Arquivo do mês: junho 2010

Érase una foto

Por burrice cultural, achei que os cholos na Bolívia fossem como as tradicionais baianas no Brasil. Achei que estivessem mais para fantasia e eventualidade do que para uma realidade cotidiana. Descobri, entretanto, que a maioria da população é composta por cholos e cholas. Se você não sabe o que é, explico: são descendentes indígenas que assumem suas origens e andam vestidos com trajes que os identificam culturalmente: roupas coloridas e chapeuzinho (lembre-se que grande parte da Bolívia é fria, os índios não andam de tanga). Desde que cheguei à Bolívia, estava doido pra dar um close e sacar uma bela foto ao lado de uma chola, porém ficava sem graça, pois daria muita pinta de turista e poderiam me entender minha atitude como ofensiva. Não perdi a primeira oportunidade que tive:

Entramos, Nôla e eu, em uma loja de chulos y guantes em Sucre, nos preparávamos para enfrentar o frio de La Paz. Depois de comprarmos luvas e toucas, me virei para o dono da loja (um casal cholo) e mandei:

– pode tirar uma foto nossa com sua esposa? (ela estava totalmente a caráter).

– Foto?

– Sí, si… una foto…. una fotito

– Claro, mas primero yo.

– Cómo? – não entendi nada.

– Para que yo saque uma foto sua, tire primeiro minha.

O cholinho deu uma corridinha (a la Marotta) pro lado da esposa, fez pose e, sem entender muito bem, tirei a foto. Mostrei pra ele.

– Sí, si… está muy buena. Mira! Mira! Mira! – mostrava para a esposa.

– Pronto, agora você tira foto nossa com a sua esposa.

Havia chegado o momento em que, finalmente, eu conseguiria a foto que esperava ao lado da chola. O vendedor preparou, apontou e… abaixo, a foto que ele tirou.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2010

O casal de Cholos - foto que tirei

Aí a foto que ele tirou, isso que é amor, deu o close só na esposa

El Parque Jurásico

A visão ainda estava turva por causa do sono. Levantei a cabeça e fixei bem o olhar, não era possível. Esfreguei os olhos e ele continuou ali: era um imenso dinossauro. Cutuquei a Emanoelle e a acordei: – olha, tamo no Jurrassic Park! Deixa de bobeira, Vinícius. Isso aqui é uma região de fósseis e pegadas de dinossauros – explicou-me. Ah, se desfez meu sonho. Confesso, leitor, sempre sonhei com toda força entrar em um Jurassic Park. Durante os filmes, sempre torci para que os dinossauros devorassem todos os humanos. Ainda não seria dessa vez que realizaria meu sonho, afinal, além de não ser o Jurassic Park, me falaram que pra turista, a visita à região de pegadas e fósseis é um passeio bem sem graça e que não vale a pena. Sendo assim, espero uma resposta do futuro! Que achem logo o AMBAR!

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de junho de 2010

El dino de sucre, el dinosucre

Veredas

Pobres os cegos que jamais verão o que vi. Em uma lata de sardinha disfarçada de ônibus atravessei os Vales Centrais da Bolívia, pelas janelas vi o Sol nascer e morrer, vi a Lua surgir e partir por dentre relevos que não sei classificar e, graças a isso, ganharam conotações ainda mais incríveis, pois faltavam-me conceitos, as palavras não davam conta. Os cactos não explicavam os rios, as rochas não explicam a relva, os jumentos perdidos entre o nada talvez guiassem as cholas para lugar nenhum que não fosse o próprio ali.  Eles, todos, móveis e imóveis, ficavam. Eu imóvel passava, de Santa Cruz rumo a Sucre.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de julho de 2010

Vi o sol morrer

Vi o sol nascer pelas sujas janelas do ônibus

O sol nasce a conversar com o rio

As cholas visitam o ônibus a gritar MANDARINA

Casebre boliviano

Cactos sucreños dentre capins

Dar com os burros n'água

Vales Centrais

O Sonso Cruceño

Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Era o último dia em Santa Cruz de la Sierra. Tudo que queríamos era entrar num avião para voltar para casa. O dia foi vivido sentado em um banco de praça, pois não há nada que se possa fazer nessa cidade num domingo. O tédio era tão grande, que até à missa fomos, depois de jogar o jogo dos pontinhos. Pensamos: Vamos à missa depois fazemos um lanchinho naquela lanchonete bonitinha que tem ali.

