Arquivo do mês: janeiro 2011

Barranquilla, a cidade mais quente do meu mundo

Quando me falaram que meu destino seria Barranquilla, gelei. Sabia que iria à Colômbia, mas esperava Bogotá, ah, que vontade tenho de conhecer Bogotá, sua catedral, as obras de Botero… Esperava até a violenta (ao menos em nosso imaginário) Medellín, suas facções criminosas, seu perigo em cada esquina… mas o destino me reservou Barranquilla. E me questionei, mas que raios terá Barranquilla? E quando anunciava minha viagem para alguém com ar de autoescárnio, o ouvinte, no lugar de debochar-me, dizia: “Ah, você vai pra terra da Shakira!” E assim descobri que Bogotá tem sua catedral, Medellín seus fuzis e Barranquilla tem a Shakira! Ou melhor, tinha, pois quando cheguei à cidade, diziam que ela mal pisava mais na terra natal – fofocas.

Passei horas trancafiado no aeroporto de Bogotá, depois fui num aviãozinho de brinquedo para Barranquilla e quando cheguei à cidade, a noite já estendia seu lençol negro. Eu não podia esperar mais, queria conhecer a cidade que vai além de ser maternidade de cantora pop, queria conhecer seus becos, quem sabe ser assaltado em alguma esquina, comer alguma coisa, olhar os passantes, ser picado por bichos regionais. Quando abri a porta do quarto que me separava do mundo, senti sensação idêntica à que senti quando desembarquei do avião: um bafo dos infernos! Barranquilla é quente como a terra do cramulhão. Barranquilla é úmida como uma chaleira fervente. Dois passos pela cidade e percebe-se que o corpo humano é realmente feito de setenta por cento de água, senão mais. Numa breve caminhada noturna, percebi que o que está no céu é o Sol travestido de Lua. Barranquilla é mais que a cidade da Shakira, é a cidade mais quente do meu mundo.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

suor

Nós por outra voz

Este texto surgiu de uma iniciativa de Jônatas Amaral e Priscilla Alcioly que sugeriram a alguns blogs de amigos que postassem um texto sobre a mesma temática (Dublagem) no mesmo dia (26/01/2011). Os outros blogs, além deste, são: Tá comigo, tá com deus; Casa dos Devaneios; Por dois fios; Oqmedernatelha.

Ao entrar num quarto de hotel é habitual jogar-me de sapatos à cama, com a mão esquerda caçar o controle do ar condicionado, ligá-lo, e com a mão direita dar vida à tevê. Passo uma infinidade de canais por segundo e me diverte muito mais o ato de passá-los do que de assisti-los. Gosto quando os sotaques se sobrepõem, quando as cores mudam bruscamente, quando as histórias ficam inconclusas. Nunca conheço os autores dos crimes e quando os conheço não sei os crimes que cometeram.

Era Argentina, era Bolívia, era Colômbia… as histórias se repetiram. Eu estava deitado, passava os canais, os canais passavam por mim, passavam pela tevê, voavam sem tempo de dizer o que queriam dizer, as palavras eram cortadas e a sílaba dita por um canal juntava-se à sílaba d’outro. De repente, um estranhamento. Voltei o canal. Parei perplexo. Um rosto conhecido havia sido possuído por outra voz. Tony Ramos, Gloria Pires, Antônio Fagundes como se estivessem possuídos por espíritos caribenhos, andinos, gauchos. Eram artistas brasileiros, mas a alma havia mudado.

Na nossa condição de importar filmes e seriados, estamos tão acostumados a dar voz, a dublar, que esquecemos que também nos vendemos e recebemos vozes. São as novelas um dos nossos grandes produtos culturais de exportação. Roque Santeiro, por exemplo, mudou Cuba, mudou a vida de milhares de Angolanos e não há exagero nisso. Somos noveleiros, o mundo sabe disso e vem sentar ao nosso lado para desvendar quem matou Odete Roitman.

