sempre foi muito bem aproveitada ao andar nas ruas do Rio de Janeiro, cujo modelo de plano urbano em tabuleiro de xadrez (ruas quase sempre perpendiculares entre si) está internalizado por mim. Observe no mapinha abaixo, do centro do Rio de Janeiro, como este padrão é quase uma regra. E não só o centro, mas toda a cidade do Rio tende a este tipo de organização. É muito fácil no Rio de Janeiro pegar um mapa e colocá-lo na orientação correta para que sigamos nosso caminho.

Qual não foi minha surpresa, ao chegar em Santa Curz de la Sierra e me deparar com uma cidade cujo plano urbano não é em tabuleiro de xadrez, mas radial! Radial é um plano urbano onde as ruas se organizam a partir de ruas em forma de círculos concêntricos, veja só:

Em Santa Cruz, estes círculos são chamados de anéis e é a partir deles que você se localiza na cidade. Sempre que alguém vai lhe explicar onde fica algum lugar, diz que é na rua tal que fica no centro ou entre o 1º e o 2º anel, entre o 2º e o 3º, ou entre o 3º e o 4º. Parece simples, e talvez seja. Mas o fato é que isto me abalou mentalmente. Passei 3 dias em Santa Cruz e provoquei vários momentos perdidos na cidade, já que eu – devido ao meu suposto ótimo senso de direção – sou sempre a responsável pelos caminhos. Não conseguia sequer orientar o mapa em minhas mãos e, para minha surpresa, meu delicioso marido, dono deste blog, passou a me ensinar os caminhos.

Fiquei pensando no que Cervantes fez pelos espanhóis… A loucura do Quixote inspirou cidades redondas, talvez motivada pelo girar dos moinhos de vento. Acho que esse mesmo vento soprou no Vinícius e, de repente o que era errado passou a ser certo. Ou o que eu pensava que era errado na verdade era certo.

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2010