Pretos Mina

Preto mina é pras lavras, pras faisqueiras. A fama dos minas na faiscação, o faro para o ouro. Tinham parte com o demo, feiticeiros. De longe os olhos de um mina eram capazes de catar num cascalho um grão de ouro da melhor qualidade.”
(Autran Dourado, Os Sinos da Agonia)

A primeira sensação que tive foi medo. Abordou-nos um guia turístico como se lesse pensamentos: querem conhecer uma mina? Queremos – disse minha esposa. Eu me sobressaltei, não sabia se podia confiar no homem. Começou a nos conduzir por subidas daquelas que só se encontram nas Minas Gerais. Depois de muitos passos, temi por nós. Começamos a entrar em algo parecido com uma favela. Pensei: nos arrastou feito dois gringos ingênuos e agora nos vai assaltar e matar, nosso corpo ficará eternamente perdido, ironicamente sem história diante de uma Cidade Histórica. Mas não. Não morríamos e parecia que não iríamos morrer. Chegamos a um casebre só de tijolos, um barraco. Dentro dele havia uma mina: Jeje. Dizem que, próximo ao Centro de Ouro Preto, é uma das melhores Minas pra se visitar por seu bom estado, iluminação e por quase não ter infiltrações e umidade. Um curioso por profissão foi nosso guia. Não apenas conhecia a mina, como conhecia Ouro Preto, as rochas, os morcegos, os fantasmas dos escravos, as almas penadas dos senhores, a assombração de Tiradentes e onde morara cada pepita de ouro que havia sido retirada dali e levada para Portugal. Diferente dos escravos, nos protegemos com capacetes. Um senhor, nos primeiros segundos, claustrofóbico, pediu para retornar, desistiu de visitar a mina. É o medo. Medo porque as rochas cantam cantos fúnebres que aprenderam com os escravos. Os caminhos se estreitam, até que chegamos a uma clareira. Por ali passaram escravos cujo destino era apenas lavrar e morrer. Morriam: centenas, milhares. A vida era curta quando se trabalhava dia e noite deitados à escuridão, lavrando. Uns conseguiam o êxito de algum ouro escondido no cabelo, sob a língua, ocultado no cu. Para os brancos, os pretos mina eram os diabólicos, pois não tinham o que perder, a vida já estava perdida. Foram estes pretos do diabo que cobriram de ouro as igrejas de Vila Velha, de Lisboa e, quiçá, de Roma. Foram estes pretos que não foram pra história.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

A entrada da mina é por uma casa, mais parece um barraco

À entra da Mina

Nôla às portas da Mina

No melhor estilo "tchui tchun clais"

De onde era extraído o ouro

Dentro da mina

Corredores cada vez mais estreitos

A mina se torna em certos trechos, bem baixa


Interior da Mina Jeje

2 Respostas para “Pretos Mina

  1. O texto começa como um documentário descomprometido, daí ele retrara uma realidade histórica e, mesmo assim, é capaz de produzir frases como: “Medo porque as rochas cantam cantos fúnebres que aprenderam com os escravos.”

    ainda preciso dizer alguma coisa?

  2. Ótima postagem! Essa mina eu não conheço. Ainda bem que vocês a descobriram e visitaram por mim. É estreita demais! Dá claustrofobia em tatu! Visitei uma grandona, com um lago contaminado por arsênico, onde os turistas estrangeiros insistiam em nadar.
    Beijos pra vocês, dupla de heróis!

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