Arquivo do mês: outubro 2010

A Mariana

Mariana vista da Igreja de São Pedro dos Clérigos

No canto matinal, sobre a treva do vale.”
(Carlos Drummond de Andrade, Evocação Mariana)

Ah, leitor, se você tivesse um pingo de decência e vergonha na cara pararia de ler este blog, pois falo de igrejas e todas são iguais. Falo de verdadeiras cidades-igrejas, cidades que aparentemente possuem mais templos que casas. Não pretendo inovações, não pretendo uma sequer. Não fiz nada de diferente até agora e cheguei a pensar em copiar e colar o mesmo texto à guisa de alegoria que expresse as cidades históricas de Minas Gerais. Entretanto, contrariei-me e às minhas pretensões, pois fui a Mariana, única cidade histórica, das que visitei, com nome de mulher. Ah, Mariana! Feminina Mariana. Espero que teus anjos tenham sexo e que seja feminino: anjinhas… Mariana da Estação de Trem rodeada de casinhas feias e pobres, das igrejas no alto dos morros, das praças, do pelourinho, do sino que toca nas almas, da Mariana, mocinha que anda pela cidade cheia de si, acha que vive numa apologia.

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2010


Leitura de Evocação Mariana de Carlos Drummond de Andrade

Presença do ontem

Fim de Ouro Preto, começo de Mariana. Fim de Mariana, começo de Ouro Preto. Ambas antigas capitais de Minas desbancadas por Belo Horizonte. Ligadas por um trem que acumula turistas armados de máquinas fotográficas para retratar nada: um mato do lado esquerdo, uma moita do lado direito, uma pseudocachoeira. O melhor da viagem de trem é o próprio trem e suas simpáticas estações sustentadas pela Vale. Os vagões andam a balançar feito um berço, mais vale dormir no ombro d’alguém que ir desperto a olhar o redor. O maior prazer de estar ali é saber-se não-ali em pouco tempo, é a chegada à outra cidade de mais igrejas, de mais barroco, de mais rococó, de mais passado e sem presente nenhum. Como pode haver presente nestas cidades que vivem um cotidiano de turistas e mais turistas que pedem para que o passado esteja vivo? Como pode haver presente em cidades que os relógios correm à velocidade de um trem turístico? Como pode haver hoje se todos os trilhos levam ao ontem?

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de outubro de 2010


Nôla Farias filma e narra a estação de trem em Ouro Preto

Estação do Trem que liga Ouro Preto a Mariana

Emanoelle diante do monumento ao frango ao molho pardo

Fila para entrar no trem de Ouro Preto a Mariana

Interior do trem de Ouro Preto a Mariana

O lavabo do trem de Ouro Preto a Mariana

"um mato do lado esquerdo"

"uma pseudocachoeira"

Chegada à Estação de Trem de Mariana

O trem-museu da Vale em Mariana

A morte como ponto turístico

Todas estas são prendas
dos mortos do Carmo
.”
(Drummond, Carmo)

É claro que os homens que construíram tantas igrejas imaginavam algo que ia além da imaginação de sua época. Claro que Aleijadinho caprichou nas esculturas barrocas para que elas pudessem sair bem nas fotos dos turistas do Século XXI. Afinal, as igrejas barrocas já nasceram mais para ser cultuadas do que pra ser local de culto. O que não imaginavam estes homens é que sua morte poderia ultrapassar a fama duma igreja. Aconteceu no Carmo, o cemitério pede atenção e as tumbas fazem pose para os turistas. Aconteceu no Carmo: um poeta resolveu preferir os cadáveres aos fiéis. Homens de outrora agora são o cinza dos epitáfios que comprazem os visitantes, prenda da morte e do tempo, prenda dos que morreram apenas para compor o cenário duma foto.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2010


Poema Carmo de Carlos Drummond de Andrade lido po mim em Ouro Preto

Toffolo: um hotel ficcional

Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia
.”
(Drummond, Hotel Toffolo)

