Arquivo do mês: março 2011

Crônica Falada 7 – Orla de Copacabana

Benfazejos leitores e espectadores,

Fui até Copacabana, mas da Princesinha do Mar já não restavam os ossos que são agora apenas desse meu boçal ofício de escrevedor e bobo da corte youtubeana. Findada a monarquia, restou-me falar dos velhinhos de Copa, do eterno amigo Drummond e contar a história dos 18 do Forte…

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Antunes
São Paulo, 30 de março de 2011

Kota Kahuana

por Dagoberto – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Nunca sou tão Carioca como em suas areias.

Quando dividiram as linhas do mundo, porque desejou dividir o meu? Pois levanto assim sob teu sol, e quando percebo, meus pés em suas águas. Rolo por seus postos peregrino com minha barraca vermelha. Meca! Lhe trouxe um terço; me abençoas, mãe? Domingo a domingo renasço assim.

Ai que sou teu filho, Raquel! Eu, Prometeu alado, louco por Jocasta minha doce perdição. Aprendi na lentinha de seu silencio o segredo da esperteza, Têmis. Assim, sou perito no cassino da sorte, no sapato bicolor, no pão de cada dia.

E guarda sob teu vestido, segredos de avenidas, tuneis, praças! Mil estórias para cantar no tom de tuas escadas, nos teus velhos pra desviar, nos entregadores à bicicleta… ainda que nada seja tão seu quanto o mar.

E eu trôpego de ciúmes lhe encontro no sorriso de alguma em Caxias. Copacabana. E perdido entre a multidão no Centro, não é você que atravessa o sinal doutro lado? Copacabana. Na duração das integrações para Santa Cruz, eu vi Copacabana.

E nas noites sem fim da Lapa, salivo teu quadril ao meu lado quebrando. Copacabana. No baile charme em Madureira, teu copo sempre cheio. Copacabana. Na boate sem consumação ou no funk na Ladeira. Copacabana. No uniforme do motorista de ônibus, no lixo da Comlurb, nos prédios egoístas da Barra, ou velhos do Catete, eu vi Copacabana. Entre os pivetes esgueirados; você…

Tão planeta e a cidade tão lua. Se diverte em fazer todos girar sob sua gravidade, em lhes dar uma identidade universal; “brasileiros não apenas, Cariocas por gentileza, malandragem”. E já não se sabe onde é Rio, onde é mar, Brasil, Copacabana.

Ah, se soubesse da saudade que sinto minha porta bandeira! Teus postes, um colar de pérolas noturno. Princesa; não te mereço! E te invejo! Nunca das juras eu me esqueço. Santa! Guarda teus transeuntes! Senão apareceremos nus no Jornal das Oito.

Copa, até bêbada é dama de alta classe. Soberba, seu vomito ressaca de inverno. E os coqueiros, estandartes da paz, balança vaidosa, vai! Pois bonito é ver do forte o pão de açúcar que serve. E consenso em nossas bocas, no céu, o arcos Iris de gente que atravessa o mundo inteiro pra lhe venerar mais que eu.

Ainda te reencontro,

No mar de seu calçadão, Copacabana.

Dagoberto
A ilustração foi retirada daqui, pelo Dagô
Rio de Janeiro, 2 de março de 2011

