Arquivo da categoria: Aracaju – Sergipe

Uma breve saudade

O avião vai subindo, Aracaju vai se empequenecendo ao som do de Moraes que vai se declarando o branco mais preto do Brasil. O avião sobe, dá saudade deste lugar tão acolhedor, mas o medo do avião é mais forte. Breve saudade: logo me fez ver que era passageira paixão. O medo é maior. Foram três dias: no terceiro ascendo novamente aos céus, rumo a Belém. Penso que nunca pensei que existisse uma cidade tão caju a ponto de levá-lo no nome. Há caju por todos os lugares: suas lixeiras possuem forma de caju, seus monumentos são grandes cajus. Parece que há um deus Caju a soprar um hálito doce, com cica, sobre a cidade. Os ônibus cheiram a caju, as moças mascam caju, em cada rua habitam vendedores de lindos e baratinhos cajus, como se fossem de brincar, e não são? São daqueles de brincar na boca, que nos vão aveludando o paladar.

Aracaju, me lembrarei de tua areia morena, tuas águas salgadas e também morenas. Esquecida Aracaju, não te esquecerei até esquecê-la. Guardarei comigo tua gente acolhedora, professora de humanidades. Ficará uma breve saudade: ou voltarei um dia, ou me esquecerei de ti, é como fazem os homens.

Antunes – Saindo de Aracaju, rumo a Belém – 17 de setembro de 2009.

O mercado de Aracaju

Estou num lugar incrível”. Assim que cheguei ao Mercado de Aracaju mandei esta mensagem por SMS pra minha noiva. Já entrei em Feira de São Cristóvão, Mercadão de Madureira, Camelódromo da Uruguaiana e da 25 de Março, mas mesmo assim meus olhos custaram a crer. Sou apaixonado por castanha. Imagine um saco imenso, cheio delas, que nem daria pra levar na viagem. Pois é, custa apenas 15 Reais. Queria nadar-lhes como um Tio Patinhas nada em suas moedas… Meus olhos arregalavam-se a cada esquina do mercado. Carnes de boi e porco em exposição, abertas sobre bancadas ao vento, livres da vigilância sanitária. Camarões, caranguejos, peixes aromatizam parte do lugar. Há que se driblar perigosas poças. E o material mais rico do mercado é aquela gente, rindo sabe-se lá de que, da desgraça, talvez. Um povo como mercadores d’algum deserto, ávido por clientes, atencioso. Me seguiam com os olhos. Sou um estrangeiro em minha pátria, colonizador fazendo-se de vítima: Donde o sinhô é?, desculpe perguntá. Do Rio. Aaaaaaah! Em frente ao mercado, há um jumento estacionado em local proibido. Ao lado, há um Vasco que não é da Gama. Dentro, há tanta gente, tanto caju, tanta castanha, tanta música, tantos cheiros e eu, só, a me perguntar como não conhecia essa gente que é tanta e nos dizem que é tão pouca.

Antunes – no aeroporto de Aracaju – 17 de setembro de 2009.

O mercado de Aracaju visto de cima, por Deus.

O mercado de Aracaju visto de cima, por Deus.

Carnes ao vento, ivres da vigilância sanitária.

Carnes ao vento, livres da vigilância sanitária.

Jumento parado em local proibido.

Jumento parado em local proibido.

O Vasco que não é da Gama.

O Vasco que não é da Gama.

O tal do potássio

Nunca fui chegado à banana, vitamina inda vai bem, às vez. que comer mais banana, é bom pros osso, pros músculo e pro coração, é rica em potássio, diz minha mãe.  Pois adentrei Sergipe e, no meio dum mato, está a Vale do Rio Doce. Descobri que a Mina de Taquari-vassoura é a maior mina de potássio do Brasil, quiçá do mundo. Pois então, num deixe que minha mãe veje esta mensage, senão vai me dizê: come um pouco dessa terra aí, minino, come que é bom pros osso!!!

Antunes – no avião, rumo a Belém – 17 de setembro de 2009.

Mina de Potássio - a solução contra a osteoporose.

Mina de Potássio - a solução contra a osteoporose.

