Arquivo do mês: julho 2010

Martín, el guía andino

Quando me aventurei nos interiores do Pará, tive a ajuda do grande guia da floresta, seu Luiz Gonzaga, que acabou se tornando uma espécie de amigo pessoal. Posso dizer que tenho sorte com guias, pois quando estive em La Paz e quis conhecer o Titicaca e as ruínas Tihuanaco, contei com a destreza, inteligência e simpatia de Don Martín. Exato. Martín como o argentino Martín Fierro. Porém, este, bolivianíssimo. Contou-me, entre sorrisos, a história do Centro de La Paz, narrou-me aventuras durante o caminho e me aguardou pacientemente visitar cada museu do império Tihuanaco.

Recomendo: quem for para La Paz, contrate os serviços do guia Martín que o levará de carro, por um preço justíssimo, para conhecer os mais fantásticos lugares bolivianos.

Faça contato com ele através dos hotéis LP Columbus

LP COLUMBUS: Stadium Miraflores, Av. Illimani N° 1990 • Telf. (591-2) 224 2444 Fax: (591-2) 224 5367, La Paz – Bolivia

Site: http://www.lphoteles.com/

Recomendo, também, muito bem, o hotel.

Obs.: Esta propaganda é inteiramente gratuita, ou seja, não ganhei nem um tostão para fazê-la, faço motivado pela qualidade do guia.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Don Martín, o guia e seu carro diante do Titicaca

O FETO DE LHAMA

Há alguma beleza no feto de lhama que foi poupado de nascer.

Dorme sobre a lona azul um sono que ainda não conheço e por isso o invejo e o temo.

Admiro um simples feto de lhama que repousa sobre a lona azul como o céu.

Seus pequenos olhos cerrados, lembram-me os bebês que vi quando menino em vidros de formol no laboratório da escola.

Será que lhe restou algum tempo para dilemas: “sair do calor do ventre materno direto para o frio da morte ou jamais morrer em um mundo de bruxas e feiticeiros?” –  Temo que sim.

Os fetos de lhama, imagino, são muito racionais e fraternos, quando se lhes dá espaço.

Há não só beleza no feto de lhama poupado de nascer, há valor.

Valor de qualquer coisa, de tudo. Pois no mundo das bruxas e feiticeiros, ou seja, no nosso mundo, o feto de lhama nos dá o que pedimos, basta falar com ele e libertá-lo do peso de ter um corpo ainda que morto.

O feto de lhama, já liberto de alma, pra se libertar do corpo, precisa ser queimado.

Todo dinheiro empregado para se ter um feto de lhama vira cinzas que viram o pedido realizado, assim se crê.

Observando o feto de lhama, notei que a maior diferença – se é que há – entre mim e ele é o fato dele ser lhama e eu gente.

A maior igualdade – observei – é que nós dois fomos feitos pra morte.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

O MERCADO DAS BRUXAS

No creo en brujas, pero que las hay, las hay
(Ditado popular)

Já visitei muitos mercados e continuarei visitando. Porém, este mercado a céu aberto localizado em La Paz é um dos mais impressionantes que já vi. Talvez seja a maior materialização do termo, possivelmente equivocado, mas muito justo para este momento, Realismo Fantástico. Por trás das barracas estão feiticeiras que oferecem artigos religiosos, decorativos, jóias e roupas. São estátuas de deuses, fetos de lhama secos, artigos de prata, cachecóis… É como se estivesse durante algumas horas em Cem Anos de Solidão. Tudo isto está em duas ruas cravadas no Centro da Cidade com ruelas que se ramificam e levam até lojas de camisetas, locais de artesanato, museu e barracas de folha de coca. Neste lugar onde o irreal é possível, o objeto mais estranho é você, turista.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Uma esquina qualquer do Mercado das Bruxas

Roupas de lã de lhama no Mercado das Bruxas

Em uma Ruela no Mercado das Bruxas

No Mercado das Bruxas

Fetos de lhama e outros artigos religiosos no Mercado das Bruxas

San Francisco de La Paz

A Igreja de San Francisco é bruta e delicada. Feita de inúmeras e robustas pedras, possui detalhes que parecem ter sido feitos por uma senhora velha e sutil. Vive lotada de fiéis e turistas e está bem no centro da cidade de La Paz. Por trás do seu catolicismo e cristianismo tradicional, há o mistério das pedras que parecem revelar diversas caras de deuses indígenas. E não é assim o povo boliviano, extremamente católico, mas repleto de deuses andinos?

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

A bruta e delicada Igreja de São Francisco

Os sinos da igreja

Os comércios no templo

Repare nos detalhes da pedra as figuras indígenas

É pecado tirar foto na igreja quando não é permitido?

Marchar!

