Arquivo do mês: agosto 2010

A Paraty do senhor meu pai

Meu pai é um senhor antigo, careca, com uns ares um tanto estóicos, um tanto franciscanos, um tanto budistas, um tanto confusos, que em dado momento da vida resolveu inventar que passou outras vidas em Paraty. Diz-me que morou pela Rua do Fogo, ruazinha singela e florida, num tempo colonial e, até hoje, singela e florida, num tempo que inda parece colonial. Ele diz-me que a rua do Fogo é a de nome mais simples, a de flores mais simples, de solo mais simples, de casas mais simples. Diz-me, também, que ali levou uma vida simples, rodeada de gente simples, de hábitos simples, de simples comidas. Meu pai quando volta de Paraty, sempre me conta esta simples história, mas a mim parece tão complexa.

Antunes
Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2010

A Rua do Fogo, antiga rua de Paraty, onde viveu e morreu meu pai

A rua do Fogo é a de nome mais simples, a de flores mais simples, de solo mais simples, de casas mais simples.

Na casa do senhor meu pai

Parati para alguém

Queria ver Paraty de dentro de um livro, confundir ruas com linhas e aventurar-me por becos de estórias. Li Parati para mim da Editora Planeta e achei a Paraty física mais lírica que a Paraty de letras que me foi oferecida. São três jovens autores que se arriscam a compartilhar contos que exibem a cidade como cenário: Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian. Com algumas passagens boas aqui, outras ali, hei de confessar que o livro não foi de meu agrado. Encontrei-me mais nas esquinas de pedra do que nas páginas de papel.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

Capa do livro Parati para mim

E uma garrafa de rum!

Não que eu acredite em fantasmas… muito menos em fantasmas de piratas ou piratas fantasmas. Seja lá o que vi, o fato é que vi. Em Paraty os piratas vêm do mar e é pro mar que tornam. De dia, ficam entre as crianças, a tirar fotos, a fazer propositais caras de maus. De noite, findam-se as oito horas de trabalho. Os artistas, se é que se pode chamá-los assim, voltam a ser meros quaisquer um de nós e vão passar a noite nos bares ou na cama, que é lugar quente, esperando o horário de nascer o sol e de se pôr novamente a fantasia. Os pais dizem pros meninos: “já se foram, filhos, voltaram pro seu navio no mar.” Paraty enaltece este passado, faz dele turismo, entretenimento, parte da paisagem. Não só os homens vestidos, mas as lembrancinhas das lojas, o nome das vendas, dos pratos dos restaurantes, no rótulo das cachaças … certo mesmo é que os piratas ancoraram em Paraty e não mais sairão. Mas isto não justifica o que vi, leitor.

Era noite bem anoitecida, vinha eu mais minha esposa que não me deixa mentir, a flanar pelas ruelas da histórica cidade, quando avistamos um conjunto de três crianças. Atrás delas vinha um pirata sem loro, sem espada, sem perna de pau, mas um pirata. Por trás das crianças, o sujeito macabro gritou. Tomou o pirulito duma, beliscou as bochechas doutra e deu um arroto bem na face da terceira. Depois saiu a cantar por uma ruela sem gente. Corremos, minha esposa mais eu, até os miúdos. Virei pra ruela, saquei uma foto do patife (e uso esta palavra porque a acho bem designada a um pirata), virei novamente pras crianças e quando mirei novamente à ruela escura, o patife (friso) tinha fantasmagoricamente sumido. Voltei a olhar pras crianças que já, também, não estavam mais ali. E eu já duvidava se realmente vira tudo que vira ou se era a minha garrafa de rum que contava as histórias. Sorte que me sobrou a foto, leitor. E sabe você que as fotos são ainda mais sinceras que as garrafas de rum.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

Dentro de um cartão-postal

Era como se estivesse dentro de um cartão-postal.”
(MATTOSO, Chico. “Emílio” in Parati para mim.)

O homem tem dessas contradições. Queria ver algo de feiúra, mas só via penduricalhos bonitos, ruas bonitas de pedra, fachada de igreja bonita. Estar entre o mar e a igreja de Santa Rita dos Pardos Libertos dá aquele nó na garganta que só os presos sabem qual é. Mas na prisão convencional há muito de feiúra. Ali, em Paraty, a punição é ver tudo bonito naquele marasmo celestial com o qual sofrem os anjos. Mais propriamente entre o mar e a igreja, fica-se preso num cartão postal. Visualize aquele monte de gente que bate a foto: quantos não me aprisionaram pra sempre? E depois chegam às suas casas, pros seus parentes mais íntimos e até pros invejosos e hão de me mostrar junto com a paisagem. Talvez alguém até me note: ou a tia gorda, ou o moleque com déficit de aprendizado. Talvez um deles diga: quem é esse que te estragou a foto? Sou eu. Mas não estarei ali pra responder-lhes isso. E se passarão dois anos, dez, quem sabe um século e ainda estarei lá. Talvez Paraty se arruíne, mas eu continuarei lá, num canto empoeirado da sala, preso num cartão-postal.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

Dentro de um cartão-postal


Nôla Farias filma a igreja de Santa Rita dos Pardos.

