A linda ruína de Itabira

A lua: seca, cinza, morta, esburacada. Mas quando está no céu, os casais a olham e lhe dizem linda. Quero os olhos dos casais, estes de olhar a lua, pra qu’eu possa olhar o câncer. Quero os olhos dos católicos que santificam as chagas de Cristo e tocam-na e beijam-na. Quero os olhos do primeiro artista que gritou “linda” à Torre Eiffel, monte de ferro exposto. Quero os olhos de um deus que achou bonito ter hienas entre sua criação. Itabira é seca, cinza, morta, esburacada e linda! Linda com a beleza da supremacia do homem sobre a natureza. Linda com a vitória do ferro sobre as árvores. Linda porque a criatura de deus destruiu as criações de deus. Linda como o homem que é feito de ferro até a alma. Itabira é linda, embora feia pra caralho e justamente por isso. Se nos regozijamos com as ruínas incas, se sabemos gozar com os restos egípcios, se ejaculamos sobre os destroços do império romano, por que não podemos ter prazer nas nossas próprias ruínas?

Antunes Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2011

Uma resposta para “A linda ruína de Itabira

  1. Que pena, Antunes! A única coisa linda, sobre a cidadezinha, é seu texto, mas é tão lindo que basta. Parabéns!

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