Arquivo da categoria: Itabira – MG

PREDADORA

GARRAS IMENSAS SUJAS DE TERRA QUE FURAM A CARNE. BICO CURVADO ENCRAVADO NA CARNE. OS OLHOS GIGANTES, CERRADOS, VÊEM PRA TODOS OS LADOS, PREGADOS NA CARNE. A LUA SAI DE DIA? A LUA SAI DE DIA? A LUA SAI DE DIA? A CORUJA SAI! GIGANTE. PERVERSA. SANGUINÁRIA…. do ponto de vista do camaleão, é claro, pois a coruja sempre foi a corujinha, que peninha, encolhidinha, como dizia o poeta meu xará.  MAS AGORA ELA QUER MUDANÇA. FOI A ITABIRA CAÇAR A CARNE DO CAMALEÃO, FOI VIVER FRENTE À ESTÁTUA DOUTRO POETA, FOI SUJAR AS UNHAS DE TERRA E SANGUE. ESTÁ FAZENDO BARBARIDADES, SE EXIBINDO PRO DRUMMOND, TUDO PRA QUE ELE ESCREVA UM POEMA PRA REABILITÁ-LA.

Antunes
Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 2011


A coruja que filmei no Parque do Intelecto em Itabira – MG.







Drummond é uma fotografia na parede, mas como dói.

Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!
(Carlos Drummond de Andrade. Confidência do Itabirano)

O retrato do Drummond pregado à parede, dentro do Memorial Carlos Drummond de Andrade, é o retrato do Drummond sentado no banquinho da praia de Copacabana. Drummond nasceu em Itabira, cresceu em Itabira, viveu no Rio, morreu no Rio, está sepultado no cemitério São João Batista no Rio. Há Drummond por todo Brasil, mas parece que há mais no Rio e em Itabira. A cidadezinha de Itabira é tão pequena que às vezes parece ser só Drummond, embora Drummond nunca seja só Itabira. Um homem é maior que uma cidade de homens. Drummond retornou, post mortem, aos postes de sua cidade natal, às placas das ruas, ao memorial: nele está o clássico banquinho do Drummond, sem praia, sem bundas passando, sem marulho, sem maresia… Drummond está no alto dum morro, refeito em pedras, pedras que provavelmente já estiveram no meio d’algum caminho por aí. Sorte do poeta, quantos não quereriam estar em duas cidades: na que nasceram e na que amaram, eternamente?

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2011


Leitura do poema Confidência de um Itabirano de Carlos Drummond de Andrade diante do Memorial ao poeta em Itabira


Filmagem que fiz do Memorial de Carlos Drummond de Andrade e de Itabira do alto do Parque do Intelecto

Assim que cheguei no Memorial

O memorial Carlos Drummond de Andrade e a placa do poema Confidência de um Itabirano

Foto do Drummond no RJ que está na parede do Memorial em Itabira.

Drummond no seu banquinho, bem longe da praia

Aqui o Drummond usa óculos mesmo

Um abraço amigo no meu poeta

Alto do Parque do Intelecto

Um carro muito grande com as rodas enormes

Quando eu era pequeno, meus carros eram ainda menores. Ficava ajoelhado no corredor da casa e disputava corrida entre eles. Dada época, parei de gostar de carros. Acho que foi quando lançaram um número maior do que eu conseguia decorar. Hoje, só reconheço fusca, Kombi, ônibus e Fiat Uno do antigo. Quando entrei na mina de Itabira, meus olhos brilharam feito à época de criança. Vi um carro com as rodas enormes, com uma aparência monstruosa, eu batia na metade da roda. Era como se eu tivesse ficado criança e os carros crescido.  Subi por uma escada que me levava para a cabine do piloto e, lá do alto, vi o horizonte cinza. Andei feliz naquele carro imenso e até me deixaram brincar de destruir a cidade…

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2011


Filmagem que fiz da Mina de Itabira em cima de um Caminhão Fora de Estrada

Diante dum caminhão fora de estrada. Tenho 1,80 e bato na metade da roda dele

Caminhões imensos de carregar minério

O peso de um caminhão desses é cerca de 450 toneladas

Diante deles, o outro carro parece de brinquedo

Foto que tirei SOB o caminhão fora de estrada

A escada que leva à cabine

Caminhão fora de estrada sendo abastecido

A linda ruína de Itabira

A lua: seca, cinza, morta, esburacada. Mas quando está no céu, os casais a olham e lhe dizem linda. Quero os olhos dos casais, estes de olhar a lua, pra qu’eu possa olhar o câncer. Quero os olhos dos católicos que santificam as chagas de Cristo e tocam-na e beijam-na. Quero os olhos do primeiro artista que gritou “linda” à Torre Eiffel, monte de ferro exposto. Quero os olhos de um deus que achou bonito ter hienas entre sua criação. Itabira é seca, cinza, morta, esburacada e linda! Linda com a beleza da supremacia do homem sobre a natureza. Linda com a vitória do ferro sobre as árvores. Linda porque a criatura de deus destruiu as criações de deus. Linda como o homem que é feito de ferro até a alma. Itabira é linda, embora feia pra caralho e justamente por isso. Se nos regozijamos com as ruínas incas, se sabemos gozar com os restos egípcios, se ejaculamos sobre os destroços do império romano, por que não podemos ter prazer nas nossas próprias ruínas?