Minha Copacabana

Hoje escrevo porque estou feliz. Feliz com esta felicidade em que não acredito e não existe, feliz como sonhava inda criança. Quero escrever um texto feliz em preto e branco, como calçadas de pedras portuguesas. Pois parece ser impossível não ser feliz na orla de Copacabana. Até os mendigos sorriem na sua tristeza. Até as putas são mais felizes e té parecem gostar do seu trabalho. Em Copacabana, Drummond é eterno e seus milhares de óculos são eternos na casa de cada poético ladrão. São felizes, junto comigo, todas as ondas da orla de Copacabana, sejam do mar, sejam do chão. O Forte de Copacabana me sorri um risinho antigo, longe de recordar qualquer disparo de fuzil, lembra da época em que ainda era só cimento e água. E eu sorrio porque ouvi alguém me dizer que Copacabana era fantástica e assim guardei pra mim, toda vez que imagino Copacabana, associo a coisas fantásticas na minha vida: o abraço da minha esposa, o almoço da minha mãe, os desenhos do meu pai, a gargalhada da minha irmã. Pois, Copacabana me parece tão distante que preciso encontrá-la em outras coisas que habitam minha memória. E hoje estou em Copacabana sob o sol, ouvindo o mar, tomando água de coco, mesmo que hoje esteja num carrancudo hotel de São Paulo.

Antunes
São Paulo, 28 de março de 2011

Era aniversário do Drummond, ele estava solitário, pensativo...

Então cheguei e resolvi fazer uma surpresa

Chegou a Emanoelle e formamos uma festinha!

Em Copacabana, atrás o Forte de Copacabana

Copacabana vista do Forte

Teve uma época em que a Skol resolveu bancar uma roda gigante em Copacabana para que se pudesse gozar da vista. Na foto é a Nôla.

O gari da Sapucaí

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Baseado na história do gari Renato Sorriso.

– E quando o carnaval acabar?

– Quando acabar acabou. Ano que vem tem mais.

– Não, não é isso. Quero saber o que vai acontecer quando acabar pra sempre…

Sorriso não era filósofo por profissão, era gari. Se por um lado o Carnaval o deixava feliz, por outro o deixava comovido como o diabo. Enquanto se divertia, pensava na infinita finitude das coisas, tudo acaba eternamente, mas vai que um dia acaba de acabar! Haverá alguma última quarta-feira de cinzas?  Enquanto não topava com a resposta, pensava na quarta mais próxima, quando voltaria pra Praça Xavier de Brito pra varrer, varrer e varrer, aguardando um outro Carnaval chegar.

– A merda dessa vida é ter que trabalhar até no Carnaval, Sorriso!

– Acho não, Xavier. Só assim posso ver o desfile aqui na Sapucaí.

– Porra nenhuma, Sorriso. Tem é que varrer esta merda toda que o povo caga.

– Rapaz, deixa de falar besteira.  Aqui a gente vê a bunda das modelos passando. Quando na tua vida você pensou em ver ao vivo a bunda da Luiza Brunet!

– Lá quero saber de bunda, quero dinheiro no bolso e ir embora dormir.

– Pois eu queria é sambar numa escola dessas, todo mundo aplaudindo, mandando beijo. Nasci pra isso, Xavier. Sou cem por cento carisma, imagina o negão aqui de Mestre Sala!

– Com essa vassoura na mão tu tá mais pra porta-bandeira. Pára de falar merda e varre, não vou varrer tua parte.

Tá certo que ninguém reparava, mas se reparasse, veria que Sorriso não andava pela avenida, ele flutuava, ao mesmo tempo em que entrelaçava as pernas como se fossem de uma marionete desgovernada. Segurava a vassoura que nem bandeira de estandarte e dentro da sua cabeça tocava uma bateria prodigiosa que ia descendo pelo corpo, passava pelo coração e o fazia pensar e sentir com os pés.

– Tá vendo ali, Xavier?

– O que?

– Aquela modelo, é rainha de bateria!

– E?

– E que ela não samba porra nenhuma.

– Novidade. Eu também não sambo e estou aqui.

– Mas você tá varrendo. Então ela é que deveria estar contigo, varrendo, e eu lá.

– Então cê quer ser rainha de bateria, né?

– Num fode, Xavier. Só queria estar lá no meio da Escola.

Gari não é patrão. Muito menos na Sapucaí, onde é fiscalizado diretamente pelo chefe.  O cimento tem que ficar limpinho pro salto das modelos pisar, pra passista não tropeçar, pra baiana poder rodar…

– Faz silêncio nessa porra! Pára de conversar! Limpa direito. – gritava o chefe.

