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Belo Horizonte por trás dos muros

Voltei a BH. Viagem bem distinta da outra, embora se repita o local de trabalho e de hospedagem.  Outrora, a cidade foi-me um pátio aberto a descobertas, agora é uma prisão de luxo. Vejo o sol nascer, cotidianamente, por trás das grades. O quarto do hotel é gélido, a sala de aula também, embora seja o calor que reine do lado de fora. Vivo no império do ar-condicionado e eu não sei se tenho prazer em ser seu súdito. Passo, todo dia, pela Praça da Estação, mas não me toca, sinto-me no quarto, encarcerado pelo laptop, pelo trabalho, pelo cansaço. BH, parece que já te conheci e não quero mais conhecer-te. Tuas ruas me chamam? Se chamam, não ouço. BH, deixa-me aqui no meu quarto escuro, neste frio de cemitério, pois esta noite eu morri.

Antunes
Belo Horizonte, 24 de novembro de 2009

BH por entre a janela

O frio quarto do hotel

Respaldado à Estação

Nôla,

E se entrelaçássemos as mãos? São tantos os casais respaldados às muretas que dão para a Praça da Estação. Já não há Sol, nem Lua, só nuvens disformes.  Não posso comentar que o dia está lindo, nem que a Lua brilha, tampouco sobre os desenhos que as nuvens deveriam fazer, mas não fazem, estão incomunicáveis. Só há silêncio nesse segundo. Eu despedaçaria aquele relógio elevado aos céus para ascender a ti. Aí, sim, o mundo seria mais belo, contigo no centro de tudo. As pessoas não correriam ao ver o tempo passar, andariam devagar pra ver a ti. Observo uma paisagem de prédios, daqui há mais arte de homens que de Deus. Aperta firme a minha mão, Nôla, pois o trem está passando e não quero que te leve. Confesso-te: a única certeza que tenho é que choverá, inclusive, engano-me no tempo do verbo: chove. Já sinto as gotas. Temos que ir, Nôla. Temos que deixar de olhar o horizonte. Vamos. Vou-me. Mas, afinal, por que estou a falar contigo se estás tão longe?

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2009

Vista da Praça da Estação em fim de tarde nublado

Libertas quae sera tamem

Logo que cheguei ao aeroporto de Minas Gerais, deparei-me com um bochechudo Tancredo Neves e embaixo a frase: Liberdade é o outro nome de Minas. Com manias de turista nipônico, fui andar no Mercado Municipal, a tirar fotos e a comprar regalos inúteis. Não resisti a uma camisa com a bandeira do Estado que contém a frase do título: libertas quae será tamem. Consultando o mapa com os pontos turísticos que eu havia separado, percebi que um dos principais deles era uma tal Praça da Liberdade. Liberdade, liberdade, liberdade… vi que essa é uma marca da qual o mineiro se orgulha. Podemos andar livres pelo Centro de Cidade, sem qualquer ameaça, sentimo-nos seguros, suas praças transmitem uma sensação de liberdade, ao ponto de lembrar-me um ditado medieval: “o ar da cidade cheira a liberdade”.  Durante a tarde, a igreja de São José está lotada, os parques lotados, as praças lotadas. Terá o homem se libertado do trabalho? Andando na hora do almoço pelo Parque Municipal, vi casais que se beijavam apaixonadamente entre mendigos. O parapeito da Praça da Estação é repleto de casais que se beijam: vi menina de quinze beijar homem de trinta e homem barbudo beijar homem bigodudo na boca, sob a luz do Sol. Minas, teu outro nome é liberdade! Então pra que tanta polícia montada?

Antunes, 13 e 14 de novembro de 2009 – Belo Horizonte e Rio de Janeiro

Casal entre mendigos no Parque Municipal
Um apaixonado casal sob a copa da árvore entre mendigos

A Polícia Montada desmontada

A Polícia Montada desmontada


O fofinho Tancredo Neves do Aeroporto

Um pássaro morto no Museu das Artes e Ofícios. Casual metáfora?

Turismo andarilhante pelo Centro de Belo Horizonte

Comprometi-me comigo mesmo a andarilhar pelas ruas de Belô, depois de todo dia de trabalho, para sentir o clima da cidade e conhecer os pontos turísticos. Algumas vezes arrisquei as caminhadas na hora do almoço também. Desta forma, passei pela Praça da Liberdade, pelo Centro Cultural, pelo Parque Municipal, pelo Mercado Municipal, Pela Igreja de São José e comi no famoso, tradicional e caro restaurante da Dona Lucinha. Além disso, tive o privilégio de trabalhar três dias bem de frente pra Praça da Estação, na minha humilde opinião, o lugar mais bonito e charmoso de Belô.

