Arquivo do mês: abril 2011

O Jardim dos Sentidos

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

à Natália (eterno fetim)

Não podia dizer se a cegueira era branca ou negra, pois nascera cego. Não conhecia cor: fosse rosa, azul, vermelho, verde. Conhecia apenas os sons, os cheiros, os gostos, as texturas – isso conhecia bem, melhor que você, eu, melhor que a avó até. Por sinal, sua avó, já não tinha lá os sentidos tão bons – com exceção do sexto. Olfato falho, audição ruim, paladar escasso, tato duvidoso, só a vista que era melhor que a dele, mas isso não queria dizer que enxergasse bem. Enxergava o suficiente para sentar o neto no colo, na frente da tevê, e narrar-lhe tudo que se passava. Ele se divertia com as narrações engraçadas da avó que transformava qualquer filme em comédia, ria com tanta incoerência entre a descrição das cenas e a fala das personagens. Mais que sentir prazer com os filmes, gostava de ouvir-lhe a voz frágil e escassa, de apalpar-lhe as peles geladas e moles, de sentir aquele perfume de jasmins que só sua avó possuía.

 Não viu o enterro da velha, como nunca vira nada na vida. Apenas sentiu-lhe a carne fria e dura e o cheiro de jasmins. Os filmes passavam a ser apenas a fala das personagens. Já não havia colo, não havia braços para apalpar, não havia a voz mansa e suave da avó. Havia apenas uma solidão comprida e vagarosa que se espraiava pela casa. Havia um silêncio quase onipresente apenas quebrado pela voz do Charles Bronson, Bruce Lee, Vivien Leigh.

Ouviu que batiam à porta. Perguntou quem era e surgiu uma voz antiga e amiga. Abriu. Abraçaram-se como amigos que não se encontravam desde a infância. Sentaram-se no sofá e compartilharam histórias antigas e recentes, felizes e tristes, aquelas mais verdadeiras e as mentiras que se inventa só para ter o que contar. O visitante percebeu-o triste, amarelado, reparou-lhe as imensas barbas por fazer, os cabelos desarrumados. Foi então que soube da avó, do silêncio, da solidão e de como a vida era feita só de vozes esparsas, sem roteiro algum. Disse-lhe que precisava sair, sentir o sol, ouvir os pássaros e todas estas coisas que se diz a um enfermo quando se quer animá-lo.

Chegaram ao Jardim Botânico junto com a tarde. Não podia vê-lo, mas tampouco precisava. Sua pele, seu nariz, sua boca, seus ouvidos, diziam-lhe tudo que estava ao redor. Tirou os chinelos para sentir melhor o chão e andou calmo como se estivesse sobre o gelo. Tentou assobiar, copiando um pássaro, mas nunca aprendera, apenas saía-lhe um assopro engraçado. O sol deixava-lhe a testa quentinha que logo depois era esfriada numa fonte ruidosa. O amigo estendeu-lhe a mão e disse que o levaria às flores. Andaram, trôpegos, sentindo grama, pedras e insetos. Em sua ausência de imagens, esticou as mãos e tocou as pétalas que estavam à sua frente. Sentiu a flor frágil como um bebê ou como um velho muito velho. Queria saber como era, como seria ver o mundo e como seria ver seu próprio rosto. Abaixou para cheirá-la. Era um jasmim. Estava, novamente, diante de sua avó.

 Antunes
Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2011.

Crônica Falada 11: Jardim Botânico

Que beleza gravar uma Crônica Falada no Jardim Botânico, desfrutando das prantinha e da paisage. Sob a sombra, aproveitei para filosofar sobre piqueniques, a natureza e o vegetarianismo.

Antunes
Rio de Janeiro, 27 de abril de 2011

O Jardim Botânico

por Nathy Fetim ACDC – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

A cidade do Rio de Janeiro apesar de todos os seus problemas – a maioria deles, os próprios cariocas -, foi abençoada com várias belas paisagens que para muitos, é difícil escolher qual a mais bonita. Se me perguntarem qual lugar do Rio eu gosto mais, eu respondo na hora. Pão de Açúcar? Corcovado? Praias? Não. O Jardim Botânico! Não existe lugar mais relaxante e até digamos…aconchegante, que aquele. Acho que o fato de eu ter estudado botânica na faculdade me ajudou a gostar mais de lá. Se para quem é totalmente leigo no assunto o lugar já é encantador, pra quem tem o mínimo de conhecimento que seja na área, os olhares são outros. Mas enxergamos o mesmo que todo mundo. Uma raiz enorme que atravessa os caminhos do parque de um lado a outro, uma planta que “mora” em cima de uma árvore, outras que parasitam, borboletas e pequenos insetos que podem até nos perturbar durante a caminhada, mas que muitas plantas sem eles, não seriam as mesmas. Ou até mesmo, não seriam. Tudo ali está em perfeita harmonia.