E o samba, pra Sorriso, era que nem canto de sereia. Quando a bateria explodia o silêncio, ele ia afrouxando as cadeiras, os pés saltitavam no chão, os ombros rodavam, a cabeça caía prum lado e pro outro e ele ia atrás que nem folião. Num descuido do chefe, Sorriso deslizou pra perto da Escola, acenou pro público, brincou com as pernas feito um Mané, fez a vassoura parecer encantada e enquanto pisava no chão seus pés faziam som de tambor. O público delirou. Já não se via mais carro alegórico, rainha de bateria, mestre sala, nem porta-bandeira. Já não se ouvia ronco de cuíca, batuque de tambor. Só se via o samba no pé de Sorriso e se ouvia o chocalho do seu corpo.

Este foi o primeiro Carnaval.

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 8 de março de 2011

Crônica falada 6: Marquês de Sapucaí

Fui topar no sambódromo na tarde de apuração e resolvi  vomitar algumas canalhices acerca dos desfiles, do carnaval, dos blocos, reverenciei o ídolo Jorge Perlingeiro e ainda cantei um pout pourri com marchinhas de carnaval adaptadas para o mundo gospel, afinal, todos têm o direito de curtir um pouco de samba!

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Antunes
Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 2011

Ao vivo, do Sambódromo

por Venturieta – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

– Eu avisei que ia faltar cerveja, agora já não dá pra comprar mais.

De fato, o isopor estava quase vazio. O gelo que ainda não havia derretido mantinha corajosamente uma latinha na temperatura exata para combater o verão carioca. O caso é que a pobre órfã de família numerosa – única sobrevivente de um pack de doze – era combustível insuficiente para acompanhar o último desfile na Sapucaí. Nada mais justo então do que enaltecer sua visão estratégica, provando que suas previsões haviam sido calculadas com precisão militar. Seu protesto, no entanto, terminou abafado pelo aquecimento da bateria, e o subsequente descaso da companheira. Decidido a manter a postura bélica, insistiu:

– Eu tô morrendo de sono.

Eram quase seis horas da manhã de uma terça-feira gorda, o último dia do feriado. Porque não havia nem a colher de chá de ir trabalhar só ao meio dia de quarta: oito da matina a firma queria todo mundo lá, continência e ponto batidos. A situação desanimadora: em apenas três goles a provisão etílica reduzira-se à metade, e em menos de 24 horas precisaria estar curado da ressaca para conseguir levantar-se da cama, coisa que só seria possível se o repouso do herói houvesse começado há coisa de quatro horas. Seu apelo não apenas havia sido sumariamente ignorado como foi neutralizado por um contra-ataque engenhoso: a inimiga tratou de distraí-lo.

– Já dá pra ver a comissão de frente, olha lá!

Mesmo sem querer, sentiu o entusiasmo renascer. Como último esforço para encerrar a campanha, fixou os olhos uma vez mais nas evoluções que tomavam a passarela. Abre-alas, passistas, baianas, paradinhas, destaques, velha guarda. Quando deu por si sabia o samba-enredo de cor. De olho no relógio, comemorou quando os portões da dispersão foram fechados, indicando que sua escola havia tomado a avenida por exatos oitenta e dois minutos. Nesse ano ganhariam, certeza. Daria um jeito de desertar na quarta, pra assistir a apuração – quem sabe na quadra!

– Minha coluna está me matando. Você pode dar um jeitinho nas coisas e deixar os copos na pia, por favor?  – gemeu Aurora, enquanto se espreguiçava no sofá.

Como não render-se às manhas da mulher? Resignado, pôs-se a arrumar a sala, recolher o lixo e fechar as janelas. Por fim desligou a TV e, numa marchinha, alcançou a cozinha.