Assim foi feito, assistimos meia horinha de padre e fomos encher nossas barriguinhas. Queríamos muito experimentar as tais salteñas bolivianas, pois ainda não tivéramos a oportunidade. Entramos na tal lanchonete modernosa e tivemos que apertar um botãozinho pra chamar o garçom. Ele veio e Vinícius deu a sorte de comer a última salteña da casa. Provamos também a empanada nacional que é frita, não assada. Mas algo faltava dentro de mim. Olhei para o lado e na vitrinezinha eis que vejo uma coisa amarelinha, apetitosa, brilhando e acenando para mim, me convidando a experimentá-la. O que é aquilo? – pergunto ao garçom. É sonso, um prato típico de Santa Cruz, feito a base de aipim e queijo, é muito bom! – responde ele. Hum, eu quero! – replico.

Vi a Deus. Tivera a melhor experiência gastronômica da viagem. No momento em que comia, já pensava em chegar em casa, comprar aipim, queijo, encontrar uma receita na internet e prepará-lo para saboreá-lo novamente. Dito e feito. Cheguei de viagem na segunda, terça fui ao mercado e encontrei uma receita e, finalmente, na quarta fiz o sonso.

Modéstia a parte, meu sonso não deixou nada a desejar em relação ao cruceño, ficou muito gostoso! E é muito simples de fazer. Se você tiver ficado com água na boca, pode tentar fazer em casa, abaixo vai a receita que eu segui.

SONSO

Ingredientes:

– 1 kg de mandioca cozida com sal

– 75 g de margarina

– 1 ovo

– 250 g de queijo meia-cura ralado

– 100 ml de leite (para regar)

Jeito de fazer:

– Numa tigela, coloque 1 kg de mandioca cozida ainda quente e amasse com o auxílio de um garfo ou amassador de batata. (Obs.:É melhor não passar a mandioca no processador para não tirar o toque rústico do prato.)

– Junte 75 g de margarina, 1 ovo e e 250g de queijo meia-cura.

– Misture bem.

Para a montagem:

– Numa assadeira retangular (25 cm x 20 cm C 4cm de altura), untada com margarina, coloque a massa de mandioca e polvilhe queijo meia-cura.

– Regue com 100 ml de leite.

– Leve ao forno a 200ºC por cerca de 20 min para gratinar.

Fonte: Receitas Mais Você

É bem fácil de fazer, mas é um pouquinho trabalhoso porque tem que amassar o aipim. O que me complicou um pouquinho foi que meu amassador de batatas quebrou enquanto eu o estava usando… Por isso fica a dica, cuidado com seu amassador. Fora isso, é super fácil. Além disso, todo o trabalho é compensado pelo sabor, pode acreditar! Se você fizer, convide a gente para experimentar!

Nôla Farias
Rio de Janeiro, 15 de junho de 2010

EL SONSO

A autora do texto e sua inspiração

Salteña

Um refogadinho, geralmente de carne com legumes, bem temperado, com azeitona. Pega-se o cujo, joga-se na massa, leva-se ao forno: eis a salteña.

É estranho pra nós, conterrâneos brasileiros, mas o paladar não é ruim. É como fosse um pastel de forno com carne e batatas dentro. Sim, batatas, eu disse que era estranho.

A salteña é um prato típico da Bolívia. Há, inclusive, as casas especializadas, as salteñarías. É como a empanada na argentina, só que na Bolívia a empanada é outra coisa. Empanada, por lá, é um pastel como o nosso só que salgado por dentro e com açúcar por fora, ou então, uns pães massudos em formato de pastel com recheio por dentro. O que mais se aproxima em sabor da empanada argentina é a salteña.

