Desculpo-te. Desculpa-me, Lapa.

Desculpa-me, Lapa, não gosto de ti.

Primeiro que, diferente de muitos, nunca fui lá muito devoto de música. Por sorte há João Cabral de Melo Neto para qu’eu possa dizer que isto não é desumanidade ou burrice. Não tenho paciência pra reggae, pop, rock… até que gosto dum samba, gosto sem morte de amores… as outras músicas que gosto num tocam na Lapa acho não. A Lapa parece-me muito excessivamente musical demais, aquelas infinitas tribos que não sei reconhecer, aqueles sons que não sei reconhecer, aquilo tudo que toca não sei pra quê.

Segundo que não bebo, não. Francamente, até bebo um vinhozinho, muito às vezes e só. Bebo tão pouco que posso dizer que não bebo. E na Lapa todo mundo bebe muito e bebe mal. Bebe umas bebidas excessivamente doces, excessivamente fedidas e depois mijam as bebidas excessivamente doces e excessivamente fedidas por qualquer lugar.

Terceiro que eu não fumo, não. Tenho um cachimbo (na verdade tenho dois). Uso os cachimbos só pra brincar de bolinha de sabão. Não tenho nada contra cheiro de cigarro, mas me enjoa aquele cheiro meio doce de maconha. Na Lapa tem muita fumaça e eu sempre tive muita bronquite.

Quarto que não gosto de virar a noite acordado e, como não tenho carro, não arrisco voltar no meio da noite. Então, se fosse um folião, voltaria de dia, só quando a noite não teimasse mais em ficar acordada. Mas isso não é pra mim não, às 22 horas estou caindo de sono, quero só me enroscar no edredom, quero só esquecer de mim.

Quinto que sou avesso à prostituição. E na Lapa ela está em cada esquina, em cada falso sorriso de travesti e nas mocinhas tão jovens e tão ébrias.

E como vingança, a Lapa me nega suas escadarias azulejadas, seus sobrados velhos, suas ruas machadianas, seu aqueduto branco… assim ficamos quites.

Desculpo-te, Lapa, porque não gostas de mim.

Antunes,
Rio de Janeiro, 3 de abril de 2011

Os Arcos

A iluminação dos arcos da Lapa: hoje ponto turístico, outrora aqueduto

Nô e eu diante dos Arcos

Paredes pintadas na Lapa

Comida de malandro

Beliscando, se passa as noites na Lapa

A Escada de Jorge Selarón por @priscillacioly

Detalhes da escadaria, foto de @priscillacioly

5 Respostas para “Desculpo-te. Desculpa-me, Lapa.

  1. É a declaração de desamor mais romântica que eu já li. Lindo texto! Parabéns!

  2. Muito bom!

  3. eu bêbo na Lapa. no show na Lapa. indo pra Lapa. voltando para a Lapa. a Lapa é a minha casa. a Lapa me entende. a Lapa me falou. a Lapa..

  4. Eu nunca fui à Lapa de noite, pra ficar na vida boêmia. Acho periogoso demais e deve ser um lugar mt feio e fedido no escuro da noite. Mas fui de dia… perigoso ainda é, mas é mais agradável, mais arejado, sei lá. Gostei de visitar a escadaria de Selarón, achei lindo o trabalho com os azulejos. Bom, um dia aprendo de vez se gosto da Lapa à noite ou se não, mas acho que ela não vai com a minha cara. E quanto a você, senhor Vinícius, parece-me que gostas menos das pessoas que frequentam à Lapa do que a própria Lapa!

  5. Amo a Lapa. Amo a vida boêmia. Quero a Lapa assim e não uma Lapa engomada, turística, sem alma de Lapa. Pode parecer estúpido, retrógrado, sei lá! Deve ser mesmo errado! Mas é o meu sentimento. Agora, venha cá! Um homem sensível como você não gostar de música…Surpreendo-me!

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