Arquivo do mês: setembro 2010

Politeísmo grego no mundo cristão

Pela ninfa, que jaz vertida em louro,
o grande deus Apolo não delira?
Jove, mudado em touro
e já mudado em velha não suspira?
Ama Apolo, e o fero Marte;
Ama, Alceu, o mesmo Jove:
Não é, não, a vã riqueza,
Sim beleza,
Quem os move.
“Aos negros, duros pesares
“Não resiste um peito fraco
“Se o amor o não fortalece:
“O mesmo Jove carece
“De Cupido, e mais de Baco.”

(Tomás Antônio Gonzaga, Trechos de Marília de Dirceu)

Logo que acabei de ler Marília de Dirceu, escrito por Tomás Antônio Gonzaga, subi numa mureta em Ouro Preto pra olhar a cidade e tentar reviver alguma coisa da obra. Dali de cima, vi Jesus crucificado, perdido entre montões de anjos. Vi Marias, todas elas, desde a de Cristo até a de Magdala. Vi guias turísticos, vi taxistas, vi ladrões e até me vi, em alguma janela, a espreitar a minha Marília e foi o máximo que vi. Não consegui ver Apolo com seu arco a pisotear casebres ao guerrear pela justiça. Não vi Cupido algum – embora até houvesse amores – atirando suas flechas em qualquer que atravessasse seu caminho. Não vi, pelas ladeiras de Ouro Preto, nenhum Baco a rolar embriagado. Não encontrei pela cidade nenhum deus Marte a travar guerra contra os cristãos. Tampouco vi sobre uma nuvem, o senhor Jove tronante, a punir-nos com seus raios. De livro na mão, voltei a sentar e percebi que o Barroco ali é matéria, o arcadismo é uma idéia.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de setembro de 2010

Os Carapinas do nada em Ouro Preto

Eram carapinas do mínimo e do nada, os devoradores das horas, insaciáveis Saturnos.”
(Autran Dourado, Os mínimos carapinas do nada)

Se não ficou claro nestas primeiras palavras do Autran, eu mesmo explico e depois o evoco novamente pra arrematar, caro leitor: carapinas do nada são aqueles artistas manuais que ficam horas e horas a esculpir uma matéria prima, até convertê-la em coisa que tenha valor nenhum. Dividamos a expressão: carapinas são os que talham madeira e nada é nada mesmo, essa coisa nenhuma. Novamente Autran, agora em entrevista à Folha: “São os velhos que ficavam na janela de casa, esculpindo, tirando pequenas aparas de madeira, fazendo caracóis. Procurando o nada.”

Lembrei de Ouro Preto ao ler o texto e ao ler Ouro Preto lembrei do texto. Afinal, o que é a arte Barroca (e a maioria das outras também) senão montão de nada trabalhado por tempos e tempos? Que raio de utilidade tem um anjinho com bunda de fora? Quanto vale os olhares duma santa? E as barbas dum santo que nem sei o nome, têm valor?

Dois carapinas do nada, graças a esse montão de coisa nenhuma, ficaram famosos e entraram pra história, que é esse monte de nada também: Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) e Manuel da Costa Ataíde (o mestre Ataíde). Posso, inclusive, baseado na obra de Autran, encaixá-los na terceira categoria de carapinas:

E agora se apresenta a pura, a sublime, a extraordinária terceira categoria. Só aos seus membros, peripatética academia, se podia aplicar estes qualificativos: divinos e luminosos, aristocráticos artífices do absurdo. Eram como poetas puros, narradores perfeitos, cepilhando e polindo as vazias estruturas do nada.”   (Autran Dourado, Os mínimos carapinas do nada)

Por Ouro Preto é fácil achar todas as categorias de carapinas: os que inventaram anjos, pintam igrejas, esculpem pedras sabão, fazem artesanato qualquer ao ponto de uma colher deixar de ser um item útil e se tornar um item de beleza. E é com essas obras que são nada que se enfeitam as igrejas. Deve Deus gostar bastante do nada. E não foi Deus que fez o homem, esse montão de coisa alguma, não seria ele então um grande carapina do nada? Está entendido.

Antunes
Rio de Janeiro, 23 de setembro de 2010

No meio do nada

Aleijadinho, um carapina do nada

Quando a pedra sabão vira monte de nada, feira de pedra sabão diante da igreja de São José

Um de frente proutro: Museu da Ciência e Técnica e Museu da Inconfidência

Toda história é remorso
(Carlos Drummond de Andrade, Museu da Inconfidência)

Se toda a história é remorso, como diz Drummond, o que são os museus, um pote até aqui de mágoas? E muitos são os arrependimentos de Ouro Preto: a escravidão, a repressão aos inconfidentes, a censura…O que são dois museus, então, um de frente proutro? Dois baldes de remorsos que se entreolham? E o que são vários museus, incontáveis igrejas, minas, sobrados… o que é Ouro Preto senão uma interminável lamentação? E o que é este texto senão um lamento sobre o lamento, um chover sobre o molhado?

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de setembro de 2010


Visão geral da Praça Tiradentes, Centro de Ouro Preto.