O Jardim Botânico é como um refúgio. Uma fuga para o estresse, a correria do dia-a-dia, do trabalho, das desilusões, sejam elas quais forem. A entrada com Palmeiras-Imperiais já é um convite para quem passa do lado de fora. E quanto mais você explora o espaço mais se depara com uma diversidade de espécies vegetais que não se vê em qualquer lugar, em qualquer esquina. Flora nativa, flora “trazida”, ameaçadas de extinção, em risco…diversidade que parece não ter fim.  Isso, “diversidade”. É essa a palavra que o define. O que é difícil de dizer para mim, é qual o lugar que mais me atrai dentro do Jardim Botânico. Eu sou uma apaixonada por Orquídeas, logo, minha visita ao Orquidário é certa! Acho as bromélias uma família de plantas curiosa, e com isso, posso ir ao Bromeliário e admirá-las. Gosta de plantas insetívoras? Lá você encontra uma estufa só com elas. E o que dizer do Jardim Sensorial? Uma área encantadora montada principalmente para os deficientes visuais, que podem tocar e sentir o aroma das plantas e também saber o nome das mesmas em placas também escritas em braile. É legal, não é?! E a lagoa com Vitórias-Régias? Um dos pontos mais lindos que lá existe. Não canso de ficar olhando. Bateu a fome? Lá você encontra cantinas, cafés e se quiser levar seus “quitutes” de casa, tem espaço para piquenique. É só saber aproveitar!

Interessante é saber que lá dentro, no Centro de Pesquisas, tem gente que olha por cada planta ali existente. E não é só regar e plantar sementes. É muito mais que isso. Pesquisas que incluem observação, manejo e até a parte molecular, sim…DNA. O triste é saber que se esse espaço fosse aberto, não seria tão belo, tão limpo, cuidado…preservado. Como disse no início, o carioca é o maior problema da cidade, pois não sabe cuidar do que é dele. Se todos soubessem da importância que cada folhinha e cada animal, por menor que seja, tem para vida, e se preocupassem com isso, com certeza nosso olhar para o mundo seria diferente. É um lugar que eu recomendo ir sempre. Vá ao Jardim Botânico! Leve a família, seu parceiro (a), a máquina fotográfica, um livro, seu iPod. Caminhe, sente-se, medite, relaxe! Garanto que sairá de lá muito mais leve.

O que nos resta é aproveitar e agradecer a D. João, por essa bela herança para nós deixada.

Nathy Fetim ACDC
Rio de Janeiro, 13 de janeiro de 2011

Nathy e Vinni Corrêa no Jardim Botânico

Una pareja muy romántica en el Jardín Botánico

Nathy (autora do texto) diante do chafariz do Jardim Botânico

A Natália e a paisagem de Vitórias-Régias

Desejos incontidos no Jardim Botânico

Pular a catraca do Jardim Botânico, sem pagar cinco Reais.

Driblar, correndo, cada Palmeira Imperial até torná-las tão plebéias dormideiras.

Pescar no lago, com vara de bambu e fio dental, um peixe grande fresquinho e comer como se fosse sashimi.

Saltar sobre uma vitória régia, depois em outra vitória régia, depois em outra vitória régia. Até a tarde cair antes de mim.

Beber água na fonte, fazer gargarejo com água da fonte, cuspir água da fonte como se fosse um chafariz.

Olhar o cu dos passarinhos sob as penas que cobrem o cu dos passarinhos.

Roubar a comida dos esquilos e oferecê-las aos lagartos pra engordá-los e depois comer carne de lagarto gordo.

Furar meus olhos pra aproveitar ao máximo o Jardim Sensorial.

Abraçar uma árvore e pedir pra que ela me abrace só pra zombar da sem-bracice dela.

Brincar de bem-me-quer-mal-me-quer no orquidário até a infinitude dos dias.

Brincar de Tarzan no topo das árvores, rolar na grama, lutar com jacarés imaginários no lago.

