Ao vivo, do Sambódromo

por Venturieta – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

– Eu avisei que ia faltar cerveja, agora já não dá pra comprar mais.

De fato, o isopor estava quase vazio. O gelo que ainda não havia derretido mantinha corajosamente uma latinha na temperatura exata para combater o verão carioca. O caso é que a pobre órfã de família numerosa – única sobrevivente de um pack de doze – era combustível insuficiente para acompanhar o último desfile na Sapucaí. Nada mais justo então do que enaltecer sua visão estratégica, provando que suas previsões haviam sido calculadas com precisão militar. Seu protesto, no entanto, terminou abafado pelo aquecimento da bateria, e o subsequente descaso da companheira. Decidido a manter a postura bélica, insistiu:

– Eu tô morrendo de sono.

Eram quase seis horas da manhã de uma terça-feira gorda, o último dia do feriado. Porque não havia nem a colher de chá de ir trabalhar só ao meio dia de quarta: oito da matina a firma queria todo mundo lá, continência e ponto batidos. A situação desanimadora: em apenas três goles a provisão etílica reduzira-se à metade, e em menos de 24 horas precisaria estar curado da ressaca para conseguir levantar-se da cama, coisa que só seria possível se o repouso do herói houvesse começado há coisa de quatro horas. Seu apelo não apenas havia sido sumariamente ignorado como foi neutralizado por um contra-ataque engenhoso: a inimiga tratou de distraí-lo.

– Já dá pra ver a comissão de frente, olha lá!

Mesmo sem querer, sentiu o entusiasmo renascer. Como último esforço para encerrar a campanha, fixou os olhos uma vez mais nas evoluções que tomavam a passarela. Abre-alas, passistas, baianas, paradinhas, destaques, velha guarda. Quando deu por si sabia o samba-enredo de cor. De olho no relógio, comemorou quando os portões da dispersão foram fechados, indicando que sua escola havia tomado a avenida por exatos oitenta e dois minutos. Nesse ano ganhariam, certeza. Daria um jeito de desertar na quarta, pra assistir a apuração – quem sabe na quadra!

– Minha coluna está me matando. Você pode dar um jeitinho nas coisas e deixar os copos na pia, por favor?  – gemeu Aurora, enquanto se espreguiçava no sofá.

Como não render-se às manhas da mulher? Resignado, pôs-se a arrumar a sala, recolher o lixo e fechar as janelas. Por fim desligou a TV e, numa marchinha, alcançou a cozinha.

Venturieta
Petrópolis, 11 de março de 2011

4 Respostas para “Ao vivo, do Sambódromo

  1. Que texto maneiro! Gostei. 🙂

  2. Vinicius, reitero o que já disse a você: sinto-me honrada por ter sido convidada para escrever um texto para o seu blog.

    Um beijo, meu querido!

  3. Muito bom!
    De fato, Avenida é aventura pra poucos, mais prático assistir do camarote VIP “Nosso Sofá”.

  4. Pingback: Escrevendo pra fora: Crônicas dumas viagens | Quinas e Cantos

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