Tudo no coração é ceia e imagino, ao redor deste banquete-coração, poetas como Drummond, Bandeira, Vinícius de Moraes e Oswald de Andrade. Era assim no hotel Toffolo. Hoje em dia, passamos diante dele e vemos senhores petiscando e cervejando. Não fosse a placa que está à parede, sequer imaginaríamos que ali estiveram aqueles senhores tão cheios de letras que tornavam o feijão e o arroz secundário à mesa. Não fosse nossa ignorância, até hoje veríamos senhores como aqueles, mas não conseguimos saber quem são aqueles velhos barrigudos que hoje sentam ao Toffolo, pois já não são famosos os poetas, são famosos apenas os atores das novelas – que bom pra eles. Fui ao Hotel Toffolo, tomei o cardápio e vi quão caro os versos de Drummond deixaram qualquer cerveja. Não tivesse escrito, eu poderia lá sentar. Não tivesse escrito, eu não quereria lá sentar. Não fiquei, fui às ruas buscar lugar mais barato, pois o Toffolo já pertence mais à ficção do que à realidade.


Leitura do poema Hotel Toffolo in loco

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010

Mercês da prostituta

Pequena prostituta em frente a Mercês de Cima / Dádiva de corpo na tarde cristã/ Anjos caídos da portada e nenhum Aleijadinho para recolhê-los.”
(Drummond, Mercês de Cima)

São tantas as igrejas em Ouro Preto que, confesso leitor, começo a ficar entediado de vê-las e de escrevê-las. São chatas as igrejas, são muito chatas. Se fossem boas, não precisariam pregar Cristo na cruz pra que ele ficasse lá dentro. Drummond diz que os anjos caíram da portada, creio que caíram de sono diante de alguma missa. O Aleijadinho, também, deveria estar a tirar alguma pestana, pois não apareceu. Fiquei a me interrogar por que raios chamam a Igreja de Mercês de Cima e descobri que por motivo óbvio, pois há uma Mercês de Baixo… são monótonas as igrejas. Depois de se passar por cinco delas já não se sabe qual é a mais bonita, a mais rica, a mais fúnebre… Já não saberia qual é Mercês de Cima e qual é a Mercês de Baixo, não fosse a prostituta que está diante dela, como diz Drummond. E quem é esta meretriz que vemos senão a própria Ouro Preto, deitada, arreganhada diante de nossos olhos a dar-se outrora para os portugueses e agora a vender-se aos turistas?

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010


Nôla filma a Mercês de Cima


Eu leio o poema Mercês de Cima de Drummond, diante da própria Mercês

Diante da Mercês de Cima

Sentado à beira da Mercês de Cima, atrás está Ouro Preto

Placa explicativa da Mercês de Cima

Alguns pontos sobre a Casa dos Contos

Para ser mais cruel a desventura,
Se fará imortal a minha história.”
(Cláudio Manoel da Costa – Soneto LIX)

Tenho uma jovem amiga, escritorazinha (sem qualquer pejorativo nesse inha) que gosta muito da expressão: “quem conta um conto aumenta um ponto”.  Não sei se gosto da expressão tanto quanto ela, mas penso algo ao contrário: “quem aumenta um ponto conta um conto.” Afinal, é justamente pela nossa necessidade de aumentar causos que acabamos criando novas histórias. De pequenos e sem graça já bastamos nós. Pensei sobre esta expressão de contos e pontos enquanto andei pela Casa dos Contos em Ouro Preto. Contam as histórias, com muitos ou poucos pontos novos, que nela ficaram presos os inconfidentes, nela também, que foi suicidado o poeta Claudio Manoel da Costa. Pois imagino que pela cidade não devam faltar pontos que dizem que os fantasmas dos inconfidentes rodam por lá, principalmente o do seu Claudio Manoel. Pois lhes deverei um ponto, leitor, pois não vou lhes contar que encontrei sentado à sacada o finado poeta a recitar versos perdidos no tempo. Pelo contrário, diminuirei pontos e contarei puramente o que vi.