E se muitas vezes criticamos as dublagens que fazemos, imagine o quão estupefatos ficaremos quando nos depararmos com Jackson Antunes com voz de zorro, Patrícia França transformada em professora Helena, Vera Fisher soando como a Bruxa do 71, Malu Mader com voz de Thalía e Juliana Paes dublada por uma cigana indomável de sonhos latinos… Ah, sensualíssimo espanhol que torna impossível vermos nossas novelas. Ah, mexicaníssimo espanhol que nos faz rir de nossas próprias novelas. Ah, espanholíssimo espanhol que faz com que deixemos de ser brasileiros.

Restam, então, duas opções: ou não suportamos ser bonecos de ventríloquos mexicanos, colombianos, argentinos e desligamos a tevê; ou aceitamos que nós podemos ter outra voz, aceitamos que o espanhol é tão brasileiro e que nossos atores são tão latino-americanos quanto qualquer andino, quanto qualquer gaucho … aceitamos que, ao fim, a voz é sempre a mesma, a voz da telenovela que amada ou odiada, é aquela que multiplica modas e idéias pelo nosso cotidiano e, saibam, então, a partir de agora que não só pelo cotidiano brasileiro, mas pelo cotidiano de uma maiúscula América.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

Abaixo links do youtube de algumas novelas brasileiras que foram dubladas para o espanhol:

La esclava Isaura (Escrava Isaura)

India, una historia de amor (Caminho das Índias)

El Clon (O Clone)

Celebridad (Celebridade)


Livros: pontos turísticos que trouxe comigo na mochila

Florentino Ariza escrevia qualquer coisa com tanta paixão que até os documentos oficiais pareciam de amor.”
(Gabriel García Marquez, Amor nos tempos do Cólera)

Ainda que não sirva de nada para os colombianos, afirmo: tenho orgulho da Colômbia. Um orgulho como sinto da Argentina. São dois países – como há alguns outros – que se pode dizer: vou à terra de grande literatura e, ao menos, lembramos de García Marquez (no caso da Colômbia) e de Jorge Luís Borges (no caso da Argentina). Lamento pelo Brasil, um lamento sem qualquer importância, pois temos grandes autores, mas ninguém diz que vem à terra do Machado de Assis. Acho esse tipo de lamento tão lamentável e piegas, mas ainda assim o faço, faço sem qualquer intelectualidade, faço por tristeza apenas, pois pertenço a uma minoria derrotada que prefere os vilões de papel aos heróis da tevê e não me sinto melhor, não me sinto pior, me sinto apenas só, como alguém que gosta de jiló, de falar holandês, de andar de monociclo.

Imaginei que chegava a um país, como contam as lendas, que faz filas imensas às portas das livrarias para comprar lançamentos do García Marquez, imaginei que chegava a um país em que seu ídolo maior não era um jogador de futebol, mas um escritor, imaginei, então, que movido pelo exemplo, milhões de García Marquez nasciam todos os dias pelas ruas da Colômbia. Uma livraria, na cidade de Barranquilla, foi meu principal ponto turístico. Ainda no Brasil, fiz uma lista com nomes de autores que achei na internet e cheguei determinado a me encontrar com eles, ou melhor, com seus livros:

– Santiago Gamboa.
– Hector Abad Faciolince.
– Ricardo Hernandez Contreras.
– Julio Cesar Londono.
– Jorge Franco.

Como dinheiro não é a minha maior qualidade, tive que cortar alguns nomes. Só podia trazer dois, acabei trazendo três. Deixei pra trás, ou melhor, pra frente, para o futuro, o Ricardo Hernandez Contreras e o Julio Cesar Londono. Garanti o famosíssimo Rosario Tijeras de Jorge Franco. Depois peguei o intitulado Los Impostores de Santiago Gamboa. Por fim, quando já não mais podia, não resisti ao nome do livro El olvido que seremos de Hector Abad Facionlince. Li todos, seguidamente, assim que voltei ao Brasil e posso dizer com total convicção que foram minhas melhores leituras do ano de 2010.

¿Si te has fijado que muerte rima con surte?