Museu da Inconfidência, poema de Carlos Drummond de Andrade, lido por mim, Vinícius Antunes

Museu da Inconfidência de frente para o Museu da Ciência e Técnica

Museu da Ciência e Técnica de frente para o Museu da Inconfidência

As ladeiras de Ouro Preto

Ora próximo de Deus, ora próximo do Diabo. Talvez seja isso o que as ladeiras de Ouro Preto queiram dizer. Ora próximo de Deus, ora próximo do Diabo. Toda subida carece de uma súplica e faz recordar orações mais ditas pelas avós. Toda descida, um momentâneo alívio, falsa ilusão que o sofrimento acabou. Se não bastasse, as ruas inda são tortas só pra lembrarmos-nos da certeza de Deus. E as pedras que escorregam, as que ferem os pés, as pedras de dor, ora são de Deus, ora são do Diabo. Por estas mesmas ladeiras, subiram inconfidentes, subiram escravos mineiros e escravos de ganho, subiram damas da corte, subiram homens valentes, subiram padeiros, subiram atores e todos eles, mais alguns passos à frente, novamente desceram. Ora próximo de Deus, ora próximo do Diabo.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de setembro de 2010

Além dos bens e do mal

Há bens que vêm pra mal. E o carro é um dos bens mais consumidos pelos brasileiros que mais tem feito mal a estes brasileiros. É óbvio, leitor, que prefiro andar de carro que de ônibus, mas são ônibus, trens e metrô que fazem parte do meu cotidiano. É impossível andar de carro pelo Rio de Janeiro no horário do rush. E quando não é o estrago provocado pelos engarrafamentos, o carro maltrata com a fumaça, com o barulho e com a poluição visual. Uma das frases que minha esposa mais ouviu de minha boca durante nossa estada em Ouro Preto foi: “Não admito estes carros no centro histórico!” Acabara de vir de Paraty onde são proibidos carros no centro e, Ouro Preto, não segue esta mesma boa prática, diga-se de passagem, nenhuma cidade histórica de MG segue esta ótima prática. Os carros ficam ali, largados a enfear o ambiente, a estragar as fotos, a impedir as caminhadas. Sorte foi a de Tiradentes que morreu antes de ver um Corola ao lado dos sobrados; sorte foi a de Tomás Gonzaga que não pôde escrever que Marília estava à janela de seu Novo Uno; sorte foi a de Silvério dos Reis que não traiu Joaquim José em troca de um Astra. Azar foi o meu que tive que dividir minhas fotos com este monte de sucata.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2010

E quando eu ia tirar aquela bela foto, eis que surge um maldito carro

O cemitério parece mais um estacionamento

E qualquer foto fica uma porcaria com esse monte de carros

O dia em que tiradentes perdeu a cabeça

Não sei porque este tipo de culto, sei que há. Bem no centro d’Ouro Preto está a estátua do Joaquim José com a inscrição: “Aqui ficou exposta a cabeça de Tiradentes.” O leitor deve saber que após ser enforcado, o Joaquim José foi esquartejado e sua cabeça se destinou ao centro d’Ouro Preto. Fico a imaginar como deve ter sido aquele fatídico dia em que algozes vestidos de negro pararam a picotar o martir e a ouvir dos governantes: a cabeça ficará aqui na praça, a perna irá ali praquela esquina, o braço colocar-se-á acolá. Imagino, senhor leitor, a fedentina de carniça espalhada pela cidade, as moscas e a urubuzada inda mais famitas que os moradores. Imagino, ainda, senhora leitora, a pobre e púdica dona Maria, todo dia a ir reclamar com as autoridades, pois, por morar em residência pouco nobre, penduraram bem em frente a sua casa, logo a cabeça menos nobre do Joaquim José. Todo dia ao abrir a porta de casa, via pendento ao alto dum poste e a apontar para a sua residência, aquela cabeça de pau.

Sentado ao Palácio da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, 18 de setembro de 2010

O monumento a Tiradentes bem no Centro de Ouro Preto

Está escrito: "Aqui em poste de ignominia esteve exposta sua cabeça"

Tiradentes num céu azul

Só assim para erguerem monumento a um dentista.

O LAGARTO QUE SORRI

Há vantagens, claro. Quem dera fosse por elas que o lagarto sorrisse. Conseguimos um albergue para hospedar-nos por cem mangos e que fica a menos de dez minutos a pé do Centro de Ouro Preto. Muita felicidade, leitor, pois o segundo lugar mais barato para se ficar custava praticamente o dobro. Anote aí a dica se quer pagar barato: Albergue Sorriso do Lagarto. Entretanto, ao chegarmos, começaram as problemáticas da esmola em demasia: uma bagunça. O quarto em que nos depositaram parecia vitimado por um furacão: umas cinco camas beliches reviradas, colchões jogados, lençóis desarrumados… e, no meio delas, uma cama de casal pra mim e pra senhora minha esposa. Claro que, ficamos nós apenas, as camas de beliche eram tão-somente decoração e por sorte não inventaram de hospedar ninguém ali conosco. O banheiro é daqueles que se pode tomar banho sentado sobre o vaso sanitário, boxe é alto luxo. Foi assim, leitor, que descobri porque o lagarto sorri. Sorri debochadamente da nossa cara, sorri com o cantinho da boca, sorri porque é um sacana. Maldito lagarto que sorri!

Antunes
Belo Horizonte, 17 de setembro de 2010

Nosso debochado amiguinho...

E no nosso quarto, passara um furacão?

Era por isto que o maldito sorria?