Arquivo do mês: maio 2011

O Profeta de Mucuripe

Fortaleza estava vazia como nós. Era páscoa e o profeta havia ressuscitado louco. Falava palavras sem sentido como a vida. Na cidade grande, ninguém ouve ninguém e todo profeta  contemporâneo bem-sucedido tem que ter um lado cibernético. O louco à minha frente era apenas um Antônio Conselheiro entre o cimento, um Padim Ciço com calça jeans e cheiro de fumaça. Um teísta que crê além-Mamom. Milagreiro que faz a conversão da água em mijo. O sertão não vai virar mar e o mar jamais virará sertão! Prega para o mar, mas o mar não ouve. Prega para a areia, mas a areia não ouve. Prega para as árvores, mas as árvores não ouvem. Prega para as pessoas, mas as pessoas não ouvem. Ouvir é um ato exclusivamente humano. Areia, árvores, pessoas não ouvem. Só o profeta é humano, por isso ele fala: pra se escutar, pra salvar sua alma em plena orla de Mucuripe.

– Que se salve. Segui meu caminho aguardando meu inferno.

Antunes
Fortaleza, 26 de maio de 2011

A Gangue do Aranha

Domingo de páscoa.

Saindo em Meireles, virando à esquerda, passando pela região da feirinha, passando pelo monumento de Iracema, fui em direção à Ponte dos Ingleses. Ao chegar, vi o Pirata e juro que ouvi umas risadas estrondosas como a do Almanegra. Nas casas antigas, num canto esquecido da praia, o vento se debatia sozinho e ruidoso, querendo trazer de volta a alma dos mortos arrastados por Iemanjá. Apertei o passo antes que a tarde se fosse. Ajeitei minha carteira e a câmera no bolso. Era eu e mais ninguém, até que surgiu a voz:

– Caiu! Caiu! Caiu!

Olhei para trás e vi dois homens: um barbudo com cabelo comprido, o outro cego dum olho. Insistiram: caiu aqui do teu bolso. Me aproximei agradecendo. Quando cheguei perto, não era nada, estava dado o golpe.

– Ih, foi mal, mané. Mas, aproveitando que tu tá aqui, bora bater um papo.

Os dois me conduziram até um banco na beira da praia. Minhas pernas bambeavam enquanto eu fingia não estar nem aí. Os olhos do barbudo de cabelo comprido ardiam em fogo.

– De onde cê é?

– Sou do Rio.

– Ih, que coincidência, eu também sou. Nasci na Ilha do Governador. Que cê faz?

– Sou professor.

– Cê fuma um bagulho?

– Não.

– Eu também parei.

– Ah…

– Aí, vou te apresentar uma parada.

O sujeito meteu a mão no bolso como se fosse tirar uma arma, o caolho lhe dava cobertura. Ao invés disso, sacou três aranhas e um escorpião feitos de arame.

– Tá vendo essas aranhas, cumpadi?

– Tô!

– Então, rapá! Essa é a melhor aranha que tem, pois não morre nem quebra.

Com a mão fechada ele lascou uma porradaça no bicho que permaneceu exatamente como estava. Eu, seguindo o seu exemplo, fiquei imóvel e mudo.

– Então, cê vai ajudar a gente. Deixa 20 Reais e leva os quatro bichinhos.

– Não tenho.

– Como não tem?

– Não tenho, cara. Sou professor, não tô aqui de turismo.

– Cara, você tá querendo dizer que meus bichinhos não merecem seus 20 Reais?

– Claro que merecem, mas não tenho. Desculpe.

Nisto, surgiram quinze meninos de rua sem camisa, cabelos embaraçados, sujos, ferozes como um bando de babuínos, espertos como capitães de areia. Rapidamente, eles nos farejaram e nos rodearam. Se minhas pernas já estavam bambas, perderam a força de vez. Sentei no banco. Ficamos os dois artesãos de aranhas e eu rodeados pela ciranda de meninos. Senti-me o mais rasteiro degrau na hierarquia alimentar. Só não contava que meu predador natural, o Aranha, fosse me salvar daquele cardume de crianças. Foi assim: de repente, aquele esquisito homem barbudo e cabeludo, escoltado pelo seu amigo, começou a gritar:

– Fora! Fora! Fora! Saiam!

