O pobre diabo

Um pobre diabo
Na porta da igreja
Ressona maldades
E sete pecados
(CERES, Carla. Heresia)

Não sei financeiramente, se era pobre ou rico. Não era isso que o definia pobre, sequer diabo. Quando o vi, sua pobreza estava à boca. Eu até preferiria dizer, soaria melhor, “quando o vi, seus olhos diziam que era pobre.” mas que fazer se sua pobreza morava sobre a língua? Era pobre por não conhecer mais que meia dúzia de monossílabos, mesmo assim de dicionaridade duvidosa. Quanto a diabo, era pois, também, por causa da boca. Boca esta que vivia a lançar desconexas palavras contra deus e contra si.

Surgia, às horas mortas, pelos bares em frente à Igreja de São Francisco, e mendigava restos de cerveja quente e petisco frios aos turistas de São João Del Rei. Agradecia retirando o chapéu e curvando-se. Sussurrava palavras incompreensíveis, mas que aparentavam ser de gratidão. Colecionava, no bolso, incontáveis guimbas de cigarro achadas pelo chão e fumava-as aos poucos com a vagarosidade que a vida não costuma ter.

Tive-o diante de mim por duas vezes. A primeira foi pela noite, enquanto eu bebia uma cerveja qualquer apenas pelo ato de bebê-la. Senti-lhe o mesmo nojo que se sente por um pombo adoecido. Berrava palavras esparsas e sua língua preta via-se de longe. Babava o queixo e andou até bem diante de mim. Abaixo-se de cara no meu prato e lambeu as migalhas duma bata-frita. Empurrei-o ao mesmo tempo em que chamei o garçom, paguei a conta e sumi no meio da noite, como fosse eu o pobre diabo. A segunda vez que o vi, foi pela manhã. Eu estava sentado aos degraus da Igreja de São Francisco, o pobre diabo corria dentre umas crianças que lhe tacavam terra e lhe berravam nomes feios. Ele brincava. O vento batia em seu cabelo e tentava amaciá-lo, ao mesmo tempo em que as flores dos jardins ressignificavam seu cheiro. A cena era única, era outro aquele homem quando comparado à primeira vez que o vi. De repente, voando de leve, surgiu uma borboleta azul. O maltrapilho estendeu-lhe o dedo. Pensei no mundo que se reconfigurou diante de mim, na beleza dos dias, no sol, na natureza. Neste exato momento, de supetão, o pobre diabo levou a borboleta à boca, engoliu-a e xingou todos os palavrões de uma só sílaba que podem e poderão existir em qualquer dicionário da face da Terra.

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de dezembro de 2010

Igreja de São Francisco - São João Del Rei à noite.

Em um dos bares diante da Igreja de São Francisco

Igreja de São Francisco - São João Del Rei de dia

Uma resposta para “O pobre diabo

  1. Gente, quanta honra! Falando sério, achei muito legal meus versos abrirem esse texto pra lá de bom. Nada como ter amigos generosos que escrevem bem à beça! Obrigada mesmo!

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