Arquivo do mês: dezembro 2010

A obsessão pelas despedidas

É porque temos a consciência da morte que todo segundo é uma despedida. Cada fragmento de vida não voltará mais, a não ser pela memória que o reconstrói. Somos corriqueiros a nos despedir dos segundos que passam e às vezes dobramos as despedidas, pois além do tempo, nos despedimos do lugar. Assim como a cada segundo uma despedida, a cada passo outra. E somos educados, desde pequenos, a dar tchau. E dar tchau é uma das primeiras ações que aprendemos e que se torna nosso vício infantil. Toda rodoviária tem o espírito do adeus, assim como todo aeroporto, toda estação de trem… Quando me despedi de São João Del Rei, dei o primeiro adeus diante dos trilhos da Maria Fumaça. Ela, Maria Fumaça, nos deixa ainda mais tristes às partidas, pois aparenta ser uma senhora muito experiente em lágrimas de distância e, por mais que partamos ali pra Tiradentes, vizinha, evocamos o tchau. Por onde passa o trem de ferro com seu cachimbo de carvão, as pessoas se inclinam ao adeus. Os vaqueiros se tornam sensíveis e param pra dar adeus à Maria Fumaça. Os meninos à beira do rio, despedem-se das brincadeiras, pra dar adeus à Maria Fumaça. As moças de saias rodadas, caminhantes alegres, fazem uma pausa em sua marcha pra dar adeus à Maria Fumaça. E dentro dela, ao lado dos corredores antigos e sobre seus bancos de mogno, vai um irresistível menino, tão jovem na vida, mas tão obcecado pelo adeus.

Antunes
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2010


Vídeo: chegada da Maria Fumaça em São João Del Rei


Vídeo: Vista da Maria Fumaça de São João Del Rei para Tiradentes

Ao lado da Maria Fumaça em São João Del Rei

A Maria Fumaça de São João Del Rei

Fila pra entrar na Maria Fumaça

Dentro da Maria Fumaça

Nô à janela da Maria Fumaça

O caminho da Maria Fumaça

Caminhos de São João Del Rei

É agradável caminhar pelas ruas de São João Del Rei. Teria caminhado mais tempo e mais vagarosamente, se eu tivesse tido mais tempo e se a vida também caminhasse mais vagarosamente.

A cidade se dividiu em duas em minha memória: de um lado, a metade que me hospedou; do outro, a metade que visitava pelas manhãs e tardes. São umas pontezinhas muito simpáticas que unem um lado ao outro.  É possível andar um dia inteiro por São João Del Rei sem se cansar. Deve-se aprender a dar um passo mineiro, tranqüilo e sábio, pausando nas esquinas para tomar uma água, ou uma cachacinha, comer um pão de queijo, comprar um queijão mineiro pra família que espera no Rio de Janeiro. O bom de São João Del Rei é ir parando em cada igreja que se revela pelo caminho, passar pela fonte, ir até a Estação de Trem e descansar à porta do Solar dos Neves. E depois ir embora – pra Tiradentes, São Paulo, Rio de Janeiro, o que lhe pareça mais natural – pois se até os Neves a abandonaram, por mais que eu goste, por que eu ficaria?

Antunes
Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 2010

As pontes de São João Del Rei unem minhas duas metades da cidade

As ruas históricas de São João Del Rei

Entre os sobrados, pode-se topar com igrejas

Todas as ruas levam a um bocado de história

O Solar dos Neves - os Neves são uma espécie de Magalhães ou Sarneys mineiros

Nestas ruazinhas pode-se comer à vontade por cerca de 8 Reais

A cruz está em todos os lugares del rei

Igreja e quartel no lado mais recente de São João Del Rei

A fonte de São João

E lugar para se comprar queijo pra casa

O pobre diabo

Um pobre diabo
Na porta da igreja
Ressona maldades
E sete pecados
(CERES, Carla. Heresia)

Não sei financeiramente, se era pobre ou rico. Não era isso que o definia pobre, sequer diabo. Quando o vi, sua pobreza estava à boca. Eu até preferiria dizer, soaria melhor, “quando o vi, seus olhos diziam que era pobre.” mas que fazer se sua pobreza morava sobre a língua? Era pobre por não conhecer mais que meia dúzia de monossílabos, mesmo assim de dicionaridade duvidosa. Quanto a diabo, era pois, também, por causa da boca. Boca esta que vivia a lançar desconexas palavras contra deus e contra si.

Surgia, às horas mortas, pelos bares em frente à Igreja de São Francisco, e mendigava restos de cerveja quente e petisco frios aos turistas de São João Del Rei. Agradecia retirando o chapéu e curvando-se. Sussurrava palavras incompreensíveis, mas que aparentavam ser de gratidão. Colecionava, no bolso, incontáveis guimbas de cigarro achadas pelo chão e fumava-as aos poucos com a vagarosidade que a vida não costuma ter.