Ele gritava e se debatia em desespero, como um leopardo atacado por babuínos. Fazia uns sons guturais , pulava e gritava no ar: grrrrrrrrrrrr. grrrrrr. Eu esperava o momento em que fosse acordar daquele pesadelo, mas isto não acontecia. Depois de uns demorados segundos, os meninos debandaram. O Aranha voltou-se pra mim:

– Os nativos daqui não são de confiança. Agora já podemos voltar pro nossos negócios.

Abri a carteira, mostrei pra ele o lado esquerdo em que estavam à vista 4 Reais. O lado direito escondia os 20 Reais que ele queria. Tentei continuar com a tapeação:

– Cara, só tenho 4 Reais, é o que posso te dar.

– Então beleza, passa isso aí mesmo.

– Mas eu levo uma aranha – estendi a mão e peguei.

– Tem uma moeda aí que vi na tua carteira. Passa aí.

– Toma, são só 50 centavos. Posso ir agora?

– Mete o pé.

Assim que saí, vinha outro caminhante distraído. Era um sujeito vagaroso e incerto como uma mosca. O calçadão de Iracema era como uma imensa teia de aranha. Páscoa é dia de banquete.

Antunes
Rio de Janeiro, 23 de maio de 2011

Minha caminhada pela Orla

Rumo ao Pirata, o cenário é composto por mar que quebra nas rochas e um navio abandonado

A Orla de Fortaleza vazia, me assistia a andar junto aos fantasmas

E a cada passo as ruas se tornavam mais vazias e eu mais solitário

Iracema, símbolo de Fortaleza

O vento quebrava nas casas abandonadas

De frente ao mar está o PIRATA de Fortaleza

Eu diante do Pirata. Toda segunda-feira, dizem: cerveja, prostituição e música.

O local onde fui surpreendido pela Gangue do Aranha.

Assim que me livrei deles, corajosamente, me distanciei e tirei uma foto, são aqueles que estão no banco do canto inferior direito, já aplicando o golpe em outro

A Aranha de arame que me custou 4,50 no golpe que levei em Fortaleza

Recordação

Andava pela orla de Iracema. Buscava um acesso até a areia, algum espaço que não tivesse restaurantes. Era domingo de páscoa, o calçadão, a areia, as cadeiras dos restaurantes, tudo estava vazio.

– Oi, tudo bom? – disseram

– Oi.

– Pode tirar uma foto minha? É pra guardar de recordação– era um turista de meia idade.

– Claro, posso.

– Você é do Rio de Janeiro?

– Isso.

– Sotaque lindo.

– Ah…

– Estudei lá, em Seropédica.

– Ah, legal…

– Você vem sempre aqui?

– Não. A câmera, por favor…

– Ah, claro…

– Enquadra aqueles cruzeiros atrás de mim…

– Ok.

– Quando for tirar avisa pra eu sorrir.

– Pronto, confere se ficou boa.

– Não precisa, sei que está ótima.

Depois, ele apagou as fotos da câmera. A única recordação que queria era ter as digitais de alguém em algo que fosse seu.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2011

À noite, aqui, se levanta a famosa feirinha de Fortaleza

Buscando um espaço na areia entre tantas barracas e quiosques

Foi aqui, exatamente com este fundo, que fotografei o sujeito, só que com a máquina dele

O litoral de Fortaleza e meus horizontes sempre mais ou menos tortos

A primeira impressão

Minha vó dizia que a primeira impressão é a que fica. Hoje, com tão radicalizada modernidade, não sei se a gente pode dizer isso. Talvez seja a primeira impressão justamente aquela que não fica. Tenho uma impressora HP lá em casa e, há muito, já joguei sua primeira impressão fora. Já tive Epson, Lexmarc e nenhuma primeira impressão permaneceu. Permaneceram algumas outras: fotos que imprimi, crônicas, poemetos… a primeira, aquela maldita página de teste que gasta desnecessariamente nosso cartucho, não, esta nunca guardei.