Eu, em busca da cura para problemas cardíacos, ósseos e musculares na mina de Potássio.

Eu, em busca da cura para problemas cardíacos, ósseos e musculares na mina de Potássio.

Pra mode alegrar minha mãe

Dialogo contigo, irmã, sangue de sangue meu, Antunes por mãe, Silva por pai. O mundo é grande, mas a internet é maior. Leia pra mãe, mas leia com sotaque de cá, porque assim as palavras são mais verdadeiras ainda que tomem mais delírio:

Num se avexe, mãe, num se aperreie, pois vô vivendo e lhe digo que as cueca andam limpas. Isso! Orgulha-te de teu filho que, só, já sabe mudá as fralda e, mais que isso, as limpa. Andam cheirosas, perfumadas mesmo. Já me confundo se são cuecas ou se são flor. Lhes dei um chêro agora mesmo e lembrei da senhora, minha mãe. Esfrego, deixo de molho e estendo pra secá. Tão cheirosas, mãe, num é burla não. Também levam água daquelas quentinha que tem por aqui, parece que já sai potável, pronta pra beber, fervidinha. Dá até pra fazê chá com a água que me escorre pelas cuecas, quentinha… a senhora ia saltá de alegria. Mãe, já num é a mala que perfuma as cueca, é as cueca que perfuma a mala. Quando a senhora vê e cheirá vai achá sensacional, só num sei o que estão achando as pias dos hotéis.

Antunes – Aracaju – 16 de setembro de 2009 – 19:10

Meia – areia

Aracaju. Escrevo sentado em um restaurantezinho miúdo como a cidade, chamado Encanto do Mar, frente à praia de Atalaia, diga-se de passagem, linda praia de Atalaia. Logo que cheguei ao hotel, deixei as malas e mal vi o quarto. Fugi, ainda engomadinho, a desvendar algum mistério daqui. Aprendi, ainda no ponto, que os ônibus de Aracaju demoram eternidades e são conhecidos por trajetórias e não por números. Cheguei à praia de Atalaia e encontrei de cara o que seja, talvez, o monumento mais famoso de Sergipe, parece um M do McDonalds, só que azul. Porém, seu êxito não está em si, mas sim na praia de infindável faixa de areia que esconde por trás. Praia morena que o mar alisa forte, mas sem intuito de machucar. Eu de sapatos e a praia a convidar. Lembrei de minha mãe falando que eu tinha poucas meias, que cuidasse delas. Mas a areia estava a chamar. Lembrei de minha mãe a arrumar a mala e a dizer te cuida como quem diz não vai aprontar para o filho bebê. Lembrei de minha mãe e via o mar. Lembrei de minha mãe e a areia dizia descalça-te. Lembrei de minha mãe a dizer divirta-te. Tirei os sapatos, lambuzei-me na areia. Chegara a Aracaju.

Antunes – Aracaju – 15 de setembro de 2009 – 18:20

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Praia do Atalaia

Medo de quê?

Desejoso de uma fralda, embarquei para Sergipe. Fui um dos últimos a entrar no avião e me deparei com uma multidão de olhos. Fui sentar-me à frente de seis deles. Dois olhos, irmãos duma boca, compartilhavam aos amigos histórias vividas pra modi de aguardar a decolagem: outro dia, amigo meu tava com uma dessas máquina que se vê foto na hora. Lá na minha terra a gente só conhecia Polaroid pra se fazê isso. Aí, o cabra falô pra nós: vô tirá foto de cês , faz pose. Então, inteligente, pensou o sujeito:  vô saí nessa também, ponho o ajuste dos dez segundo e corro ao encontro deles. Quando disparou na direção dos amigos, todos, assustados, debandaram a correr. Volte aqui, pra onde cês vão?, disse o fotógrafo frustrado. Os outros lhe gritaram: se tu que é o dono, ligou a máquina e saiu correndo, é nós que vai ficar aqui parado?

E assim num é o homem? Tem medo da morte, de altura, de escuro, de avião e até de máquina fotográfica.

Antunes – Voando a Aracaju – 15 de setembro de 2009 – 15:02