Venturieta
Petrópolis, 11 de março de 2011

Três menções ao samba e ao sambódromo

1 – Samba do Rio

Se “o samba nasceu lá na Bahia” , foi no Rio de Janeiro que ficou bom. E se outros acham que o Rio de Janeiro é o berço do samba, “São Paulo é o túmulo.” Meu xará de Moraes, igualmente carioca, foi o responsável por biografar o samba, com direito a local de nascimento e morte. Os cariocas somos assim: muito pretensiosos, arrogantes, presunçosos quando se trata de futebol e samba, mais ainda de samba. Carnaval para nós, só o do Rio de Janeiro. Embora haja uma onda de aceitação cada vez maior pelo pula-pula atrás dos trioelétricos baianos, ainda é insuportável para os cariocas ver um desfile de escola de samba de São Paulo. Por mais que a comercialização do carnaval esteja em um crescente desenfreado e na passarela do samba se destaquem os nomes televisivos, pelo menos ainda resta um espaço para que em todo comecinho de ano ressuscitem nomes como Cartola, Noel, Paulo da Portela, Jamelão, Silas de Oliveira, Natal…

2 – A Marquês e suas escolas

A Marquês de Sapucaí surgiu nos anos 80 sonhada por duas figuraças geniais e históricas: Oscar Niemeyer e Leonel Brizola. A partir daí, mesmo muito criticada, se converteu na passarela por onde desfilam as tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro, porém, o que mais me impressiona no projeto e quase ninguém sabe é que desfilam por ali, diariamente, centenas de crianças de escolas que não são de samba. Os CIEPS, entretanto, estão sendo retirados da avenida em 2011 pois, devido ao carnaval, os alunos acabam perdendo muitos dias de aula. No lugar deles, entrará na avenida um projeto do EJA. O que importa é que de uma forma ou de outra, a Marquês de Sapucaí continuará abrigando escolas de Samba e de Educação.

3 – O que será do Samba…

O samba é mutável, isso é fato. Dele saiu a Bossa Nova (que seus autores dizem não ser bossa nova e sim samba) e dele saiu o pagode (que seus autores juram de pés juntos não ser pagode e sim samba). Assim como a melodia vai se alterando, as letras também. Ontem, a poesia e a melancolia foram marcas que encontraram em Silas de Oliveira do Império seu maior representante. Hoje, as letras e as melodias vivem os desdobramentos lançados por Martinho da Vila, que popularizou iê-iês e la-la-lás na avenida. E se melodia, letra e música vão mudando, é claro que o mesmo acontece com o formato das escolas. Ontem, elas eram blocos. Hoje, cresceram tanto que passaram a mobilizar milhares de pessoas e milhões de dinheiros. Com Joãozinho Trinta o luxo entrou na avenida e hoje, por mais que neguem, as purpurinas e os penachos de pavão finalmente vão chegando ao fim. Começa a era Paulo Barros, em que efeitos especiais, ilusões de ótica, personagens pop, ganham a avenida e fazem sucesso entre o público e a mídia. Vivemos exatamente uma época excepcional em que coexistem na Marquês de Sapucaí duas expressões muito distintas de escolas de Samba. O modelo Mangueira: tradicional de extrema qualidade, em que o histórico da escola, seus mitos e o samba no pé são muito valorizados. E o modelo Unidos da Tijuca-Paulo Barros: extremamente agradável visualmente, pós-moderno e aclamado por gritos de campeão por toda a Avenida. O embate entre estes dois modelos forjará as escolas de samba de amanhã, gostem os críticos ou não, é um movimento que não se pode mais frear.

Antunes
Rio de Janeiro, 20 de março de 2011

Casal verde e rosa

Éric e Nô levam um banho de espuma na Sapucaí (olha a cara de contente do Éric)

Após a saída de cada escola, a famosa presença dos garis que deixam a Sapucaí limpinha

A eterna águia da Portela

Paulo Barros levou uma gigantesca barca de Caronte para a avenida

Ogum, Oxossi e Iemanjá saem da Avenida e dão lugar a Harry Potter no carnaval de Paulo Barros

O sambódromo se enche de verde e rosa pra receber a Mangueira

Chuva e orações recebem a Mangueira na Avenida

Nôla e eu, aguardamos a verde e rosa até às seis da manhã

"Mangueira, teu cenário é uma beleza."