Vi, no andar superior, quadros que sorriam aos visitantes, mas sem qualquer mistério no seu sorrir, apenas foram pintados assim. Vi obras que se moviam, mas apenas quando girávamos a manivela. Vi corredores coloniais, escadarias de nos pôr inveja, janelas que revelavam Ouro Preto como fosse um filme. Embaixo, depois de descer escadas, depois de dobrar corredores, depois que chegamos a um lugar frio e sombrio do casarão, vi um porão com ares de senzala, abrigo que desabrigava escravos. Vi antigos instrumentos especializados em evocar a dor, vi um silêncio ocre deixado pelos escravos que ali não mais estão. Na casa dos contos, não vi histórias fantásticas, vi um realismo cru de uma velha sociedade que insiste em viver, a separar uns dos outros em salões e senzalas, em livres e prisioneiros, em arte e escravidão.  Na Casa dos Contos, mais que ver aqueles quadros, muito bonitos por sinal, me interessou imaginar que contos contavam os escravos em suas masmorras, me interessou imaginar que lágrimas as chibatas não contariam a mim.

Antunes
No avião do Rio a Salvador, 18 de outubro de 2010

A Casa dos Contos

Nôla passeando pela Casa dos Contos

Interior da Casa dos Contos

Na exposição, parte superior, um quadro

Foto enquanto olhava a exposição na parte superior da Casa dos Contos

Nos porões da casa dos contos é proibido tirar fotos, mas esta saiu sem querer. Retrato da escravidão.

A história de Tomé, do ouro, minha e de uma igreja

Já dizia o Tomé, o São (que de saudável não tinha nada) ao apregoar em seu portunhol “Hay que ver pra crer.” (digo que o santo fala portunhol, pois só consigo imaginá-lo assim).  Não há como ser são, nem santo, alguém que sustenta esta afirmação, mas entendo a origem da expressão que deve ter nascido lá em Ouro Preto. São Tomé descia as ladeiras no seu burrinho e ia fiscalizar se aquela escravalhada toda e seus senhores estavam colocando ouro nas igrejas ou se estavam desviando pros próprios surrões. Os senhores roubavam descaradamente a Deus e era difícil combatê-los –  pouco podia alegar um santo contra um senhor de minas. Já os escravos, desviavam farelos d’ouro pra comprar alforria. São Tomé já estava esperto,  à saída da mina, enquanto cada escravo batia cartão, xeretava o cu de um por um pra ver se não tinha algum ourinho escondido. Depois, o velho Tomé, barbudo e cansado, fiscal de Deus na terra, mandava abrir as portas das igrejas para constatar se todo o ouro estava mesmo sendo posto naqueles altares e pilares. Daí veio o mote: “hay que ver pra crer”, que depois alguns modificaram ao longo do tempo dizendo: “hay que ver, pero sin perder la ternura jamás”. Mas isto, pelo que estudei, nada tem a ver com Tomé.

Reconto a história, pois como devoto assíduo e pontual do Santo nascido entre La Mancha y La Higuera,  também quis fiscalizar os ouros das múltiplas igrejas ouropreteanas, queria ver se são mesmo pretos ou se já ficaram amarelados com o tempo. Então li num guia: “A Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar é considerada a segunda mais rica em ouro do país, ficando atrás apenas da igreja de São Francisco em Salvador.” Então, a Pilar é que fui. Só que, quando cheguei, as portas estavam fechadas e por esta época já não havia senhor, tampouco escravo para me abri-la (creio que já não há os padres também). Fiquei de fora, como o cachorro que não entrou na igreja, e não consegui cumprir a trilha de minha devoção. Como poderei garantir, então, aos meus leitores que é válida a visita, que a igreja é realmente a segunda mais recheada de ouro de todo o Brasil? Sendo assim, não digo, não creio, pois “hay que ver pra crer.”

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2010

Profunda decepção e melancolia ao encontrar a Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar fechada