E tomara que minha avó esteja mesmo errada, pois a primeira impressão de Fortaleza foi nada boa. Tomei um taxi, fui pro hotel, deixei a mala e saí pra andar na praia de Meireles feito turista glauberiano: idéias na cabeça e máquina à mão. De repente ouço: ei, ei! Empalideci, pois percebi que os eieieiês não soaram bem. Virei-me e vi dois homens. Disse: pois não. E um deles respondeu: amigo, volte pro hotel e deixe sua máquina fotográfica. Aqui tem asssalto demais, há uns meninos que andam em bando assaltando, não tem dez minutos assaltaram um turista ali.  Agradeci, virei as costas, fiz que ia tomar o caminho do hotel. Quando vi que não me observavam mais, retomei meu caminho, com minha máquina fotográfica à mão. Afinal, se há obediência não há história. Aprendi isto, também, com minha avó, quando me lia a chapeuzinho vermelho.

Antunes
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2011

A orla da praia de Meireles é tomada por restaurantes

Calçadão de Fortaleza vazio em dia de Páscoa

Pelas linhas dum e-mail conheci Fortaleza

O começo de uma viagem não é o rodar da chave de um carro na ignição, não é a decolagem, não é a saída do trem. O começo da viagem é imaginativo, é quando nosso corpo está sentado no sofá e, mentalmente, já pisamos outras calçadas, dobramos outras esquinas…

Felipe é um amigo que, durante um tempo, morou em Fortaleza. Quando me disseram que eu iria pra lá, foi a primeira pessoa que lembrei para me ajudar a construir imagens daquela cidade. Cordialmente, ele me escreveu um e-mail com suas impressões. Foi ali que comecei a viajar. Os primeiros passos que dei por Fortaleza foi na Fortaleza do Felipe; os primeiros lugares que conheci, foram os lugares que o Felipe conheceu e, ao final do e-mail, senti saudade da Fortaleza em que eu sequer havia estado. Abaixo, as suas palavras:

Fortaleza é uma cidade pequena com elementos provincianos arraigados na calçada e na mente do fortalezense, mas que aspira a grandezas como ser uma das maiores do nordeste, ou alguma outra dessas idiotices classistas…

Bom, os hotéis são na praia. Se alguém quiser lhe instalar na praia do futuro: fuja, corra, suborne alguém, mas não fique hospedado lá de jeito nenhum!  É uma grande favela onde a praia é bem frequentada (algumas barracas, já digo quais) durante o dia, e a noite, é um mar inteiro de assaltos. A barraca p/ ficar é a crocobeach ou vira verão. Qualquer outra não valerá pra você turista. No CE a praia não é democrática, aliás, no nordeste inteiro. Praia é praia dentro da barraca-restaurante. 

Todos os restaurantes da Av. beira mar valem a pena. Custo benefício é no Gepos. Recomendo também a sorveteria 50 sabores (tem mais de 50 sabores). Cocobeach é um ótimo restaurante na Varjota. Esse é bom bairro de restaurantes. 

Como você vai domingo, segunda, o pirata abre. É uma casa famosa na cidade – para o bem e para o mal. Todo o turista já ouviu falar. Se for, possivelmente encontrará muita prostituição infantil, infelizmente. Só abre segunda. Aliás, lá tudo tem dia certo para abrir. Simples assim. A “lapa” deles se chama Dragão do Mar, tem bons restaurantes, shows ao vivo, Unibanco Artplex, exposições, acrópoles, enfim, você deve gostar de lá. O movimento é maior no final de semana. Se for, conheça o Café Santa Clara! Esse lugar permeia meus sonhos até hoje.. 