Rosario Tijeras é extremamente violento, erótico, uma espécie de Kill Bill colombiana que não se arma com espadas, mas com pistolas e metralhadoras e não quer se vingar de uma pessoa, mas do mundo e de si mesma. Rosario é a metáfora da droga: excitante, deliciosa, mas extremamente nociva. Um livro que se tornou um marco da literatura atual colombiana e ganhou, inclusive, versões em filme e novela. Jorge Franco é possivelmente o autor mais popular do país depois do velho Marquez.

Todo lo que está escrito es irreal, aunque haya existido.

Los impostores foi o livro mais engraçado que li em 2010, graças à inteligência de Santiago Gamboa. Com uma forma leve, rápida e cativante, possibilita que o leitor atravesse suas páginas sem sentir. Narra aventuras de personagens que são farsantes diante da vida, impostores por não serem nada do que crêem ser e que acabam juntos graças à uma viagem à China. O livro envolve mistério, aventura e vai desde cretinos comentários até a mais alta literatura (se é que existe isso).

Un día tuve que escoger entre Dios y mi papá, y escogí a mi papá.

El olvido que seremos é um livro biográfico-ficcional de Hector Abad Facionlince que me pescou logo pelo nome, ao meu ver, intraduzível (O ESQUECIMENTO QUE SEREMOS – arrisco esta tradução, embora não goste). Se Los Impostores foi o livro mais engraçado que li em 2010, este outro foi um dos mais tristes que já li na minha vida. Com um punhado de frases contundentes e outro punhado de frases infantis, Abad faz uma obra de arte primorosa que brilha e prende até passar a metade do livro. Depois disso, nos acostumamos ao pranto e voltamos a ser indiferentes à dor. O livro poderia ter menos páginas, mas vale arrancar as últimas para secar as lágrimas das primeiras.

Aos livros, os fiz amigos, travesseiro, bíblia, prato de comida. Estes livros fizeram que meus brevíssimos dias na Colômbia durassem meses, durassem o que durarei eu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2010.

Todas as citações do corpo do texto são do livro que está logo abaixo delas.

A livraria em que comprei meus livros

Os livros que comprei: Rosario Tijeras, El olvido que seremos, Los impostores

Brasil Colômbia

Penso que um velho marinheiro, que tenha viajado por todo o mundo, pode saber em que mar se encontra pela maneira do barco balançar.”
(Gabriel García Marquez em Relato de um náufrago)

Minha ansiedade para chegar à Colômbia era muito alta. Não pela Colômbia em si, mas pela Colômbia que havia e há em minha imaginação, pela Macondo que sonhei encontrar, inda que soubesse que para encontrá-la não precisava ir à Colômbia. Viajei por horas imensas, mas não tão imensas como as que viajei pelas páginas de Cem Anos de Solidão, Relato de um Naufrago, Amor nos tempos do Cólera, Cândida Erendira, o General em seu labirinto… enquanto eu voava, as frases, soltas, voavam por mim:

O mundo avança. Sim, respondi, avança, mas dando voltas ao redor do sol.
As pessoas que a gente ama deveriam morrer com todas as suas coisas.

Os filhos herdam as loucuras dos pais.

Antes de pisar em solo, eu não sabia qual das Colômbias era a mais real. Depois que pisei em solo, tampouco descobri. Sou um ignorante que não sabe onde começa e termina a Colômbia do García Marquez, onde começa e termina a Colômbia das FARC, onde começa e termina a Colômbia da Shakira. Sou tão ignorante que não sei a diferença entre a Colômbia e o Brasil. Eu achava tudo tão igual, tão igual ao ponto de me confundir e, por mais que o avião balançasse em ritmos diferentes, eu não sabia, enquanto voava, em que céu estava. Nas minhas primeiras horas, tive a certeza que brasileiros e colombianos somos irmãos, tive certeza que nossos países são idênticos, pelo menos enquanto se está no céu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de janeiro de 2011

As citações no meio do texto são de García Marquez nos livros: Memórias de Minhas Putas Tristes, Amor nos tempos do Cólera e Cem anos de solidão.



V.I.P.