Quando passar pela Bolívia, seja Santa Cruz, Sucre ou La Paz arrisque-se no sabor andino, prove uma salteña.

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de junho de 2010

Salteña (ao fundo uma empanada)

Pães ofertados com as mãos

São tantas mulheres, tantas mãos e tantos tons de laranja. Cestos repletos de pães e empanadas, as índias gritam nas ruas querendo vender. Entre barracas de roupas, poças, carros, mendigos, estão ali, as mulheres, a vender o pão de cada dia. São tantos e logo poucos que voltam a tantos e depois poucos, no pôr e repor do pão, com as índias menores lotando o cesto das mães que vendem, vendem tudo e tornam a repor e a  vender.  Se os provas, são massudos, pesados, duros como a vida das índias que lhes põem as mãos e lhe servem com as mãos e com as mãos pegas e levas a boca tentando-os partir. O pão que chega ao estômago é como a mão fechada em soco, pesada, a aplacar a fome e derrotá-la, sem imaginar que naquele instante começava a dar lugar a uma tremenda dor de barriga.

Antunes
Vitória, 2 de junho de 2010

São tantas mulheres, tantas mãos e tantos tons de laranja...

Cestos repletos de pães e empanadas, as índias gritam nas ruas querendo vender.

Entre barracas de roupas, poças, carros, mendigos, estão ali, as mulheres, a vender o pão de cada dia.

São tantos e logo poucos que voltam a tantos e depois poucos, no pôr e repor do pão

Os cacos da estória

Título em homenagem ao mestre Judemberg

– Um mercado popular com imensa quantidade de sapatos de um pé só

– Um retrato falado

– Um senhor dormindo sem um pé de seu calçado

Elementar, caro leitor. Não é preciso ser um Sherlock para descobrir o ocorrido. Ademais, como prova da veracidade da estória, ou melhor, HISTÓRIA, documentei tudo com minha fiel câmera fotográfica e tenho como testemunha minha esposa, não fosse a ausência de buço, poder-se-ia dizer-lhe que é o dr. Watson desta narrativa.

Ao chegarmos diante do Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra constatamos a presença de um comércio popular mui peculiar e suspeitoso: vendia diversos sapatos de origens duvidosas e muitos estavam sem o seu par. Para quem um comércio venderia um único sapato? Para pernetas? Para adolescentes que usam sapatos diferentes? Para quem? Esta questão atormentou-nos até que, ao fim, descobriríamos a sua resposta.

Assim que adentramos o recinto rodoviário, vimos pelas paredes o retrato falado de um procurado por roubo. Era um rapaz jovem, de traços indígenas. Por que motivos se anunciaria um procurado dentro da rodoviária? Para evitar que fugisse da cidade? Para precaver os que chegavam a Santa Cruz? Ou seria ali seu principal local de atuação?

Ao andarmos a procura de onde comprar passagens para Sucre uma cena incrível nos compadeceu: um senhor dormia sobre a sua mala, mas faltava-lhe um pé de sapato. Estávamos diante de um roubo gravíssimo. Foi aí que juntamos os cacos da estória. Acompanhe o desvendamento do caso e a reconstituição do crime no próximo parágrafo:

O senhorzinho estava a esperar o horário de sua viagem e dormiu sobre a mala para que ninguém a roubasse. Porém, deixou seus pés livres descuidando-se do crime que poderia ser cometido. Eis que, avistando aquela presa fácil, chegou o assaltante que está denunciado pelo retrato falado e roubou-lhe um dos pés do calçado e correu para o mercado popular para vendê-lo a um comerciante qualquer. Quando o senhorzinho acordar, desesperado por estar com um de seus pés vulnerável e descalço, sabe, leitor, para onde ele correrá para comprar um sapato que combine com o seu? Para o mercado popular de sapatos solteiros! Foi assim, leitor, que descobri como o crime trabalha no Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra.

Antunes
Teresópolis, 31 de maio de 2010

Diante da rodoviária há um mercado mui peculiar

O PROCURADO

O senhor dormindo sem UM dos sapatos