A 5ª obra

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Diante do Pão de Açúcar, quando saía o sol, ela sentava na areia da enseada. Cabelos enca

racolados soltos ao vento, sandálias havaianas,  caderno de desenho à mão, lápis HB. Aparenta ter uns 19 anos, é canhota e segura diferente o lápis, talvez um sinal de insegurança, não sei… Lembro que especificamente neste dia o céu parecia mais amarelo que nunca, não era um amarelo hepático, era um amarelo forte, escuro, quase laranja, o céu parecia Van Gogh. Mas, no caderno da menina, o Pão de Açúcar era chumbo e o céu branco, como na foto em preto e branco que ele acabara de imprimir em seu estúdio.

Ele é fotógrafo profissional, embora ame o que faça. Apara a barba uma vez por mês e corta o cabelo às vezes, é fotógrafo e não modelo. Perambula sempre pela Zona Sul guiado por sua Nikon. Ela faz seu caminho. Há três meses, enquanto fotografava a enseada, as lentes capturaram a menina numa foto em branco e preto. Viciou-se pela imagem: o Pão de Açúcar imenso com a criaturinha frágil à sua frente rabiscando um micro Pão de Açúcar mais frágil ainda. As paredes, o laptop, a vida, tudo está repleto de fotos como esta. Estão impressas por todos os cantos, em branco e preto como o desenho em preto e branco da menina da enseada.

Os religiosos dizem que Deus levou três dias pra fazer a terra. Os cientistas dizem que a terra se formou em milhões de anos. A menina recria o Pão de Açúcar em algumas horas: mais rápido que Deus, mais rápido do que julga a ciência. O fotógrafo recria o Pão de Açúcar em um segundo: mais rápido que Deus, mais rápido do que julga a ciência, mais rápido do que a menina.

Hoje, como ocorre em todos os dias, ela está com os pés cheios de areia e a frágil e calejada mão esquerda recriando o Pão de Açúcar a grafite. O Pão de Açúcar ignora a existência da menina, assim como ela ignora a existência do fotógrafo que de longe a recria e recria sua paisagem. Viverão assim, talvez pra sempre: o Pão de Açúcar, a menina, o fotógrafo e o poeta, que nenhum deles sabe, mas segue-os de longe diariamente pois acha toda esta história tão inspiradora…

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 2011

Uma resposta para “A 5ª obra

  1. Lindo texto, senhor poeta!

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