Se tiver tempo, vale comer um carneiro no Carneiro do Ordones, restaurante famoso e preço médio. Existem outras comidas típicas. Comida no CE é em média a metade do valor do Rio. Basicamente tudo é mais barato (alguns passeios não). Falando em passeios, recomendaria o das “três praias”. Fica no leste e você termina com a sensação de que conheceu as praias do estado. Tem aquelas praias de novela. Custava R$ 50. É o dia inteiro. Cumbuco é a oeste. Muito famosa, mas muito, muito farofada. No oeste, só as de bem mais longe, 50, 60 km da capital. Jericoacoara fica no oeste (Valinor?), mas são 4h a 6h de viagem. Por experiência, ir p/ lá só vale ser for p/ ficar 3 dias – no mínimo! 

O shopping p/ se visitar é o do coroné Jereissati, o Iguatemi. Tem tudo e parece o BarraShopping. Émais próximo da Av. Beira mar, onde espero que fique hospedado. Outro que fui muito é o Aldeota Shoopping. Bom também. 

O mercado central é uma opção no centro da cidade para ser conhecido. Fica ao lado da catedral metropolitana que tem estilo gótico marcante. Mas, para comprar as “coisas” do lugar, só andando pelas ruas do Centro mesmo. Pq no mercado os homi tão preparados para turista. A feira da Av. beira mar (todo santo dia a partir das 19 h) é mais preparada ainda para turista. Cearense negocia muito mais que carioca, no centro então, nem se fala. Se passar pelo centro, visite também o teatro José Alencar, vale muito a pena. 

E, lembre-se, onde tem restaurante, gente menos pobre, shopping e afins; terá alguém pedindo dinheiro. Isso é uma infeliz constatação.  

Não é tudo que sei, mas acho que vai te ajudar a ficar esse pouco tempo. Se tiver dúvidas, pode mandar. 

Boa sorte, tudo de bom! 

Trago muitas saudades de lá. 

Muitas lembranças boas de um tempo que hoje se chama meu passado. 

Abraço!

“eita macho véio!”

Felipe Luiz da Silva, 16/04/2011

 E gostei tanto de viajar pela carta do Felipe, que pensei em desistir de Fortaleza pra ficar só com as suas imagens.

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de maio de 2011

rio de janeiro a janeiro 2 – a cidade conhecida

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Aqui está disponível o segundo livro virtual do blog Crônicas dumas Viagens com 10 contos de Vinícius Antunes ilustrados por Rogerio. Abaixo, seguem os textos disponíveis no livreto virtual.

  1. O suicida do Cristo
  2. A 5ª obra
  3. A mãe do árbitro
  4. O gari da Sapucaí
  5. Conversas com Drummond
  6. O espírito da Lapa
  7. O passador de cantadas
  8. Narciso
  9. O jardim dos sentidos
  10. História Real

A distribuição deste material é inteiramente gratuita, sendo apenas solicitado a menção dos nomes de seus autores. Agradeço, desde já, a divulgação.

Obrigado,

Vinícius Antunes da Silva

História Real

Este texto foi publicado simultaneamente por César Tartaglia no blog No Front do Rio do Globo.com

Outrora a Quinta da Boa-Vista era a morada dos nobres. Hoje, durante a noite, até o mais vulgar dos homens teme passar por lá. Do lado de fora, legiões de travestis, prostitutas e mendigos dividem a calçada. Dentro, a escuridão predomina no parque e rodeia o antigo palácio real. Ouvem-se uivos dos animais do Zoológico e sons macabros vindos do presídio Evaristo de Moraes.

Às portas do museu, suando como fosse dia, montavam guarda Marcelo e Bernardo:

– Já pedi a troca de turno, Bernardo.

– Tá com medo daquela coisa?

– Tenho dois filhos, sei lá o que pode acontecer.

– Olha, lá vem ela de novo.

– Parece o fantasma do rei.

– Que rei?

– O tal do Dom Pedro que morou aqui. Nunca viu num livro de história?

– Então fale com ele,  já que tem tanta intimidade.

– Quem está aí? Pare agora mesmo! Identifique-se.

– Sumiu.

– É sempre assim.