Antunes Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2011

Duas cidadezinhas quaisquer

“Êta vida besta, meu Deus.”
(Carlos Drummond de Andrade, Cidadezinha Qualquer)

Não fosse Drummond e o ferro, Itabira continuaria sendo a mesma cidadezinha qualquer. Na verdade, sejamos realistas, mais pelo ferro do que por Drummond. No taxi, inda em Belo Horizonte, exclamei cheio de ares poéticos ao motorista: “Itabira, terra do Drummond!” e o sujeito me indagou “de quem?”,” Drummond, o poeta…”, “Ah…” Na própria Itabira, perguntei: “Onde fica o memorial do Drummond?”, “O quê?”, “A estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade.”, “Ah, fica por ali.” Eu deveria estar com feições bem patéticas, rumo à Itabira drummondiana parecia que eu iria conhecer a Paris de Baudelaire. Quando cheguei lá, percebi que a relação não era exatamente a mesma. Aquela vidinha besta, as ladeiras reticentes, a igrejinha sozinha, a vagarosidade dos habitantes… esta é uma Itabira, a dos caminhos que celebram Drummond e que quer ser a cidadezinha ficcional. Há outra, a imensa Itabira de ferro, a rápida Itabira global, a Itabira dos livros de geografia e não dos livros de poesia. Foi por estas Itabiras que caminhei e, ao olhá-las, tive a certeza do quão genial foi Drummond.

Antunes
Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 2011

Itabira vista de cima

Uma pracinha qualquer...

Igrejinha

O mercado da cidade

A cidade que cresce, filha do ferro

A Itabira que vai pro mundo: A mina de ferro

Como puxar assunto com um mineiro

De cara, fica o aviso: este texto não tem qualquer intuito de ser preconceituoso, porém, como se trata de uma pesquisa, sempre ocorrem algumas generalizações. Escrevi, pois viajo muito a Minas Gerais e, como o aeroporto de Confins fica nos confins do mundo, passo muito tempo no taxi com meus camaradas taxistas (imagine leitor, o tempo de uma viagem de Confins a Itabira). Como odeio aquele silêncio que faz o tempo de viagem se alongar ainda mais, fui, através da experiência, acumulando assuntos que sempre funcionam para um bate-papo sem outro propósito que não seja passar o tempo.

Sou lá do Rio¹ (fale, no caso, a sua cidade), mas adoro comida mineira…
É um ótimo começo de conversa, pois mineiro que é mineiro tem orgulho de sua comida. Aí você, pra ir gerando mais subassuntos, elogia o pãozinho de queijo, a vaca atolada, o feijão tropeiro etc. etc. etc. Muitas vezes, para esnobar, os mineiros gostam de dizer: Cê gosta, é? Já tô tão acostumado que já nem percebo se é tão bão mesmo… E há aqueles outros que embarcarão na onda de elogios. Mas um mineiro nunca, jamais, falará mal de sua comida.

1 – Curiosidade: mineiros não costumam saber distinguir a diferença de sotaque entre paulistas e cariocas.

Você é atleticano ou cruzeirense?
Esse é ótimo assunto pra emendar, pois em Minas Gerais só há dois times com torcida. Dificilmente se encontra algum americano perdido por lá (mas é possível). Ou seja, o cruzeirense adora conversar falando mal do atleticano e o atleticano do cruzeirense. Tem assunto pra horas, só é saber explorar, pois até aqueles que não gostam de futebol tem alguma opinião sobre uma ou outra torcida.

E a Vale, tem crescido muito aqui, né?
A Vale é uma empresa majoritariamente mineira e move bastante a economia do estado. Sendo assim, muitos moradores de Minas Gerais são árduos defensores da empresa (há os árduos críticos também, mas são minoria). Se você está conversando com taxistas ou pessoas de rede hoteleira, com certeza terão várias histórias sobre o tema para contar.

Belo Horizonte tá ficando pequena, tem que colocar mais hotel nessa cidade.
É assunto batido, todo mineiro gosta de falar que Belo Horizonte está precisando de novos hotéis e, alguns sensacionalistas, gostam de comparar o trânsito Mineiro ao de São Paulo (o que não tem nada a ver). É um ótimo assunto para você mostrar que está atualizado sobre a Cidade.

A Cidade Administrativa do Niemeyer ficou linda, né? Se já não bastasse aquelas arquiteturas dele na Pampulha…
Com todo respeito aos mineiros e a Belô, mas a cidade não tem praia, não tem ótimos shoppings, não tem pontos turísticos badalados. Sendo assim, as diversões dos mineiros são:  andar nas incontáveis praças, ler e tomar cachaça na Savassi. Ou seja, Mineiros não tendem a ficar com babações à natureza como os cariocas, preferem exaltar as construções da cidade. Elogie as obras do Niemeyer tais como a Cidade Administrativa e a igreja de São Francisco e conquiste um amigo mineiro.

E esse governo aí, tem gostado?
Generalizando, os mineiros são muito conservadores na política. Se orgulham de castas como a família Neves e gostam de votar no PSDB. Debater sobre política requer cuidado. É mais um assunto para ouvir do que para debater. Ou seja, tenha atenção, senão o papo não rola.

Anote estes tópicos, leitor, e faça o teste. Não precisa agradecer, mas saiba que o livrei de horas e horas de viagens monótonas. Faça bom uso destes assuntos. Volte para dizer se funcionaram e para acrescentar novas temáticas que deram certo com você.

Itabira, 8 de outubro de 2010