Dormir, cansado, sob a sombra duma árvore desfolhada, bem de noite.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de abril de 2011

Entre as Palmeiras Imperiais (2011)

Chafariz (2011)

Estufa das Plantas Insetívoras (2011)

Plantas Insetívoras (2011)

Tico sem Teco. Bochecha sem Claudinho. (2011)

FormiguinhaZ (2011)

Cuspe potável(2011)

Verde Palmeiras (2011)

Passeio de casais no Jardim Botânico (2005)

Musas do Jardim Botânico (2005)

Bebendo água na fonte, tomando uma cusparada da fonte (2005)

Fazendo barra no bambu em pleno Jardim Botânico (2005)

Um casal igual de bolo no Jardim Botânico (se liga no detalhe do pezinho) - 2005

Noivas e debutantes fazem do Jardim Botânico um manjado cenário (2005)

Pescando no lago com bambu e fio dental (2005)

Coração esculpido (2005)

Meu eterno medo de passarelas e pontes (2005)

Bailando com estátua (2005)

Orquidário (2005)

O tradicional e ridículo abraço na árvore (2005)

Narciso

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com
São um ou dois pássaros, ali do lado direito. Algumas plantas se movem, não dá pra saber quantas ou quais são. Umas imagens deformes parecem pessoas. Um rosto que vai se multiplicando e logo volta a ser um, fica torcendo e distorcendo, balançando sutilmente de um lado para o outro e às vezes se desfaz em anéis de água. São quatro ou cinco olhos negros, vidrados e curiosos. A pele também é negra e de múltiplos contornos.  O cabelo é ouriçado como anéis que uma pedra produz ao cair num lago. As orelhas não estão na mesma direção. A boca parece metade triste, metade feliz. O nariz é torcido. Parece que Deus é Edvard Munch. É o que Narciso vê refletido na Lagoa Rodrigo de Freitas, abaixado em um deck próximo ao Parque dos Patins.

Os turistas que passam, talvez não entendam ou não tenham tempo para entender. Os moradores já não se importam, pois sabem que aquele homem não faz mal algum. Enquanto todos caminham, fotografam, pedalam, Narciso vê apenas os reflexos na água da Lagoa, tal sombras platônicas redimidas. Detêm-se naquele rosto recriado pela Rodrigo de Freitas e se contempla de manhã à noite, quando o sono chega e o faz sonhar seu reflexo de água.

Seu rosto é o rosto do Cristo Redentor negro, seu corpo gigante escala a pedra da Gávea em posse de uma turista loira e de seios grandes, ele é um King Kong. Urra até despertar com o próprio urro. Recomeça o dia ajoelhado sobre um deque da lagoa. Os turistas contemplam a paisagem. Narciso contempla as imagens da Lagoa, seu rosto entrecortado por uma garrafa pet, seus olhos mesclados a sacos plásticos, seu cabelo espuma branca, sobre sua boca um peixe morto. Narciso quer mordê-lo: aproxima-se do reflexo a ponto de tocar o nariz no espelho d’água, submerge o rosto para abocanhar o peixe. Desequilibra-se. Narciso mergulha no reflexo, o reflexo acolhe Narciso. Parte a parte encontra-se o corpo: primeiro a cabeça, ao final, os pés. Mesclam-se numa figura única sob as águas sujas e calmas da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Antunes

Ilustração: Rogerio

Rio de Janeiro, 5 de março de 2011

Crônica Falada 10: Lagoa Rodrigo de Freitas

Fui à Lagoa Rodrigo de Freitas investigar: quem é esse tal de Rodrigo? Depois de descobrir, resolvi encabeçar um abaixo assinado para a mudança de nome da Lagoa.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de abril de 2011

A Lagoa, por minha irmã

por Betona – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Quando recebi o convite para escrever sobre os lugares conhecidos do Rio de Janeiro, foram oferecidas a mim algumas das ditas maravilhas do nosso estado, como o Cristo e o Pão de Açúcar. Eu, imediatamente, disse: “Não conheço!”. E, por mais incrível que pareça, é verdade! Aliás, como lembrou bem meu amigo Vinícius, até pouco tempo atrás, antes de o Fundão entrar na minha vida, não sabia onde era, sequer, a Presidente Vargas, imagine esses tais de Cristo e de bondinho! Só mesmo pela televisão! Continuando a oferta de lugares supostamente conhecidos, veio a Lagoa: “Ah, essa eu já passei em frente!”, disse eu num tom de alívio, como se me livrasse de um fardo muito pesado de má conhecedora do Rio.