Curioso é que a palavra Marchar em português está diretamente relacionada (pelo menos em meu imaginário) aos eventos militares. Quem marcha, é soldado. Esta verdade nos está incutida desde a infância quando ouvíamos repetidas vezes a canção “marcha soldado, cabeça de papel…” Em espanhol não é assim. A palavra MARCHAR, antes de estar relacionada a eventos militares está relacionada a dois sentidos: 1 – o ato de ir embora; 2 – o ato de se manifestar (marchar hasta el edificio del gobierno, marchar por la paz) . Na Bolívia, país extremamente politizado, as marchas são cotidianas. Pude presenciar manifestações em Santa Cruz de la Sierra, Sucre e La Paz. Diferente do Brasil, país em que o envolvimento político é visto como algo pra se sentir vergonha, na Bolívia, política é uma prática muito séria e está às mãos de quem quiser fazê-la. Basta marchar sobre as ruas e praças.

Antunes Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Vi manifestação em Santa Cruz de la Sierra

Vi manifestação em Sucre (esta só de mulheres)

Vi manifestação em La Paz

Vídeo de Manifestação em Santa Cruz de la Sierra

Vídeo de manifestação em La Paz

Plaza Murillo

Se as outras praças bolivianas parecem ter sido feitas para os fins de semana, para o descanso, para se aconchegar nos bancos e conversar após a missa, a Praça Murillo parece ter sido feita para os dias de semana, para o povo caminhar sobre ela rumo ao trabalho. A Praça Murillo, é a mais política das praças. Ali fica o presidente Evo Morales, num prediozinho tão insignificante que só descobri depois e faltou-me a foto. Entretanto, ali fica também a imponente catedral de La Paz e o belo prédio do Poder Legislativo. É por ali que marcham as manifestações e desfila a Clio boliviana.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

A Catedral ao fundo e a esquerda, encoberto, o prédio do Poder Executivo, onde fica Evo Morales.

Palácio do Poder Legislativo na Praça Murillo

Monumento a Pedro Domingo Murillo, na Praça Murillo

Os tradicionais pombos estão também na Praça Murillo

Chapolim fazendo um bico na Praça Murillo

Sentar-se à mesa do vizinho

Comer em outro país é como sentar-se à mesa do vizinho. Não sabemos direito dos seus gostos e, de qualquer jeito, temos que empurrar a comida pra dentro. Na casa do vizinho é pra não fazer desfeita, em outro país, é pra não morrer de fome. Os bolivianos são loucos por frango. Estive por lá e afirmo que se pode encontrar frango dos mais variados jeitos a todas as horas. Uma coisa muito curiosa é que rodei as três principais cidades do país e não vi um Mc Donalds sequer, há raros Burguer Kings e Subway, mas Mc Donalds jamais. Todavia, o que faz sucesso mesmo são os Pollos Copacabana, uma rede nacional especializada em servir frangos. Funciona igualzinho a um Mc Donalds, você pode chegar e pedir a promoção número 1, por exemplo, só que no lugar de receber um Bic Mac, receberá uma coxa com sobrecoxa, batatas fritas, bananas e refrigerante! Curioso, não? Obviamente eu provei… é bastante gorduroso e meio nojento, mas o paladar é gostoso. Outras peculiaridades que encontrei na cozinha boliviana são: a falta de fiscalização sanitária e a pouca preocupação com a higiene, o gosto pelas mandarinas, os picantes, o quinua, as salteñas e o saboroso Sonso (já recomendados em outras postagens)…  As comidas pelo país são bem baratas se comparadas ao Brasil. As refeições geralmente são antecipadas por uma sopa (não cobrada) e finalizadas com uma simples sobremesa. Quanto às sopas, há das mais variadas. Pude, inclusive, provar uma distinta sopa de amendoim com batatas fritas e osso! Se o cardápio não lhe agrada, algo lhe servirá de consolo: lá, bem diferente do Brasil, não se cobram os abusivos 10 por cento do garçom!

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de julho de 2010

Pollos Copacabana, o Bobs galináceo da Bolívia

Fazendo um lanchinho no Pollos Cobacana: frango, batatas, refigerante e bananas

Deliciosa sopa de Zapallo, uma espécie de abóbora

Paceña, a cerveja nacional mais famosa

Uma diversa refeição boliviana: carne de porco, batata escura, milho branco e grãos que desconheço

Uma espécie de queijo folheado na parada do ônibus, vai encarar? Eu não!

Sopa de Amendoim com batatas fritas e um pedação de osso no meio do prato pra dar um gostinho

Refresco de lima. Jamais tomem isso, é horrível.

