O queijinho do Piscinão

Ó o quejo! Ó o quejo! E dribla uma perna, passa por um braço, pula uma bunda, quase acerta uma cabeça. Ó o quejo! Ó o quejo! Uns nem aí, outros mal podem sentir o cheiro. Ó o quejo! Ó o quejo! Ia Waltinho com seu isopor e fogueirinho, orégano e molhinho d’alho. Ó o quejo! Ó o quejo! Quanto tá, seu moço?Dois Real, dona. Vê dois. Pra já. Ó o quejo! Ó o quejo! Quanto tá? É dois. Quero não, tá caro. Se levá dois, paga três cinqüenta. Qué, Dilma? Vai então. Ó o quejo! Ó o quejo! A especialidade do moço é queijo coalho com orégano e molho d’alho, não vende refrigerante, não vende doce, não vende biscoito Globo, não vende mais nada. É um produto específico pra não perder a especialização e a clientela. Sabe o tempo direitinho no fogo pra não ficar duro nem queimado, mede o tempero pra não ficar sem gosto ou exagerado. Waltinho tá no Piscinão de Ramos desde que inaugurou em dezembro de 2001, quando a prefeitura nem chamava o lugar de Parque Ambiental da Praia de Ramos, era Piscinão mesmo e ainda é, pois é Piscinão que o povo fala. Certa vez, Waltinho quis ser elegante, disse que trabalhava no Parque Ambiental da Praia de Ramos e logo lhe falaram que pomba afrescalhada era aquela, nunca mais voltou a chamar assim. O diferencial de Waltinho é sua conexão com o mundo globalizado, trabalha duro no marketing do seu negócio. Apercebeu que os restaurantes das revistas colam as reportagens nas paredes, Waltinho colou no isopor reportagem sobre o Piscinão que saiu no jornal que tem nome de biscoito: Coliformes altos na água e na comida do Piscinão. Quando tava com minha esposa tomando um bronze por lá, pedi dois queijinhos pro Waltinho e me assustei, vi a reportagem e perguntei: E esse negoço de coliformes, tá alto mesmo? Tá, mas não se preocupa não, que o preço é igual! Não entendi nada e insisti: mas não é ruim pra você não? Nada, é tempero que nem tem no quejo lá da Zona Sul e quem tem que gostar é o senhor, não eu. Sem entender se o papo era sério ou se ele tava zoando da minha cara, resolvi cancelar: deixa, irmãozim, vô querê queijo não. Foi quando, malandreado, me veio Waltinho cheio de palavreado: Beleza, vô cobrá pro sinhô só a taxa dos coliforme!

Antunes / Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2010

2 Respostas para “O queijinho do Piscinão

  1. Vinicios, parabéns. Suas crônicas-contos são muito boas. Sou carioca, acho que você também é. Quando vi o seu blog, com a ilustração encimando os textos, eu falei: é aqui, é isso que procuro. Não me arrependi. Textos deliciosos de humor simples e objetivos. Me fizeram lembrar umas crônicas que eu lia, nos idos de ’80, no Jornal do Sport, um que era todo rosa. Nostalgia pura. Abraços.

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