Na verdade, hoje faz exatamente um ano do dia em que passei na Lagoa pela primeira vez. Lembro que chovia um mundo inteiro e eu precisava chegar ao meu baile de formatura em São Conrado. Se pra conseguir sair de São Gonçalo já foi um sacrifício, imagine a aventura por que passei junto a minha família para chegar nesse outro Santo … um tal de Conrado, em que eu também, só pra variar, nunca tinha ido! Em meio a toda essa história, só me ficou na cabeça a Lagoa, que emendava com o asfalto e formava um grande mar; tudo bem que meio parado, mas ainda assim bem grande! Nunca que ia desconfiar ser a tão famosa Lagoa Rodrigo de Freitas. Só descobri porque perguntei ao meu tio onde estávamos e ele, por sua vez, me situou. Confesso que fiquei um pouco decepcionada, mas com o passar do tempo achei emocionante… dias depois os pedalinhos foram parar no meio da pista em que eu havia estado devido a forte chuva que parou todo o Rio de Janeiro.

Por fim, faltou só o início. Ainda que nunca tivesse ido à Lagoa, sabia que, no Natal, se montava ali uma grande árvore, a qual recebia festa de inauguração e tudo! Foi numa dessas épocas natalinas, em uma ida a um shopping em Niterói, que saiu, da boca de minha irmã, famosa por suas pérolas raras na língua portuguesa, a seguinte frase: “Olha a árvore de natal da Lagoa!”. Não me agüentei, estávamos em frente à Baía de Guanabara, como poderia, minha irmã, estar vendo a ilustre árvore? Parei, então, para analisar do que se tratava o objeto identificado por minha irmãzinha. Era uma plataforma que tinha acabado de acender suas luzes, cerca de cinco ou seis, no máximo, pois já estava anoitecendo!

Continuo sem conhecer a Lagoa intimamente, tampouco em festas natalinas, mas creio que, se eu chegar até lá em um período em que a árvore esteja montada, não vou me decepcionar, pois deve ser bem mais iluminada do que a da Baía de Guanabara!

Betona
Alcântara, 6 de março de 2011

E depois do texto, eis que a Betona voltou à Lagoa e tirou fotos pra compartilhar conosco!

A Lagoa, vista dum pedalinho

Betona e dom Felipo na Lagoa Rodrigo de Freitas

Lagoa Rodrigo de Freitas

LAGOA

Cheguei a pensar que fosse um MAR…
_______Quando pequeno, se parasse ali
______________achava que era a orla de Copacabana, Ipanema, Leblon
______________achava que era a Enseada
______________achava que era a Baía de Guanabara.

A Lagoa me guardava mistérios como aqueles MONSTROS MARINHOS
de fim da Idade Média.

Eu queria sonhar que nossa Lagoa guardava um monstro que nem o do Lago Ness.

O Rio de Janeiro não é especialista em Godzillas.
_______As crianças passeiam de pedalinho na Lagoa.
_______As crianças andam de velotrol à beira da Lagoa.
_______As crianças patinam à beira da Lagoa.
E nenhum monstro marinho, nenhum tubarão, nenhum alligator

Fosse nos Estados Unidos, fosse no Japão…
_______Mas no Brasil é esta paz no que diz respeito à monstros.
_______Nossos monstros são tão outros.

Minha irmã – aí eu já era velho – vinha me contar histórias de uma ÁRVORE DE NATAL iluminada. Nosso Rio de Janeiro é sempre essa paz natalina de ausência de tudo. Essa paz de LAGOA.

Antunes
Rio de Janeiro, 18 de abril de 2011

Atrás das folhas, a Lagoa.

Sobrevoam a Lagoa

Dentro da Lagoa, dentro da canoa

Cristo visto da Lagoa

Pássaros pousados na árvore

e pássaros pousados no barco

Grande como um poste

O passador de cantadas

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com


Adolfo, ou melhor, Adolfinho – como era popular – corria desde jovem pelaorla de Ipanema, muito antes do MP3, pedômetro, monitor cardíaco, tênis Nike. Começou a correr na época em que se corria de chinelo ou descalço. Correu tanto que se tornou um bom atleta de beira de praia, correu a ponto de dizer que corria mais que qualquer morador de Ipanema. Correu muito. Correu. Correu demais Aldolfinho. Porém, como dita o clichê da vida, o tempo correu mais que ele.