Milkshake de sorvete + café + banana

Cuñapé, o pão de queijo boliviano

Ar leve e seco como a rocha

“Otra vez este flamear invisible, seco, que se pega a los cuerpos. Me parece que debería abrirse una ventana en alguna parte para que entrase el aire.”
(Augusto Céspede, El Pozo)

Soroche: É um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas claros e perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. (fonte: http://www.arqueologiamericana.com.br)


Em La Paz, não sofri em momento algum com o maldito SOROCHE. Estive tal agnóstico que só sabe que há diabo porque lhe disse alguém. Não senti o Demônio, mas o suposto Cão atacou minha esposa. A pobre teve dor de cabeça, vontade de vomitar, sono…  nem a água benta chamada CHÁ DE COCA lhe tirou o mequetrefe do corpo. Seus pulmões não foram suficientes, mas os meus, treinados por quase três décadas de bronquite, adquiriram resistência aos mais de três mil metros de altura (cada vez creio mais na lei da compensação). Até admito que em La Paz não funcionei como funciono no Rio de Janeiro: faltou aquela energia pra dar o pique atrás do ônibus, as ladeiras pareceram sempre maiores, o corpo mostrou-se mais pesado… porém cheguei a imaginar que isso eram apenas setas de Satanás e não o Cramunhão em sua íntegra. Das facetas fantásticas do ar, a única com que tive contato foi a Secura. Em La Paz, talvez não sejam todos atingidos pelo SOROCHE, mas parece-me impossível não ser atingido pela aspereza do ar, seco com uma rocha. A cidade parece contrariar as leis da natureza e apresentar ar em estado sólido. A boca logo fica seca e descasca, a sede é constante. Há, ainda, uma mescla improvável, presente em uma música popular latino-americana gravada e repensada por Chico Buarque: “Soñé que el fuego heló. Soñé que la nieve ardia.” La Paz é neve que arde: sob um frio de quase zero grau, é possível ficar queimado de sol sem perceber e sem derramar suor. Depois de andar pelas ruínas Tihuanaco, cheguei ao hotel no centro de La Paz com a pele totalmente seca e queimada, chegava a descascar. Eu poderia confundir-me com o chão de terra batida do império: desértico e maltratado pelo Sol. Foi então que percebi que o Soroche e a Secura não eram intervenções diabólicas, mas as mãos dos deuses andinos que queriam converter o invasor pseudoeuropeu em pó seco, apenas para que o pesado vento me levasse dali.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de julho de 2010

Em meio ao Tihuanaco: frio, sede e sol forte. Muita água para combater a aspereza do ar.

La Paz de Dios

LA PAZ

Eu juraria por Deus ver uma favela, mas também juraria ver uma espécie de Israel. Sempre ouvira que favelas são chagas no tecido social, no entanto, naquele instante, eu gozava da beleza que via. Daí duas opções: ou não eram chagas ou eu atingi um grau de loucura que sentia prazer em ver aquelas feridas sobre a terra. Era possível que a altitude tivesse se apoderado e enlouquecido minha cabeça, mas o que eu mais temia é que o coração tivesse se apoderado de meu cérebro e simplesmente eu me apaixonara por tal lugar, ainda que fosse uma visão tão distante dos padrões de beleza, mas tão próxima de algum lugar da minha infância, quiçá aquelas casinhas de tijolo me remetessem a imagens de barracos que eu via, ainda menino, ao passar por algum viaduto de Cavalcante ou ao cruzar alguma avenida de Magalhães Bastos.  Eu estava alto. Alto como jamais estivera. Ébrio de altura. Abaixo, La Paz com seus infinitos tijolos, acima, eu, brincando de olhar como Deus, a jurar por mim às verdades que vi.

LA PAZ Y YO

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de julho de 2010

CEBRA

2 esclarecimentos e uma conclusão:

1
Incansavelmente ensinei para os meus alunos de espanhol que antes das vogais E e I não se usa Z. Sendo assim, está aí um exemplo: CEBRA, em português: ZEBRA. Cebra é como se chama em espanhol aquele simpático animalzinho africano que mais parece um cavalo riscado de preto e branco. Cebra é, também, o nome que se dá, em espanhol, à faixa de pedestres.

2
Na Bolívia, coisa que não funciona bem e quase não existe é sinal de trânsito. Tenho uma amiga que morou em Santa Cruz de la Sierra que passava a tarde na varanda a olhar os acidentes de carro que aconteciam na sua rua. Em La Paz, o trânsito é horroroso, pessimamente organizado e só existem alguns poucos sinais de trânsito no Centro da Cidade. No mais, funciona assim: quem vai? Vou eu… não, vou eu… e os carros se chocam e ficam lá atrapalhando tudo.

Conclusão
O governo para melhorar o trânsito de La Paz, escalou uma série de colaboradores que ficam com suas placas a ensinar quando se deve ir e quando se deve parar, além disso, ajudam os peatones (pedestres) a atravessar. Mas, afinal, nesta conclusão, onde o esclarecimento 1 se choca com o esclarecimento 2: bom, leitor, o cruzamento é o seguinte: para que tudo fosse contextualizado, no lugar de sinal de trânsito e policiais, o governo resolveu colocar nas ruas simpáticas zebrinhas que organizam o trânsito de La Paz e conquistam os sorrisos de crianças e bons velhinhos, além de arrancar flashs de turistas como eu. Fica aí a sugestão: é inegável que o trânsito brasileiro é lamentável, quem sabe a solução não seja temperá-lo com alguma graça à moda boliviana? Será que vai dar zebra?

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de julho de 2010

Una cebrita ayudando los coches y peatones