Abaixo de Cristo

Por Vinni Corrêa – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Como é sabido por alguns conhecidos meus, a altura é um dos meus maiores medos, ainda que ao mesmo tempo eu possa ter fascínio por ela. Desde que eu me sinta seguro, é claro. E falar em altura, para mim, é como falar de algo do Rio de Janeiro, é como adorá-lo ao mesmo passo em que temo alguns aspectos dessa cidade, incluindo seus gentílicos. Quando o meu amigo Vinícius Antunes me solicitou que escrevesse algo sobre o Cristo Redentor, pensei: por que ele não pedira para falar do Monumento Cristo Terceiro Milênio, em Caxias do Sul, ou o Sagrado Coração de Jesus, estátua que se localiza na cidade de União de Vitória/PR, ou o Cristo de Pouso Alegre, ou ainda o da cidade de São José do Rio Preto, ou os diversos Cristos deste Brasil? Todos estão a uma altura bem menor. Não seria imprudente afirmar que nenhum deles está à altura do Cristo Redentor, ainda mais sobre o Corcovado.

É possível chegar ao monumento de duas formas, pegando trilhas pela Floresta da Tijuca que saem do Jardim Botânico, Parque Lage e Cosme Velho. Todas essas trilhas desembocam nos trilhos do Trem do Corcovando – exatamente, Trem do Corcovado, nunca chame de bondinho, senão o pessoal do trem pedirá que você vá a Santa Teresa -, que é a outra opção para chegar ao destino. Ainda não encarei as trilhas, mas o passeio no trenzinho é bem interessante, por que é mais confortável do que subir a pé.

No cume do morro vemos a imensa figura que simboliza o cristianismo no Brasil, sobretudo o catolicismo, pois a Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro é que detém o direito de imagem do monumento. Apesar disto, é possível ver todo tipo de religioso visitando o local, inclusive protestantes – e inclusive ateus, como eu. Numa das novas sete maravilhas do mundo, de braços abertos sobre um Rio de Janeiro babélico, o verdadeiro fascínio e temor misturados a um só tempo estão na contemplação das contradições da cidade. Abaixo de Cristo: a favela e o asfalto; a mata da floresta e o concreto dos prédios; a alegria e a tristeza de um Vasco vs Flamengo no Maracanã, ouvidas lá do alto; o pássaro e a asa-delta; a névoa e os carros. Mas quando estive lá em 2007, pude perceber o quanto o nosso Cristo é pequeno, tão pequeno mesmo diante de um homenzinho ao seu sopé, com a mesma barba, com semelhantes trapos e sandálias, e talvez de uma mesma etnia, mas que não está representada em pedra-sabão. E lá estava o homenzinho pedindo esmola a turistas, religiosos e cariocas, pedindo esmola diante daquela pequena Altíssima figura, mas por ser menor, por ser menor ainda do que todos ali, ainda que tão pequeno quanto qualquer um de nós, não é capaz de livrar ninguém de cair de lá de cima, nas trevas e nas graças do Rio de Janeiro. Mas talvez por isso, o Cristo esteja lá em cima, no alto do Corcovado, e vermos o quanto ele é pequeno, e o quanto somos ainda mais, e que deveríamos temer a nós mesmos e não a altura.

Todos sobem ao Cristo, seja a pé ou de trenzinho, mas não há quem carregue junto consigo uma cruz do tamanho do Rio de Janeiro.

Vinni Corrêa
Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 2011

Vinni e o mendigo no Cristo Redentor

Abaixo de Cristo

2 Respostas para “Abaixo de Cristo

  1. Sem dúvida, abismos sociais também dão vertigem. Belo texto!

  2. Adorei o texto e as fotos… duvido nada que o mendigo consiga tirar uma graninha dali hein, rs. Eu tenho o exato mesmo medo de altura D:
    boa participação!

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