Poucos pontos me chamaram verdadeiramente a atenção. Um deles, como disse, foi a Praça da Estação, por possuir um clima peculiar e ter me lembrado uma Central do Brasil que deu certo. Pensei que os arredores da nossa estação de trens também poderiam ser seguros e bonitos como aquele, até porque têm um potencial muito maior. O segundo ponto me surpreendeu pelas demonstrações religiosas bem no horário do almoço: foi a Igreja de São José, com sua diferente beleza, abrigava todos os tipos de pessoas que se ajoelhavam às portas e cultuavam um deus do meio-dia. Além disso, o Mercado Municipal também foi um bom passeio, com seus infinitos queijos e corredores, é um bom lugar para quem quer conhecer melhor a culinária mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

praça

Praça da Estação, o lugar mais charmoso de Belo Horizonte

centro_cultural

Centro Cultural de Belo Horizonte

liberdade

Praça da Liberdade

igreja_jose

Igreja de São José

igreja_dentroInterior da Igreja de São José por volta de meio dia

parque

Parque Municipal

mercado

Interior do Mercado Central

viaduto

Viaduto de Santa Teresa

Pampulha

O nome é feio, mas o lugar é bonito. Logo que cheguei de viagem fui visitá-lo. É provável que tenha sido o dia em que mais andei em toda a minha vida. Meio perdidão, fiquei rodando feito um peru em torno da Lagoa, a ver as criações do Niemeyer. A Pampulha, pra quem não sabe, é um bairro de magnatas que fica em Belo Horizonte. Ali, podem-se ver casarões que avistam as águas da lagoa e recebem a sombra de palmeiras. Vale destacar que os mineiros são obcecados por palmeiras. Tudo que é ponto turístico mineiro tem destas árvores.

Logo de cara, uma coisa me chamou a atenção: no meio da lagoa dos mauricinhos, sai uma Iemanjá meio torta, mas toda serelepe. É um monumento à cultura negra, curiosamente, no meio de um dos lugares que menos têm negros em Minas Gerais. Talvez Iemanjá atenda a algum tipo de cotas, visto que logo ali por perto está a Igreja de São Francisco. Se bem que, pensando direitinho, São Francisco é o santo católico relacionado ao voto de pobreza: por que cargas d’água está logo na Pampulha?

Antes de chegar à Igreja que está sob a sorte de ter a junção de Portinari e Niemeyer, andei diante da Casa de Baile e do Iate Tênis clube. Pude contemplar vários pescadores pescando em local proibido os peixes que, segundo a placa, estão envenenados. Na Igreja, um misto de decepção e alegria. Alegria por ter chegado e visto a beleza arquitetônica, decepção, pois a igreja é tão pequena, mas tão pequena, que não fiquei ali um décimo do tempo que levei pra chegar. Além disso, tem que se pagar dois Reais à entrada… foi tempo em que a fé era pública.

Terminei minha Via Sacra no estádio do Mineirão, o qual é bonito, mas pra quem está acostumado com Maracanã, não é nada impressionante. Por fim, fui me sepultar na cama do hotel para ver se ressuscitava no dia seguinte.

Antunes
Rio de Janeiro, 14 de novembro de 2009

casas

Os casarões da Pampulha cercados de palmeiras

lagoa

A Lagoa da Pampulha

iemanja

A Iemanjá: tortinha, mas serelepe

casa_de_baile

A Casa de Baile

igreja

A Igreja de São Francisco

O Mineirão
Mineirão

A tela e o texto

Já disse em outras crônica, volto a dizer. Mineiro gosta de ser intelectual e apresenta as provas: quantos presidentes mineiros tivemos? Quantos poetas e prosistas mineiros? Minas Gerais cheira a cultura, dizem. Não sei se é exagero ou se está na medida, sei que em BH são muitos os teatros e o fato que mais me impressionou ocorreu no ônibus: lá, no lugar do povão, por onde passam milhares de pessoas todos os dias, estão escritores de todo o Brasil. Mas, como assim? Entre num ônibus de BH, sente no banco e olhe atentamente. Pendurado nas costas do acento da frente, você verá uma folha, plastificada, contendo um texto literário: poema, crônica, conto. O projeto é muito interessante e pode ajudar o trabalhador a melhorar a qualidade de seus engarrafamentos. O fantástico está no seguinte: não é você que escolhe o texto, é o texto que escolhe você. Foi ali que me escolheu A Mulher de Anacleto e sua vingança post-mortem. A curiosidade que trago é: será que alguém resiste a ler um destes textos e não cortar o barbante para levá-lo pra casa?! Há que resistir a tentação, senão, que se vingue a Mulher de Anacleto, que se vingue Lima Barreto.

Para quem quiser conhecer mais do projeto o site é: http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/index.html

Antunes No avião da Gol, saindo de Belo Horizonte, rumo ao Rio de Janeiro, 13 de novembro de 2009.

tela e texto

Foto que tirei dentro do ônibus, lendo A Mulher de Anacleto.

Carta à mãe: minas de queijo

Mãe,

Pousei cá em Minas Gerais. Me enganaram, mãe. Eu achava que Minas era que nem a Lua: feita de queijo, mas né não. Ainda nem vi queijo aqui. Tá certo que não andei muito, mas mesmo assim. Logo que cheguei, baixei no chão e bati com a mão, tentando arrancar um pedaço. Era asfalto, mãe. Era asfalto que nem no Rio de Janeiro. Que ilusão, as ruas aqui não são feitas de queijo. Outra coisa, mãe. O pessoal aqui não anda com matinho no canto da boca, nem de camisa xadrez. O pessoal é moderninho que só.  Até funk eles ouve aqui, virgi santa mãe, que pecado. Eu achei que fosse encontrar o Chico Bento, separei na minha mala só roupa xadrez e vim com a gula de queijo. Me dei mal, mãe. Minas Gerais é uma mentira. Só tem uma coisa, só uma coisa, mãezinha, que é verdade e tá salvando minha viagem, só um dos folclore é a mais pura verdade: mãe, como mineiro fala UAI!

Beijo do teu filho sedento de queijo
Antunes
Belo Horizonte, 13 de novembro de 2009