Cidade do adeus

É que arrisco a prosa mesmo com balas atravessando os fonemas.
(Paulo Lins, Cidade de Deus)

Eu voltava da igreja com a minha esposa, caminhando pela estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, a principal da Cidade de Deus, quando avistei um livro caído na calçada. Já o tinha: era a Antologia Poética do Carlos Drummond de Andrade. Lamentei que alguém o tivesse perdido. Abri-o para ver se por dentro constava nome, telefone, endereço, ou alguma informação relevante para encontrar dono ou dona. Na primeira página estava escrito de esferográfica azul: Gênesis Silva do Rosário, Travessa Tabor, 7Cidade de Deus. Como eu não conhecia, por ali, nada além da rua em que estava e como o lugar conserva a fama de perigoso, resolvi levar o livro comigo.

Em casa, estava curioso pela antologia que já lera. Deitado no sofá, resolvi folhear algumas páginas e ler alguns versos em voz alta: “Perdi o bonde e a esperança. / Volto pálido pra casa.” e “No caminho onde pisou um deus / há tanto tempo que o tempo não lembra.” Minha surpresa se deu, quando às margens, ao lado de alguns versos do Drummond, encontrei versos escritos com letras trêmulas e frágeis provavelmente de autoria da dona do livro. Cito os que li e nunca mais esqueci: “Ao lado de minha casa / há uma planta dormideira / todo sábado a acaricio / pra acordar na segunda-feira.” Eram riminhas singelas e pueris. Fiquei impressionado com a escrita de Gênesis, pois mesmo sendo moradora da Cidade de Deus, nenhuma de suas linhas expressava violência, medo, vingança. Pensei: esta menina é como a flor drummondiana, furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Digo menina, pois pelo nome e pela letra já imaginava quem era Gênesis: garota de 17 anos como minha irmã, só que com cabelos enrolados e óculos fundo de garrafa como os da estátua do Drummond. Compadecido de sua perda e curioso por conhecê-la fisicamente, tive total certeza: devolverei o livro, não me importa o trabalho que dê.

No domingo que seguiu o achado, conversei com uma amiga minha, freqüentadora da igreja e também moradora da Cidade de Deus. Expliquei-lhe a situação e disse que muito queria lhe devolver o livro pessoalmente. Ela se dispôs a levar-me ao local e me tranqüilizou dizendo que a Travessa Tabor era de fácil acesso. Por volta do meio-dia, pegamos um ônibus que nos deixou na Miguel Salazar e entramos a pé na Travessa Maressa. Confesso que estive bastante assustado e só lembrava das cenas protagonizadas pelo Zé Pequeno. O ápice do estranhamento foi quando passei por uma tal Praça do Apocalipse, minha amiga me tranqüilizou explicando que a maior parte dos nomes das praças possuía uma indiscriminada referência bíblica, afinal, estávamos na Cidade de Deus. Rapidinho e com toda tranqüilidade chegamos à Travessa Tabor, casa 7. Bati palmas à porta da casinha simples. De dentro, saiu uma moça gorda e morena. Disse-lhe de imediato: vim devolver o livro e exibi o achado. Ela tomou a antologia de minhas mãos, a abraçou e começou a chorar. Feliz, pensei comigo mesmo: que bom que o devolvi, deve ser um livro de estimação, vide o pranto. Porém, a moça gorda me explicou entre lágrimas: era da minha filha, ela foi assassinada voltando da escola e trazia este livro na mão.

Antunes
Rio de Janeiro, 9 de abril de 2010

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