A história começou a correr. Primeiro entre a administração do museu, depois entre os funcionários da Quinta da Boa Vista, em breve era a história mais comentada em cada bar de esquina de São Cristóvão. Chegaram até a comunicar dona Isabel Maria Josefa Henriqueta Francisca Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach, ou seja, a atual sucessora de Dom Pedro I. Entretanto, ela disse não querer saber de espiritismo e que não daria dinheiro nenhum a ninguém.

Marcelo não conseguiu a troca de turno. Bernardo sequer tentou. A princípio, foram noites difíceis. O fantasma do imperador passou a fazer visitas cada vez mais freqüentes. Chegou-se a pensar que alguma coisa ruim deixava sua alma inquieta, que chegava o fim do mundo, que trazia algum aviso importante ou, até mesmo, que queria vingar-se como algum rei dinamarquês. Marcelo e Bernardo acompanhavam todas as noites a movimentação do fantasma de Dom Pedro I. Surgia ao lado da estátua de seu filho, depois sumia. Reaparecia carregando em seus braços alguma prostituta, depois sumia. Os guardas pensaram que o imperador voltava ao mundo para buscar almas femininas, mas não. Quando saía o sol, buscavam ao redor do palácio e não encontravam corpo algum. O passar do tempo trouxe o costume e a coragem. Numa noite de lua graúda, Marcelo e Bernardo seguiram o espírito que carregava em seus braços mais uma dessas mulheres da vida. Caminharam a passos silenciosos até o matagal de trás do museu e, ao chegar lá, viram aquela cena sobrenatural: Dom Pedro nu a amar a prostituta. Depois do evento revelador, Dom Pedro passou a tratar os guardas como se fossem seus súditos mais leais. Jogavam cartas quando Pedro se desentendia com as mulheres e ele lhes contou que não voltava a este mundo por dor, vingança ou ódio. Voltava apenas porque se cansara da morte e lhes disse que não conseguia levar a eternidade sem amar as mulheres.

Antunes
Ilustração: Rogerio
Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2011

Crônica Falada 12: Quinta da Boa Vista

Voltei à Quinta de Minha Infância para esta Crônica Falada. E, talvez, só eu no Rio de Janeiro goste verdadeiramente de lá. Recordei o saudoso macaco Tião e revelei segredos irreveláveis da antiga morada da Família Real.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de maio de 2011

Tanque

Texto de Ramon Ramos e ilustração de Cristiano Pessoa – PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

lá não se aprende a pedra: lá a pedra, 
uma pedra de nascença, entranha a alma.
João Cabral de Melo Neto 

