A história de Tomé, do ouro, minha e de uma igreja

Já dizia o Tomé, o São (que de saudável não tinha nada) ao apregoar em seu portunhol “Hay que ver pra crer.” (digo que o santo fala portunhol, pois só consigo imaginá-lo assim).  Não há como ser são, nem santo, alguém que sustenta esta afirmação, mas entendo a origem da expressão que deve ter nascido lá em Ouro Preto. São Tomé descia as ladeiras no seu burrinho e ia fiscalizar se aquela escravalhada toda e seus senhores estavam colocando ouro nas igrejas ou se estavam desviando pros próprios surrões. Os senhores roubavam descaradamente a Deus e era difícil combatê-los –  pouco podia alegar um santo contra um senhor de minas. Já os escravos, desviavam farelos d’ouro pra comprar alforria. São Tomé já estava esperto,  à saída da mina, enquanto cada escravo batia cartão, xeretava o cu de um por um pra ver se não tinha algum ourinho escondido. Depois, o velho Tomé, barbudo e cansado, fiscal de Deus na terra, mandava abrir as portas das igrejas para constatar se todo o ouro estava mesmo sendo posto naqueles altares e pilares. Daí veio o mote: “hay que ver pra crer”, que depois alguns modificaram ao longo do tempo dizendo: “hay que ver, pero sin perder la ternura jamás”. Mas isto, pelo que estudei, nada tem a ver com Tomé.

Reconto a história, pois como devoto assíduo e pontual do Santo nascido entre La Mancha y La Higuera,  também quis fiscalizar os ouros das múltiplas igrejas ouropreteanas, queria ver se são mesmo pretos ou se já ficaram amarelados com o tempo. Então li num guia: “A Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar é considerada a segunda mais rica em ouro do país, ficando atrás apenas da igreja de São Francisco em Salvador.” Então, a Pilar é que fui. Só que, quando cheguei, as portas estavam fechadas e por esta época já não havia senhor, tampouco escravo para me abri-la (creio que já não há os padres também). Fiquei de fora, como o cachorro que não entrou na igreja, e não consegui cumprir a trilha de minha devoção. Como poderei garantir, então, aos meus leitores que é válida a visita, que a igreja é realmente a segunda mais recheada de ouro de todo o Brasil? Sendo assim, não digo, não creio, pois “hay que ver pra crer.”

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de outubro de 2010

Profunda decepção e melancolia ao encontrar a Igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar fechada

2 Respostas para “A história de Tomé, do ouro, minha e de uma igreja

  1. Li em um livro de história que os padfres desviavam o ouro de Minas que iria para Portugal, pergunto se você sabe quel o livro de História que trata do assunto.

    P.S. Gostei de ler o artigo.
    Att. joacilbraz@gmail.com

  2. Apesar de Cursar Matemática, sou muito fã da História do Brasil, um pouco é genética mesmo, pois meu pai é professor no curso de História na UEG. Já estive em Ouro-Preto umas 5 vezes, e tive o imenso prazer de conhecer o interior da Igreja Nossa Senhora do Pilar, é realmente lindaaa’ diria mais que perfeita, pena que não pode ser fotografado para a conservação do ouro ali contido.

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