Qué ambiente más cómodo. Sillones de cuero. Saloncitos cerrados. Zonas para dormir, para fumadores, para ver televisión. Hay una barra en la que se pueden pedir licores, café y refrescos. Neveras con agua mineral, jugos y sádwiches. Un escaparate contiene periódicos de Europa y Estados Unidos, lo mismo que revistas como Newsweek, Harper’s Bazaar, Bild, Caray, cómo se cuidan los viajeros. La mayoría son hombres de negocios, Señores muy serios de vestido y corbata.” (Santiago Gamboa em Los Impostores)

Não há nada tão ruim que não possa melhorar, assim reinvento o ditado popular e assim tive minha concepção sobre o vôo um tanto quanto reinventada também. Foi na viagem à Colômbia aquela em que enfrentei sérios problemas para embarcar e fiz três tentativas até conseguir (ver o vídeo da postagem anterior):

1ª Compraram uma passagem pra mim via Panamá, não pude embarcar porque o Panamá precisa de passaporte.

2ª Compraram uma passagem pra mim via Venezuela, não pude embarcar porque Venezuela à época, também precisava de passaporte.

3ª Finalmente embarquei, fui pra São Paulo, passei à noite no hotel do aeroporto e segui para Bogotá e, depois, Barranquilla (meu destino).

A sorte foi, que no desespero e na pressa, só conseguiram vôos na classe VIP da Avianca. Ou seja, foi difícil ir, mas quando fui, fui como um magnata.

Aos que nunca tiveram o privilégio de entrar na sala VIP (eu estou há séculos juntando milhas da GOL pra tentar acessar) – relato:

É uma sala com sofás confortáveis, bebida liberada, comida liberada, tudo que é tipo de jornais e revistas, internet, banheiros limpos e cheirosos. Os VIPS jamais enfrentam filas quaisquer. Ou seja, dá pra entender como executivos conseguem viajar tanto de avião e não ficam entediados.

Mas o maior privilégio vem depois: entrar no avião e ter 3 ou 4 janelas só para você, saber que seu banco pode deitar, rodopiar, balançar… Logo que entrei, estava deitadão, esparramado na cadeira-cama, veio a aeromoça com uma toalhinha quente e úmida para higienizar as minhas mãos. E tem entrada, almoço, sobremesa, bebidas… Ganhei presentinhos! E olha que nunca uma empresa de avião tinha me dado nada além de desespero!

Mas o sonho acabou… se a ida foi um privilégio, na volta mal consegui reclinar o banco:  minhas pernas ficaram dormentes, a coluna doía. E lembrei que não havia nada tão bom que não pudesse piorar. Findava a vida de magnata. Acabava o carnaval aéreo em que eu fantasiava ser alguém.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2011

Sala VIP da Avianca em São Paulo

Sala VIP da AVIANCA na Colômbia

SALA VIP: queijos, cerveja colombiana e leitura...

No avião: televisão com vários lançamentos de filme, inclusive colombianos

Poltronas confortáveis, muito espaço, como deveria ser sempre

Os muito botões da poltrona VIP da AVIANCA

Muitas janelas só pra mim

Crônica falada 2: Medo de avião

Quiçá, leitor, o medo de avião seja um dos temas mais recorrentes neste blog. Entonces, antes de começar a falar da Colômbia, viagem em que mais fiquei dentro de um monstro alado, falo de tal medo, revelo minha relação obtusa com o filho de Santos Dumont e critico nosso pior complexo: o Complexo de Ícaro!

Para ver os todas Crônicas Faladas, clique aqui

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 2011

Destak

Uma iniciativa muito legal do jornal de distribuição gratuita Destak é divulgar blogs de seus leitores. Hoje, dia 19 de janeiro de 2011, foi a vez do meu. Agradeço ao pessoal do jornal e dou às boas-vindas a você que chega ao blog através dele.

A nota que saiu na página 15 do jornal, edição 592 do jornal Destak.

Se você quiser ler toda a edição 592 do jornal, publicada em 19 de janeiro de 2011, clique aqui.
Se você quer conhecer o jornal, visite: http://www.destakjornal.com.br