Um pouso de cigarra em Paraty

À parede, em azulejos, está escrito com letras miúdas: “Cigarras, pouso familiar”. Batemos à porta como quem bate nos portões de um antigo castelo e só respondeu o silêncio. Olhei pela janela e vi outra época organizada em móveis. Voltamos a bater com ares curiosos de João e Maria à porta da casa de doces da bruxa.  Surgiu uma moça pra atender-nos e disse que ficássemos à vontade, a dona da pousada chamada Maria Rameck nos reservara um quarto.

O quarto era feito daquela acolhedora simplicidade proporcionada pela madeira. Nele dormimos por dois dias e acordamos outros dois. Uma música antiga nos convidava para o café da manhã e, como no desenho da Bela e a Fera, tinha a impressão que eram os talhares e louças que nos serviam. Não havia gente na pousada. Ao chegar à mesa, o mais repleto café da manhã que já vi em toda a vida: com toda aquela comida caseira feita por mãos que só poderiam ser de alguma avó. Enquanto mordíamos, saiu da cozinha a dona Rameck a contar histórias da juventude que se confundiam com a pousada, com a música que tocava e com os bolinhos de palmito. Saíamos por todo o dia e voltávamos à noite. Paraty era bonita dos dois lados da pousada.

Antunes
Rio de Janeiro, 26 de agosto de 2010

Site da pousada: http://www.paraty.com.br/cigarras/

A Pousada Cigarras da dona Rameck

Fartando-me no café da manhã

Presente que ganhamos de dia dos namorados da dona Rameck

O gramofone contou-me um segredo em música

Ela à janela

A vista da pousada

Pés de moleque e de moças também

Ao se descer na rodoviária de Paraty, pode-se pensar: mas onde raios está a cidade histórica? Vá com calma, viajante, pois basta dar alguma meia dúzia de passos que se esbarra com umas correntes postas pelo IPHAN, a partir dali, adeus asfalto. Agora são “pés de moleque” nada doces, diga-se de passagem. Escorregadios, traiçoeiros, fatais para alguns. Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita! Aí, revivemos os pesadelos infantis e os sonhos frustrados porque fomos meros espectadores daquelas brincadeiras de domingo à tarde.  Enfrentei cada maliciosa pedrinha carregando uma mala pesada de autoria de minha mulher: secador, chapinha, sapato, sapato, sapato… e todas estas coisas com as quais elas se apovoam pra nós. A única alternativa era a charrete, mas é muito caro o valor que se paga para assistir a evacuação dos cavalinhos. Resolvi ir a saltar de pedra em pedra, mala num ombro, esposa noutro, tal um valente homem capaz de habitar a remota Paraty. Vi tropeçar e cair, por ali, vários casais apaixonados, senhoras distintas, turistas avermelhados, vi escorregar pés de moleque e de moças também. Em Paraty, o ar é fraterno, pois nos irmanamos vítimas de um mesmo algoz: o pé de moleque!

Antunes
Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2010

Pés de moleque nada doces

Pés que já foram de moleque sobre os pés de moleque

Quando cai a chuva, parece que estamos diante daquela antiga olimpíada do imortal Faustão, chamada Pedra Maldita!

Vídeo: Emanoelle Farias filma e narra o chão de pé de moleque.

Paraty: uma Terra do Nunca

São ruas de pedra que remetem àquelas cantadas pelas mães à hora de dormir. São ruas de pedra que não são de brilhante, mas são de pé-de-moleque. São doces ruas, difíceis de caminhar que nos levam aos tropeços a visitar igrejas, a passear por praças, a cochilar em pousadas, a ladear carroças, a comprar artesanatos e doces: comer pé-de-moleque ao andar sobre pé-de-moleque.

Uma canção antiga saída d’alguma garganta espanhola é replicada pelo gramofone de dona Maria Rameck, sai pelas janelas azuis e guia os passantes pelas ruas de pedra, água e fogo da histórica Paraty.

Nas andanças matutinas, vêem-se os pássaros imortais que estão ali desde a fundação da cidade, vêem-se cães e gatos irmanados neste éden urbano. À beira mar, o vento de mãos macias está sempre disposto a acariciar a pele das moças e a saudar os românticos que recitam poemas roubados de algum poeta inglês.

Nos passeios noturnos estão os fantasmas dos piratas que outrora assustavam por ali. Agora, mortos, são amigos das crianças e quando juntos desejam um irônico “vida longa” ao brindar com canecos de vinho e garrafas de rum e repetem piadas insólitas aprendidas com seus papagaios.

Por toda a antiga cidade há rumores que se confundem com as músicas, não se sabe se é o marulho ou as infinitas vozes de senhoras que rezam seguindo as infinitas procissões. Toda Paraty tem uma reverência de igreja, uma graça cenográfica, um mistério maçônico, uma felicidade infantil e um luto de viúva.

E estar na cidade é desfrutar de uma alienação meritosa, de um anacronismo feliz, é despregar-se do tempo dentro do próprio tempo. Mas ao cruzar as correntes do IPHAN, finda-se a viagem pela Terra do Nunca fluminense. Fica a Cidade, vão-se as pessoas: ontem chegaram e partiram valentes navegantes, hoje chegam e partem distintos turistas. Quem chegará amanhã?

Antunes
Publicado no jornal Jacarepaguá Em Destaque, julho de 2010.

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