E enquanto isto, meu primo Arthur saía de diretor de ala da Mangueira.... vai entender!

A mãe do árbitro

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Arlindo Peçanha era árbitro de futebol. Andou pelo Maracanã nos anos 80 e 90, fininho, rápido, sempre em cima do lance, numa época em que a arbitragem ainda era famosa pelo excesso de barriga e escassez de agilidade. Orgulhava-se de sua invisibilidade em campo: árbitro bom é aquele que não aparece na partida. Os locutores mal sabiam seu nome, a torcida o desconhecia, jogo com Arlindo era arbitragem de videogame.

Lindalva Peçanha era a mãe de Arlindo. Senhora mui católica, mas sem ranço. Velhinha branquinha que nem neve, enrugada que nem damasco seco. Sempre orgulhosa do único filho. Viúva desde sempre, dizia. Não era muito de sair, não era muito de falar, porém quando saía, porém quando falava, dona Lindalva parava a rua. Era a pseudo-vovó mais simpática da Tijuca e, ultimamente, mostrava a dentadura à toa, estava à beira de completar noventa anos.

– Não acredito, mamãe!

– Que foi, Lindinho?

– Fui convidado pra apitar a final.

– Ai, minha virgiMaria, que coisa mais boa, sempre foi seu sonho!

– Mas, mamãe, a final é justamente no aniversário da senhora.

Apesar das eternas insistências da velha, Arlindo Peçanha nunca tinha levado dona Lindalva pra assistir a um jogo. Achava que futebol não era coisa pra mulher, muito menos pra uma senhora, muito menos ainda pra uma senhora sua mãe.

– O campo do Maracanã é grande, filho?

– É enorme, mãe.

– Maior que a casa do teu tio Arnaldo?

– Muito maior, mãe.

Dona Lindalva não entendia absolutamente nada de futebol, sequer entendia pra que servia a profissão do seu filho. Como podia vinte e dois homens não conseguirem organizar uma partida? E pra que um campo tão grande? Como podiam correr assim ao sol? E de onde saía tanta gente pra ver aqueles jogos? Se uma mulher pode chegar aos 90 anos com alguma curiosidade, a de dona Lindalva era essa: o que acontecia dentro do Maracanã?

– Filho, já sei um presente.

– Que bom, mamãe. A senhora não é de pedir presentes.

– Quero ir ao jogo.

– Esquece, mamãe. É seu aniversário.

– Por isso mesmo.

– Não, nada disso. Eu não vou apitar essa final, vou pedir pra escalarem outro.

– Tá doido, menino? Te dou umas bolachas!

– A senhora pode tirar o cavalinho da chuva, a senhora não vai.

– Vou sim.

– Não vai não e tenho dito.

Até que chegou o dia da final, até que chegou o aniversário de dona Lindalva.

– Quer um picolé, mamãe?

– Não, deve estar muito gelado.

– A senhora vai ficar sentadinha aqui nessa cadeira e não vai se mexer até o jogo acabar.

– Isso daqui tá ficando muito cheio, né?

– Eu avisei pra senhora.

– Ai, eu sei… eu sei… parece até que a velha é você e não eu.  Vai trabalhar.

– Até, mãe.

– Lindinho…

– Que foi, mamãe?

– Ó, fica mais daquele lado ali do campo que tá mais sombrinha.

– Tá bom, mãe, bença.

O uniforme negro já estava encharcado de suor e Arlindo ainda nem tinha pisado em campo. Sua preocupação não era mais com a final e sim com mamãe. O que dona Lindalva iria pensar? Final era jogo duro, coisa catimbada. Futebol era pra homem e não pra uma senhorinha de oitenta e nove, digo, noventa anos… rezou um painosso e dez avemarias e pediu a Nossa Senhora pra que nada de ruim acontecesse.

