O Espírito da Lapa

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Os loucos do Rio de Janeiro não estão na Colônia. Estão soltos por aí. Se olharmos com atenção, veremos que na Colônia estão os sóbrios – muito provavelmente, protegidos dos loucos que infestam a cidade. Vá ao Centro do Rio de Janeiro, numa sexta-feira à noite, verás os ébrios, os apaixonados, os enfermos dançantes. Um professor universitário à mesa dum bar diria como numa sala de aula: é o espírito dionisíaco. Merda nenhuma! Entenda o Rio de Janeiro como é, bem longe das universidades, nas carnais madrugadas da Lapa. Os espíritos ali são outros: É o Exu de camisa listrada, chapéu inclinado, cigarro na boca que sobe as escadas. É a Pomba-gira que roda a saia, que canta gritando, que cospe no chão. Na Lapa, à noite, todo espírito é feito de carne. Quando começa a música, até São Jorge desce da lua pra dançar.

Próximo aos arcos, Chico, Antônio e Eduardo subiram as escadas dum sobrado desses qualquer.  Era cedo, inda ia dar meia-noite. Atravessaram as nuvens de fumaça pra se recostar numa janela com muito mais tempo de vida que a idade dos três somada. Já sabiam o que esperavam: muito além da música, da bebida, da maconha – era o que garantiam Antônio e Eduardo ao Chico que estreava na noite. Muito melhor que qualquer vídeo-game, punheta, seriado de tevê, explicavam novamente, pra falar a língua do rapaz.

Por volta de duas da manhã, imagina-se o barulho dos saltos já que não se pode ouvi-los por causa da música. Cabelo escorrido, seios imensos, bunda ainda maior – falsa claro, tão falsa quanto os seios, tão falsa quanto tudo naquela noite. Cláudia. Caminha até os amigos, com a presença de uma locomotiva que lança a sua fumaça no ar. Cumprimenta-os. Apresentam-lhe o novato. Ele, pela timidez, lhe diz Francisco. Bebem ainda mais, fumam ainda mais. O dia vai ficando mais próximo, mas a vida se torna mais escura. Deixam-nos a sós, recostados à parede.

Apesar do decote, da saia curta, do cheiro de álcool e do cigarro, imprensada à parede, Cláudia era uma puritana. Bem falaram os amigos: diante da platéia era cheia de não-me-toque, mas no quarto, vista só por dois olhos, se transformaria num furacão. Chico já perdera o recato, já multiplicara as mãos, já não era mais ele e queria Cláudia como seu ebó. Bastou dizer uma vez: vamos pra outro lugar. Antes de dizer sim, já estavam lá. Era um quarto modesto, muito aquém de Cláudia, um quartinho como dum puteiro: uma cama muito usada e um banheiro pra dar conta da sujeira.

Ele estava atirado na cama, nu. Esperava Cláudia que resolvera se aprontar no banheiro. Tudo muito rápido, mas, pra ele, uma eternidade. Passados alguns breves minutos, ouve-se a porta. Surgem olhos ainda mais vivos, os cabelos escorridos pelos ombros, os seios totalmente a mostra, um umbigo perfeito, cintura fina e um piru muito maior do que o do garoto deitado na cama. Era assim que Cláudia, ou Cláudio – como prefira – já tinha tomado muita porrada na vida. Mas, a maioria dos navegantes, já que estava ali, preferia não perder a viagem.

Antunes
Ilustração: Rogerio

Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2011

3 Respostas para “O Espírito da Lapa

  1. Eu não previ o fim do conto. rs Talvez porque ainda esteja meio passada com os acontecimentos de Realengo. A surpresa foi boa. Estava mesmo precisando de um pouquinho de alto astral. Beijos!

  2. Sabia que ia dar nisso! Adorei o texto! Sobretudo, a parte dos espíritos carnais!

  3. Sacanagem…tirando o desfecho sinistro vc estava realmente descrevendo uma deusa…kkkkkk

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