Nico fugiu da turma. Já tinha se irritado com aquela excursão, cheia de oba-oba. A professora se achava uma zoóloga, cheia de pose. Só não sabia que era zoada pelas costas. Pela frente também, nem fazia cara feia. Todo mundo queria ver mamíferos, Nico nunca entendeu essa tara por leite. Mania de leões, tigres, elefantes. Então, se escondeu atrás de um muro e deixou a galera ir. Quando levantou, viu o lago que parecia vazio. Mas não era. Teve de apertar os olhos e notar, como quem procura palito no agulheiro, quais bichos estavam ali. Jacarés. Difícil encontrar, nem se mexem. São uns preguiçosos sedentários. A maioria deve ter problema cardíaco, pensou Nico. Ser personal trainer de jacaré deve ser pior que tirar leite de pedra. Se bem que eles são meio pedregosos, casco duro, alma de ferro. Jacarés são místicos, pensava Nico. Uma cara de passado, época de dinossauros. E ainda ficam aqui, sendo atuais. Devem ter feito trato com o Demo. Pela imortalidade. Por isso não envelhecem: armaduram-se de pedra. Uma gritaria perto da barraca de sorvete anuncia: “garoto se perde de excursão”. E agora? Nico não quer se encontrado. É tão difícil entender? Olhou para dentro do tanque, pulou. Acho que ninguém viu. Não teve correria, movimentos bruscos, desespero. Só paz. Nico sentia-se apossado de aceitação. Queria ficar mais leve que o mundo. Podia. Chega de ser levado pela maré! Ficou deitado, olhando em volta. De barriga para baixo, roçando o chão de terra e mato. Jacarés são bichos muito tediosos. Nico discordava: achava-os feitos de tarde. Tarde mineira, tarde de interior puxando o “r”. Tarde depois do almoço, barriga cheia e lombeira tomando conta do corpo sobre a rede. Tardinha de temperatura amena, com brisa leve espalhando o canto das cigarras. Trem bão ser jacaré! Será que todos são do interior? Enfim, Nico deixou essas questões de lado. Estava sentindo um frio. Estranho isso. Saiu da sombra e o corpo ficou quente. Frio. Quente. Quente. Frio. Parecia jogo de vivo ou morto. Nunca fui feito de termômetro, troço esquisito. Viu então o jacaré de boca aberta. À espera. Quando surge um passarinho de blush e pernas finas a lhe palitar os dentes. Nico quase riu. É um passalito! – enquanto segurava o riso. Será que o jacaré deixa a sua mulher usar fio dental? Acho que não. Vai que ela vira piriguete, mocreia, crocodelícia? Se resolver dançar funk, então, será expulsa da comunidade! Danada! Mas não pareciam se irritar os jacarés. Sentia serenidade vindo daquele chão, tranquilíssimo até que dormiu. Braços feito travesseiro, deitado atrás de um tronco. Nico não vestia cinza. Nem camisa verde. Agora, sonhava. No sonho, via de fora. Plateia assistindo ao show, ao filme, aos movimentos prévios passarem aos poucos. Era a sua vida. Sua história. Pai, mãe, vó, irmãos, amigos e tudo o mais. Brincadeiras e tristezas lado a lado, misturadas no bolo fecal do passado. Ia largando pra trás. Nico não foi feito pra isso, pra vida comum. Custa aceitar? Agora, ele se vê por si mesmo, na última despedida, sem choro nem irritação. Tinha um sorriso meio estranho, meio torto. Ninguém entendia. Nico os segurava na lembrança: pipa contra ventania. Dava linha para não arrebentar. Até que ficou distante demais. Perdeu de vista. Esqueceu e acordou. Estava pelado. Nu sobre a terra, não se mexia. Olhava de um lado para o outro, jacarés acompanhavam aquela paz. Seu coração batia de menos, sem pressa pra vida. Não sentia saudades. Pessoas raras apareciam para ver o tanque. Mas não reparavam. Nico, à espreita, gargalhava mudo, sentinela, imóvel. Não se tornou um jacaré mas estava entre os seus. Foi mais à frente. Condensou a vida e a fez mineral. Tinha a matéria rochosa dos jacarés. Não era um. Virou pedra. Nesse mundo de batidas rápidas e gritarias, me deixem ser jazz. Largou o resto, virou sólido, vida real. Nico sempre quis ser poço em vez de mar. Palavra estancada, sucinta, lacrada. Pedra. Depois de um tempo, as pessoas até reparavam nele dentro do tanque. Viam algo diferente. Sorriam com os olhos, nada diziam.

Não precisam perguntar para entender. Meu silêncio é poliglota.

Texto de Ramon Ramos
Ilustração de Cristiano Pessoa da Cruz
Rio de janeiro, 7 de março de 2011

A Quinta de Minha Infância

É bem difícil achar quem diga isto, mas eu digo: a Quinta da Boa Vista é um dos meus lugares favoritos no Rio de Janeiro. Não porque seja realmente melhor do que outros, mas porque me remete à infância e nossa infância é sempre a melhor infância, os lugares de nossa infância são sempre os melhores lugares, as estórias de nossa infância são sempre as melhores estórias.