Arlindo apitou e a bola rolou. Os primeiros minutos são sempre os piores, o coração sai pela boca, depois se acostuma. Na vida, a tudo se acostuma: seja a não ter pai, seja à solteirice eterna, seja à profissão de árbitro de futebol. No gramado, Arlindo tornava-se um robô e o jogo, por milagre, ia chegando aos noventa sem problema algum, nem parecia final. O zero a zero era do time com melhor campanha. Arlindo estava doido pra apitar o fim, e Arlindo já-já apitaria o fim…

Noventa minutos cravados no cronômetro. O time que perdia o campeonato resolveu guardar a correia pro final. Arbitragem impecável, mas de que adianta? O atacante Romildo, num desespero final, atirou-se descaradamente na área adversária. Arlindo, exemplar, viu a forçação de barra e não caiu na malandragem. Mandou o jogador levantar e não marcou pênalti. Mas, já era. O que Arlindo tanto temia aconteceu. Cerca de cinqüenta mil torcedores ensandecido encheram a boca pra gritar: filho da puta! filho da puta! filho da puta! Dona Lindalva, sentada em sua cadeirinha, escorregou ruborizada, depois empalideceu, depois se abanou, pensou em ir embora, pensou em brigar com todos, mas congelou, não conseguia mover um dedinho sequer: como foi que estes desgraçados descobriram?

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2011

Crônica falada 5: Maracanã – Canto das Torcidas

O doutor Vinícius Antunes (eu mesmo) analisa linguística e semanticamente os cantos das torcidas dos principais times do Rio de Janeiro (Vasco, Fluminense, Botafogo e Flamengo) no Maracanã. Um estudo revolucionário da literatura pós-moderna. Obs.: O amigo citado no vídeo é o Roberto.

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Antunes
Rio de Janeiro, 16 de março de 2011

Que Mário?

por Jônatas Amaral – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Se eu conheço? Lógico que conheço o Mário! Desde pequeno! Meu pai era amigo dele antes de eu nascer. Meu avô diz que o viu criança. Coroa gente fina pra caramba. Pra falar a verdade, nem tão coroa assim. O Mário tá numa idade boa, com uns 50 e blau, quase 60 – vendendo saúde. Esses dias até ouvi dizer que ele tá fora de circulação por uns tempo. É, viajou pra abastecer de ar fresco auqueles pulmões.

Benditos pulmões! Mais parecem duas bombas de ar, isso sim. Mário fala alto, sempre falou. Gesticula, ocupa espaço, como se não bastasse seu tamanho. Ô homem grande! Lá na rua, o chamávamos de maiordomundo. Ele gostava, se divertia com o apelido.

Puxa, saudade dele… Já faz um tempo que não o vejo. Tô torcendo pra ele voltar logo pra gente bater papo, falar sobre futebol. Ih, quando a gente para pra falar de futebol, o tempo voa. A grande paixão do Mário é a redonda. Já vimos muito jogo do Flamengo juntos.

Engraçado é que ele não diz pra qual time torce, fala que torce pra todos. Já ouvi dizer que é tricolor. Meu primo jura que Mário é botafoguense, mas eu tenho pra mim que é flamenguista. Não é possível, ninguém grita daquele jeito que nem a gente gritou naquele Flamengo e Cruzeiro de 2003 sem ser urubu.

Enfim, maiordomundo é o cara. Amigo de geral, conhece gente da cidade toda! Ele brinca que tem amigos ao redor do mundo inteiro e vou te falar: eu nem duvido. Com aquela simpatia, pode ser mesmo. Na última vez que conversamos, ele me disse que em 2014 vai organizar uma festa aí e vai trazer gente de todas as partes do planeta. Essa festa eu não perco.

Mário Filho, desse cara eu sou fã.

Jônatas Amaral
Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2011