Com 72 anos, possuía duas imensas paixões que começaram juntas: correr e enaltecer mulheres. Quando deu os primeiros passos pela orla de Ipanema e viu a primeira morena bronzeada correndo em sua direção, não resistiu: sua linda! Nos primeiros segundos, Adolfinho ficou rosado, vermelho, vinho! Depois passou. Até que veio uma loira e ele repetiu a dose: sua linda! Mais alguns segundos de timidez e pronto, passava. Ao final do dia, já estava passando cantadas a torto e a direito e ria, vencera a timidez. A beleza seria enaltecida, verbalizada, babada…

Velho babão! Esta era a devolução mais comum às suas cantadas. As mulheres, com o tempo, ficaram mais respondonas, mas quem disse que isto não lhe agradava? Gostava daquelas que enchiam a boca com palavrões, espraguejavam, perdiam a linha. Pensava Adolfinho: isto era sinal de potência sexual, energia acumulada. Ele também foi se adaptando à modernidade, foi adequando as cantadas à época: tchutchuquinha, popozuda, delicinha…

O coroa não era burocrático, classista, segregador, elitista, sectário ou religioso na hora de passar cantadas no mulherio. Cantava e pronto. Via beleza por todos os lados, em cima e embaixo, bastava ser mulher: morena, loira, negra, ruiva, asiática, careca, cabeluda, gorda, magra, anoréxica, obesa, alta, baixa, média, anã, dentuça, banguela, deficiente, cheirosa, fedorenta… e até Iasmim. Logo Iasmim – jamais esqueceu desse nome. A madame estava de canga florida, chapéu, óculos escuros… Oi, linda. Foi o que disse, se é que chegou a dizer oi. Ela se sentiu privilegiada, diferente, exclusiva e fez o que há muito ninguém fazia: desejou o velho. Transtornada, a madame correu de volta pra casa e se ancorou no sofá até que o marido chegasse trazendo a noite.

É um absurdo, Oswaldo. Um absurdo! Nem na praia se pode mais andar! Velho tarado! Doente! Deve ser até pedófilo, se bobear… estuprador! Como consegue falar essas coisas pra mim? Não admito, Oswaldo! Tanta vagabunda no mundo e ele vem falar sacanagem pra mim? Ah, não! Você vai ter que tomar alguma providência, Oswaldo.

Oswaldo era ciumento de nascença! Era de escorpião com ascendente em câncer, descendente em leão cruzado com touro chifrado por capricórnio. Oswaldo era bicho ruim. Bicho ruim era bom. Oswaldo era bicho horrível de péssimo. Mesmo sem ter razão, já tinha mandado pra cova muita gente, imagina agora que estava se achando dono da verdade.

O sol fritava e Adolfinho corria. A cada passo uma cantada. Pé direito. Sua linda! Pé esquerdo. Sua gostosa! Pé direito… Até que esbarrou com Oswaldo ou Oswaldo esbarrou com ele, a mesma cara descrita feita pela mulher. Então é você o velhote tarado que fica assediando a mulherada, né? Vem comigo, entra nesse carro.

No banco de trás, dentro do Corola preto de vidro fumê, estavam dois mascarados. Oswaldo com uma voz fria e grossa anunciou: vamos dar um passeio até a Barra, vovô!

Mais que uma surra, o que Adolfo levou foi uma lição. As pauladas foram pra nunca mais mexer com mulher dos outros. O tapa na cara foi pra nunca mais falar sacanagem. Os chutes no estômago foram pra nunca mais mexer com mulher nenhuma e os pontapés no saco serviriam pra aprender a ser velho. Adolfo não esqueceria mais dessa escola. Vendo pelo lado do aluno, que mal fazia ele em elogiar o que era belo? Que mal fazia em ter um espírito jovem? Que mal havia se às vezes ganhava até um sorrisinho… um sorrisinho e agora muita porrada.

No fim da tarde, o Corola voltou à orla de Ipanema tão despercebido quanto chegou. Tá entregue, vovô. Abriram a porta e jogaram o velhote todo roxo sobre as pedras portuguesas. Ficou ali, estirado entre a lucidez e o desmaio. A primeira que o avistou foi uma preta muito bonita que tomou um susto, apiedou-se e correu em direção ao velho enquanto pegava o celular para ligar pra emergência e pra polícia. Ajoelhou-se ao lado do vovô todo moído e, em pânico, perguntou:

– O senhor está bem?

– Agora tô, sua linda, agora que tô aqui no céu vendo uma anjinha. – E desmaiou.

Antunes
Ilustração: Rogerio.

Rio de Janeiro, 1 de março de 2011

Crônica Falada 9 – Praia de Ipanema

Viajei pra bem longe de mim: Ipanema. Tentei desvendar as divisões da Praia, os aplausos ao adeus do sol e as versões da Girl from Ipanema.

Fica mais um vídeo:

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de abril de 2011