La muerte en el hotel El Prado

Não lhe lamento a morte.
Esse indivíduo não era digno de viver!
(Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente)

A manhã saiu com um grito. Uma senhora loira, branca e gorda esperneava no saguão do hotel. Com o pranto, saltavam palavras de seu espanhol com certo sotaque russo.

– Mataron mi cariño!

– Calma, dona Ana. Tome um copo d’água. – suplicava um pálido botones.

O corpo ainda estava deitado naquele chão que mais parecia um infinito tabuleiro de xadrez. Não havia sangue, estava seco. Os olhos pareciam vivos, olhos de quem pede socorro. A cena causava horror aos passantes, algumas damas ilustres viravam o rosto, outras tapavam os olhos com as mãos, os senhores de casaca se aproximavam para ver a cena grotesca, alguns chicos tiravam fotos com seus celulares.

O escândalo era tão grande que alguns hóspedes acordavam com os gritos e, assustados, iam ver o que estava acontecendo. O cadáver parecia uma espécie de Gioconda a acompanhar com olhares cada movimento do hotel.

– ¿Dónde estar la policía?, ¿Dónde estar la policía? – gritava a senhora desesperada no seu discordante espanhol.

O fato é que ninguém parecia dar muita importância à tristeza da moça. Pelo contrário, alguns até pareciam felizes que tivesse morrido.

– Mataron a mi hijo! Mataron.

Um arruaceiro, barulhento, levado, maleducado, mimado, estressado… era o que cochichavam mentalmente os hóspedes.

Não era conveniente que um corpo seco se hospedasse no saguão dum hotel de luxo. O gerente, preocupado em não ofender a senhora, tentava convencê-la a cobrir o corpo, mas ela gritava para que o deixassem como estava, não se podia esconder o crime.

De repente, farta daquela situação, uma faxineira legitimamente barranquillera cruza todo o saguão, toma o corpo nos braços e o joga em seu carrinho de limpeza. A senhora russa empalidece ainda mais e desmaia. As pessoas se dispersam, disfarçando a curiosidade. A faxineira caminha até o gerente e, como se fosse a dona do hotel, lhe diz:

– Se ela quiser ver novamente o corpo desse poodle branco, fale pra me procurar na área de serviço.

Antunes

Ilustração de Cristiano Pessoa da Cruz.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2011

3 Respostas para “La muerte en el hotel El Prado

  1. Viu só? Sorte sua que fantasma de poodle também não resiste ao calor, caso contrário, ninguém dormiria com os uivos mimados e o som do bichinho arrastando coleira pelo hotel. 🙂

  2. Ca-ra-ca. O texto todo quebrou minhas expectativas, você raramente escreve textos com clímax desse jeito. Porque seus textos sempre são bons no desenrolar todo. Mas esse teve um climão, me lembrou aquele seu conto grotesco da solitária e tal, rs. Tive a mesma reação (:

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