Os cacos da estória

Título em homenagem ao mestre Judemberg

– Um mercado popular com imensa quantidade de sapatos de um pé só

– Um retrato falado

– Um senhor dormindo sem um pé de seu calçado

Elementar, caro leitor. Não é preciso ser um Sherlock para descobrir o ocorrido. Ademais, como prova da veracidade da estória, ou melhor, HISTÓRIA, documentei tudo com minha fiel câmera fotográfica e tenho como testemunha minha esposa, não fosse a ausência de buço, poder-se-ia dizer-lhe que é o dr. Watson desta narrativa.

Ao chegarmos diante do Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra constatamos a presença de um comércio popular mui peculiar e suspeitoso: vendia diversos sapatos de origens duvidosas e muitos estavam sem o seu par. Para quem um comércio venderia um único sapato? Para pernetas? Para adolescentes que usam sapatos diferentes? Para quem? Esta questão atormentou-nos até que, ao fim, descobriríamos a sua resposta.

Assim que adentramos o recinto rodoviário, vimos pelas paredes o retrato falado de um procurado por roubo. Era um rapaz jovem, de traços indígenas. Por que motivos se anunciaria um procurado dentro da rodoviária? Para evitar que fugisse da cidade? Para precaver os que chegavam a Santa Cruz? Ou seria ali seu principal local de atuação?

Ao andarmos a procura de onde comprar passagens para Sucre uma cena incrível nos compadeceu: um senhor dormia sobre a sua mala, mas faltava-lhe um pé de sapato. Estávamos diante de um roubo gravíssimo. Foi aí que juntamos os cacos da estória. Acompanhe o desvendamento do caso e a reconstituição do crime no próximo parágrafo:

O senhorzinho estava a esperar o horário de sua viagem e dormiu sobre a mala para que ninguém a roubasse. Porém, deixou seus pés livres descuidando-se do crime que poderia ser cometido. Eis que, avistando aquela presa fácil, chegou o assaltante que está denunciado pelo retrato falado e roubou-lhe um dos pés do calçado e correu para o mercado popular para vendê-lo a um comerciante qualquer. Quando o senhorzinho acordar, desesperado por estar com um de seus pés vulnerável e descalço, sabe, leitor, para onde ele correrá para comprar um sapato que combine com o seu? Para o mercado popular de sapatos solteiros! Foi assim, leitor, que descobri como o crime trabalha no Terminal Bimodal de Santa Cruz de la Sierra.

Antunes
Teresópolis, 31 de maio de 2010

Diante da rodoviária há um mercado mui peculiar

O PROCURADO

O senhor dormindo sem UM dos sapatos

2 Respostas para “Os cacos da estória

  1. “Surreal” é a palavra mais apropriada…

  2. Irmão,
    Preliminarmente agradeço a lisonjeira homenagem.
    Queria ser um craque das letras por alguns instantes para poder relatar alguns fatos pitorescos “dumas viagens” que fiz.
    Você sempre foi um craque e a cada dia fica melhor. Lembro-me que era comum na faculdade os professores, ao entregarem nossas provas, fazerem comentários sobre a sua maneira de escrever. Você precisa escrever um livro sobre nossa turma da faculdade, imagine o naipe de personagens: Charles, Silver, Carlão, Marcão, Monica, Lurdes, eu, você, etc…
    Sobre a texto o Jônatas resumiu muito bem.
    Abraço saudoso, um grande beijo na Emanuelle e um beijão na família.

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