Tive-o diante de mim por duas vezes. A primeira foi pela noite, enquanto eu bebia uma cerveja qualquer apenas pelo ato de bebê-la. Senti-lhe o mesmo nojo que se sente por um pombo adoecido. Berrava palavras esparsas e sua língua preta via-se de longe. Babava o queixo e andou até bem diante de mim. Abaixo-se de cara no meu prato e lambeu as migalhas duma bata-frita. Empurrei-o ao mesmo tempo em que chamei o garçom, paguei a conta e sumi no meio da noite, como fosse eu o pobre diabo. A segunda vez que o vi, foi pela manhã. Eu estava sentado aos degraus da Igreja de São Francisco, o pobre diabo corria dentre umas crianças que lhe tacavam terra e lhe berravam nomes feios. Ele brincava. O vento batia em seu cabelo e tentava amaciá-lo, ao mesmo tempo em que as flores dos jardins ressignificavam seu cheiro. A cena era única, era outro aquele homem quando comparado à primeira vez que o vi. De repente, voando de leve, surgiu uma borboleta azul. O maltrapilho estendeu-lhe o dedo. Pensei no mundo que se reconfigurou diante de mim, na beleza dos dias, no sol, na natureza. Neste exato momento, de supetão, o pobre diabo levou a borboleta à boca, engoliu-a e xingou todos os palavrões de uma só sílaba que podem e poderão existir em qualquer dicionário da face da Terra.

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de dezembro de 2010

Igreja de São Francisco - São João Del Rei à noite.

Em um dos bares diante da Igreja de São Francisco

Igreja de São Francisco - São João Del Rei de dia

Pouso

Prefiro a palavra do título à palavra pousada. Gosto de ficar naqueles lugares que são aconchegantes já pelo nome: “pouso familiar”.  Me lembra os pássaros. Pouso é o momento de descanso da ave, é quando ela aceita que o vôo não é soberano. É quando a ave se humaniza. Nós humanos, que invejamos eternamente os pássaros, descobrimos a ciência de voar (inda que imperfeita) e também inventamos que precisamos do pouso. O pouso aproxima a ave do humano e o humano da ave.  E não será o descanso que aproximará um dia todas as criaturas? Como o cansaço que aproximou a pousada em que fiquei de um pouso. Pousei em São João Del Rei antes mesmo de conhecê-la.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de dezembro

Recanto de Minas - A pousada onde pousamos

A sala da pousada

O quarto da pousada

A difícil travessia de Congonhas a São João Del Rei

Depois de visitar a Romaria e o Santuário dos Matosinhos, a pergunta era: como sair dali? Congonhas não é dinâmica como as outras cidades históricas. Sorte que contamos com a colaboração dum sujeito extremamente solicito:

– Senhor, por favor, como a gente pega um taxi aqui?

– Eu ligo pra vocês.

Foi assim, pedimos a informação e ganhamos o taxi.

Em 15 minutos o veículo estava nos levando. O motorista era um senhor de cabelos grisalhos e ar sério. Deixou-nos por 15 Reais na rodoviária e, ofereceu, por mais 150, levar-nos até São João Del Rei.

– Só mais 150 deixo vocês na porta da pousada.

– Tá muito caro pra gente, estamos fazendo uma viagem de baixo orçamento.

– Vou ficar aqui esperando caso mudem de idéia.

Ao chegarmos ao guichê fomos informados que todos os ônibus estavam lotados. A tal de Viação Sandra enchia os ônibus em outras cidades e chegava a Congonhas sem uma vaguinha sequer. A atendente matou o pouco de esperança que tínhamos: “ó, a chance de vir com lugar é quase zero, tá chegando tudo lotado.”

Para que não nos sentíssemos sós, Deus enviou uma companhia:

– Cês tão esperando o ônibus pra São João?

– Isso.

– Não tem lugar, né?

– Tem não.

Nisso, surge nosso taxista:

– Vocês ainda estão aí? Por que não dividem o taxi com esta senhora. Levo vocês até São João Del Rei.

Ficamos animados, mas a senhora foi irredutível:

– Não, obrigado.

Ficamos às moscas esperando o ônibus e nada dele, nem cheio, nem vazio.

Dez minutos depois, volta o taxista.

– Pois ainda estão aí?

– É, né?

– Eu faço por vocês por 130. O que acham?

A senhora uma vez mais se mostrou irredutível.

Passados mais 10 minutos, volta o taxista e fala aos nossos ouvidos:

– Olha, vou fazer por 115 pra vocês, só pra não levar esta senhora. Que mulher mais irredutível!

No sufoco, minha esposa e eu aceitamos a proposta e partimos de taxi até São João Del Rei, graças à incompetência da Viação Sandra, à irredutibilidade da senhora e à insistência do taxista.

O piloto, aquele senhor grisalho e sério, foi esbravejando contra a senhora:

– Que mulher maldita, não queria andar no meu taxi. Bicho ruim de jogo, bla, bla, bla.

De repente, no meio da conversa ele nos faz a primeira revelação:

– Vocês sabiam que eu sou adventista?

Pensei cá comigo: “e daí?” No segundo seguinte ele nos deu um cartão.

– Leram aí, sou adventista: ADVOGADO e DENTISTA.  Hahaha.

Seguimos a viagem ouvindo sobre as suas três profissões: advogado, dentista e taxista. De repente, ele resolve fazer a segunda e bombástica revelação:

– Se eu contar mais uma coisa pra vocês, juram que não contam pra ninguém?

– Claro, fique à vontade.

– Sou descendente direto de Luís XVI.

Fez-se silêncio, leitores. E fomos assim, até São João Del Rei, em reverência à vossa majestade.

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 2010

A horrível e imprestável Viação Sandra (repare na mão de insatisfação que captei no canto inferior direito da foto)