A cidade d’Ele

Por Priscilla Acioly – participação especial

Um dos aspectos interessantes da Cidade de Deus é que ela não é uma cidade.

Quando o Vinícius me intimou a escrever sobre a Cidade de Deus (CDD, para os íntimos) eu bem que tentei fugir. Não me entendam mal, eu acho um tema rico e complexo. E é exatamente esse o problema: eu não sou a pessoa mais indicada para falar sobre a Cidade de Deus. A CDD é um dos bairros de Jacarepaguá, minha vizinha. E, mesmo assim, não sei quase nada sobre ela.
Confesso que fui no google, mas acho muito deprimente tentar retirar alguma informação de lá para poder falar sobre a cidade dentro da minha cidade.

Eu nunca entendi o por que de ela se chamar Cidade e não… sei lá, ‘Bairro de Deus’. E se você souber a resposta, por favor, não me diga. Eu acho muito mais interessante continuar não sabendo. Afinal de contas a Cidade de Deus é uma cidade – ainda que não seja.

Eu conheço pouca coisa da Cidade de Deus. Tenho amigos, chegados, conhecidos que moram lá – alguns destes, falam com orgulho que foram vizinhos do Zé Pequeno.
O cenário que eu mais tenho vivo da CDD na minha mente é da rua principal e da praça da Cidade de Deus que eu sempre vejo pelos vidros da Kombi Alvorada – Barrashoping. Quando eu estou passando por aquele trecho é impossível eu não notar a pobreza do lugar. A pobreza, o aspecto sujo das ruas, os tons marrons e cinzas que contornam aquele espaço.

É tudo muito misturado, repicado, confuso.
As casas são coladas umas às outras, tanto que suas orelhas se encostam. Mal acabadas, quase nunca pintadas e provavelmente pequenas demais. As pessoas sempre andam com pouquíssimas roupas, principalmente as mulheres.

Senhoras gordas e grisalhas ficam na calçada observando algo que, seja lá o que for, conseguem enxergar como lazer.

Uma vez, passando eu por ali em torno da Praça … tomada de pensamentos preconceituosos sobre o lugar – lugar de pessoas sofridas, de violência, de falta de oportunidades, lugar abandonado pela sociedade… talvez até por Deus – eu vi que um pastorzinho, desses de paletó e com a voz imponente, pregava com muita propriedade. Pregava sozinho, com a cara e a coragem.

Pregava para as árvores, ou talvez para o cachorro que urinava no banquinho da praça. O pastorzinho continuava falando em meio ao barulho dos carros e até do funk que vez ou outra tocava alto num desses carros com alto-falante de propagandas.
Ele falava coisas  de Deus, coisas sobre vitória, coisas sobre esperança.
Ele era enérgico e, ainda assim, generoso.

Aquele homem que errava 90% das concordâncias, usava um paletó surrado, suando na testa e com a voz abafada devido ao microfone vagabundo; me trouxe um sentimento de culpa. E de gratidão.

Priscilla Acioly

Rio de Janeiro, 11 de maio de 2010

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