Ar leve e seco como a rocha

“Otra vez este flamear invisible, seco, que se pega a los cuerpos. Me parece que debería abrirse una ventana en alguna parte para que entrase el aire.”
(Augusto Céspede, El Pozo)

Soroche: É um efeito causado pela falta de oxigênio. Apresenta sintomas claros e perigosos: indisposição geral, seguida de forte dor de cabeça e uma ânsia de vômito incontrolável. (fonte: http://www.arqueologiamericana.com.br)


Em La Paz, não sofri em momento algum com o maldito SOROCHE. Estive tal agnóstico que só sabe que há diabo porque lhe disse alguém. Não senti o Demônio, mas o suposto Cão atacou minha esposa. A pobre teve dor de cabeça, vontade de vomitar, sono…  nem a água benta chamada CHÁ DE COCA lhe tirou o mequetrefe do corpo. Seus pulmões não foram suficientes, mas os meus, treinados por quase três décadas de bronquite, adquiriram resistência aos mais de três mil metros de altura (cada vez creio mais na lei da compensação). Até admito que em La Paz não funcionei como funciono no Rio de Janeiro: faltou aquela energia pra dar o pique atrás do ônibus, as ladeiras pareceram sempre maiores, o corpo mostrou-se mais pesado… porém cheguei a imaginar que isso eram apenas setas de Satanás e não o Cramunhão em sua íntegra. Das facetas fantásticas do ar, a única com que tive contato foi a Secura. Em La Paz, talvez não sejam todos atingidos pelo SOROCHE, mas parece-me impossível não ser atingido pela aspereza do ar, seco com uma rocha. A cidade parece contrariar as leis da natureza e apresentar ar em estado sólido. A boca logo fica seca e descasca, a sede é constante. Há, ainda, uma mescla improvável, presente em uma música popular latino-americana gravada e repensada por Chico Buarque: “Soñé que el fuego heló. Soñé que la nieve ardia.” La Paz é neve que arde: sob um frio de quase zero grau, é possível ficar queimado de sol sem perceber e sem derramar suor. Depois de andar pelas ruínas Tihuanaco, cheguei ao hotel no centro de La Paz com a pele totalmente seca e queimada, chegava a descascar. Eu poderia confundir-me com o chão de terra batida do império: desértico e maltratado pelo Sol. Foi então que percebi que o Soroche e a Secura não eram intervenções diabólicas, mas as mãos dos deuses andinos que queriam converter o invasor pseudoeuropeu em pó seco, apenas para que o pesado vento me levasse dali.

Antunes
Rio de Janeiro, 15 de julho de 2010

Em meio ao Tihuanaco: frio, sede e sol forte. Muita água para combater a aspereza do ar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s