Deu bode

Eu fazia manutenção de computadores na Microcamp do Valqueire, tinha uns 16 anos e era amigo de um figuraça chamado Julião. O cara ia fazer dezoito e era reserva do Madureira, cheguei até a ir ao estádio na Conselheiro Galvão na tentativa de vê-lo jogar, mas segundo constatei e ele me confirmou, nunca entrava em campo, ou por falta de futebol, ou, segundo ele, por implicância do treinador. Um dia Julião chegou no curso com a pérola: “Minha vó mandou comprar um bode e sacrificar, disse que é pra Exu liberar meus caminhos.” Num primeiro momento, achei que fosse sacanagem, mas ele me explicou que dona Francisca era mãe ou vó de santo, algo assim que não lembro bem. O que Julião queria era ter a oportunidade de mostrar seu futebol, pois senão nunca conseguiria realizar seu sonho de jogar no exterior. Partimos nós dois pro Mercadão de Madureira atrás do bode. Julião tava com pouca grana e resolveu pechinchar os acompanhamentos: pratão de barro, mel e cachaça seriam coadjuvantes do bode preto (tinha que ser preto, sei lá o porquê).  Andamos por todas aquelas galerias lotadas, atrás do lugar que vendesse mais barato, acho que Julião fez até alguns bons negócios e conseguiu alguns descontos razoáveis. Quando chegou a hora do bode, deu-se o susto: “É 50 Reais, pode escolher o bode que quiser.” Só que o malandro tinha no bolso só 40 Reais, ainda me pediu 10, mas eu carregava apenas o da passagem e não estava com vontade nenhuma de contribuir financeiramente praquilo que eu julgava uma doidice. Julião chorou, chorou, chorou, explicou sua condição pro vendedor e, no final das contas, conseguiu por 40 porque o dono da loja era freqüentador do centro de dona Chica, avó de Julião. Fui andando na frente, carregando os bagulhos que havia ajudado a comprar e atrás vinha ele com o bode amarrado num barbante, teimando em não andar. Depois, pra descer as escadas, Julião teve que colocar o animalzinho no colo e as pessoas o olharam de rabo de olho com um certo nojo como se nunca tivessem abraçado um bode na vida. Pior é que ainda tivemos que ir a pé até a casa dele, pois não teve motorista de taxi nem de ônibus que quisesse dar uma carona amiga pro bodão preto.

Passada uma semana, encontrei com Julião no curso e me veio com nova história: “Num sabe a merda, rapá: o bode ainda tá lá no meu apartamento.” Não entendi nada, pois achei que ele já tivesse dado um fim no bicho. “Rapaz, não tive coragem de matar o bichinho. Toda vez que eu tento, volto atrás. Parece que ele fica me olhando com carinha de coitado. Já levei até pra alguém matar, mas na hora volto atrás.” O resultado é que Julião, compadecido do bicho, passou a conviver com o bode que ficava amarrado no pé de sua cama. Toda semana me contava das brigas com sua mãe que se queixava do animal. O curso acabou, a novela não se resolveu e eu, amigo desnaturado, nunca mais soube de Julião. Mas, essa vida é assim, o passado sempre retorna. Outro dia, voltando do trabalho, encontrei Julião no centro da Taquara. Apertamos as mãos e ele me disse que não tava mais aí pra esse negócio de futebol. Disse que agora tava morando em Jacarepaguá, sozinho, sem mãe e sem vó, e que vivia num terreno grande, no qual criava cabras e bodes donde tirava seu sustento.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de abril de 2010

3 Respostas para “Deu bode

  1. Ah, não Vinícius, pára. Não me diga que agora além de você mesmo ser um personagem vivo seus amigos e conhecidos também são! Essa estória é mentira, só pode… é muito coisa de crônica (isso não é um trocadilho com o nome do seu blog). Vai ver parece que é mentira só pelo jeito bonito que você escreve… rs
    AMEI

  2. Que mentira o quê! Vinícius já havia me falado desse Julião uma vez. Irmão do Canhotinha, que trabalha no Mc Donald’s do center shopping e joga uma bola que só vc vendo…

  3. Todas são excelente, mas essa do bode me fez rir muito. Um abração.

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