Recentemente, me surpreendi ao ver o desenho Rio: lá estava a Quinta. Dentre Corcovado, Pão de Açúcar, Sambódromo, Lapa, acharam-lhe um lugar.  Quando a vi, já não via mais o desenho Rio, via o desenho de mim mesmo que passava em minha memória. Vi as curtas manhãs de sol em que meu pai me levava para correr no gramado da Quinta; vi os macaquinhos de brinquedo, patos de madeira, bolas gigantes que os vendedores vendiam na Quinta; vi os cachorros-quentes quase frios; vi cada jaula de animal; vi cada peça do museu e vi as letras dos créditos do filme que subiram ao acender das luzes do cinema.

Foi na Quinta que meu pai me ensinou a viver outras épocas: “quando ouço o ranger do piso de tábua corrida, imagino Dom Pedro andando por este palácio com aquelas roupas pesadas e sem tomar banho.” Talvez por isto eu nunca tenha gostado de tomar banho, para parecer o imponente imperador que andava pelas manhãs de minha infância, o imperador João Felpudo como me rebatizaram meus pais. E assim imaginei Dom João comendo suas coxas de galinha com as mãos em uma imensa mesa de jantar; imaginei Dom Pedro I a rolar com as escravas pela grama; imaginei Dom Pedro II a chorar escondido porque não queria ser rei de lugar algum que não fosse seu próprio quarto.

Visitei incontáveis vezes o zoológico e ainda o visito pelo menos uma vez ao ano. Sei a ordem das jaulas de cor e para o fastio e treino de minha esposa, vou puxando-a pela mão como fará o filho que teremos um dia. Falo sobre cada animal, leio pela milésima vez cada plaquinha e explico o tamanho da língua das girafas; explico qual a diferença entre um camelo e um dromedário; explico porque o condor me parece um animal tão assustador; explico quais são os micos, os chimpanzés, os babuínos, os orangotangos; e ainda explico que os tigres têm listras e as onças pintinhas.

Volto à Quinta da Boa Vista, algumas vezes como turista, para tirar as mesmas fotos nos mesmos lugares e ainda assim ser totalmente diferente. Volto à Quinta da Boa Vista como mero passante, igual fiz durante meses de minha vida quando saía do trabalho e ia a pé para a faculdade, só para ter que cortá-la por inteiro. Volto à Quinta da Boa Vista constantemente em minha memória; volto à Quinta da Boa Vista toda noite quando durmo: é um lugar infantil, sem violência, sem prostituição e já não há mais Quinta da Boa Vista possível para mim que não seja a Quinta da Boa Vista da voz de meu pai, da loucura de minha memória, das fotos com meus primos, da miniatura de minha irmã, das mãos dadas de minha esposa, do que sou.

Antunes
No avião, saindo do Rio, indo a Fortaleza, 24 de abril de 2011.

Eu com o Macaco Tião, um clássico e uma foto de pôr inveja em qualquer um.

Minha irmã, eu e a bunda do elefante

Com a família imperial diante do palácio da Quinta

Andando pela Quinta da Boa Vista

Uma foto clássica na minha vida, diante do São Francisco do Zoológico (com minha irmã e meu primo Leo)

Agora mais velho, novamente com o São Francisco do Zoo

Mais velho ainda, com o São Francisco do Zoo

Natália encarando um burgão maior que ela

Cobra

Jacarés

De batom

Emanoelle posando do lado da lixeira em forma de arara azul

Novamente com o elefante

Nós diante do orelhão onça

Com o macaco Tião (in memoriam)

Michelle disfarçada de lixeira na Quinta da Boa Vista

Nós somos a arca. Eu sou o Noé.

Turma reunida num pseudo-piquenique

Recitando poemas na Quinta

Nôla no Palácio da Quinta da Boa Vista

Diante do esqueleto de preguiça gigante no museu da Quinta

Nôla na Quinta da Boa Vista

Na Quinta da Boa Vista

Com a tartaruga marinha

Diante do palácio imperial

Diante da bilheteria do Rio Zoo

Diante do Zoológico

Nô e o capivarafone

Com a clássica pantera de bronze da Quinta

Trenzinho da QuintaEsqueleto de baleia no museu da quinta

Dentro da cerâmica indígena no museu da quinta

Dinossauro!