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Linguagem maçônica

Inda sou uma criança em muitos aspectos e lido com ingenuidade com certos assuntos. Sinceramente, não entendo os códigos maçônicos. Tampouco sei o que é maçonaria. Quanto mais se publicou mais me perdi. Tenho certeza e nenhuma vergonha de assumir que isto é uma grande falha para alguém graduado em História, mas algumas perguntas mui pueris sempre me fizeram retroceder diante de qualquer definição, caso o leitor saiba respondê-las, por favor, não deixe de me ajudar:

1 – Por que pessoas ditas endinheiradas precisam de ritos de passagens que envolvam bodes?

2 – Se ninguém sabe quem é maçom, como os maçons sabem quem é maçom?

3 – Se a maçonaria é realmente secreta, é possível que assinar com três pontinhos revele tão facilmente um maçom?

4 – Aquele aperto de mão que deixa o dedo indicador estendido é de gente chata ou de maçons?

5 – Por que todo mundo, todo mundo mesmo, da época de Dom Pedro era maçom?

Por que pergunto isto, leitor? Pois diante das casinhas brancas com desenhos coloridos senti-me um analfabeto em Paraty. O que querem dizer todos aqueles losangos e formas geométricas que mal sei denominar? E os abacaxis? Pendurados nas sacadas, estão ali apenas para nos deixar água na boca no calor, mas não podem ser comidos, pois são mero jogo maçônico. E eu, no meio daquela cidade? Será que fui parte de toda aquela simbologia misteriosa, será que eles planejaram séculos atrás que eu estaria ali completando todos aqueles símbolos que não soube ler? Prefiro crer que toda linguagem maçônica não passa de balõezinhos e pequenos abacaxis, prefiro o modo infantil de ler o mundo.

Antunes
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2010.

Arte infantil ou símbolos maçônicos? Os desenhos coloridos nas casas.

Um abacaxi pode guardar quantos segredos?

Nôla Farias filma e narra a Paraty histórica e maçônica.

Provar Paraty

Nossos sentidos – visão, audição, olfato, tato, gosto – são todos órgãos de fazer amor com o mundo, de ter prazer nele.” (ALVES, Rubem. Educação dos Sentidos e mais…)

Paraty é facilmente desvendada através dos sentidos: é diferente aos olhos, é musical, cheira a mar, é áspera aos pés e saborosa ao se provar. Com este último, o paladar, é que fico. Paraty é boa à degustação, mas pode sair salgada ao bolso. Comer no centro histórico não é opção barata, embora seja a melhor. O lugar é especializado em peixes. Cabe aproveitar as festividades do momento para tentar comer em barracas. Um caldo de feijão pode custar 15 Reais num restaurante, mas, durante eventos, pode sair a 5 sob uma lona na praça e não deixar nada a desejar. É na praça, também, que estão os tradicionais pastéis de 30 centímetros, caros e imperdíveis. Opções mais populares estão ao lado do Centro Histórico na Avenida Roberto Silveira: restaurantes simples e serve-serves aparecem durante a caminhada. Pela noite, vale arriscar o fôlego ao andar para restaurantes mais distantes. Há bons restaurantes escondidos, afastadas do Centro e que não são muito concorridos: fui a uma boa pizzaria em que só estávamos minha esposa e eu. Paraty é uma cidade a ser descoberta com paciência, pois muitos de seus tesouros estão ocultos ao olhar acostumado, parece que foram enterrados por algum pirata e, para prová-los, há que caçar.

Antunes
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2010

Em Restaurante na Avenida Roberto Silveira

Aí está a famosa barraca do big pastel de 30 cm

Um pastelzinho maior que o estômago e menor que o olho

Uma das barracas na praça de Paraty (ótimos e pueris nomes de bebidas)

Pé de moleque sobre pé de moleque - as barracas de doces maravilhosos estão nas esquinas de Paraty

Depois de longa caminhada: a pizza!

Estória Matriz

O homem é um produto do meio. Esta máxima sobrevive aos séculos, tanto que nem dono parece ter mais. Uns dizem Comte, outros dizem Taine, alguns asseguram que foi Ratzel e ainda há os que garantem que foi Marx. O que me parece é que a sabedoria popular tomou pra si falas de diversos autores e deu-lhes um formato mais fácil de decorar e polemizar em qualquer botequim.

Se o homem é, ora pois, realmente produto do meio, como será que é o homem de uma cidade como Paraty? Afinal, a cidade preserva características do século XVIII. Sendo assim, não seria de se estranhar que houvesse alguém com características de um mancebo romântico, um senhor de escravos de ganho, ou mesmo, de um corsário…

Todo este debate parece uma sandice, bem sei, amado leitor. Porém, pude comprovar que a afirmação é excessivamente verdadeira. Estávamos, minha esposa e eu, a filmar a bela Paraty quando, na Praça da Matriz, percebemos a presença de um mancebo de casaca preta preocupado em olhar as horas em seu relógio de bolso. Havia chovido toda a noite anterior e, em Paraty, as ruas tornam-se pequenos riachos. De longe, o jovem de casaca preta, avistou a dama que esperava. Encontraram-se próximos às carruagens, que é como chamam as charretes em Paraty. Ao se aproximarem, o jovem pôs-se de joelhos e beijou a mão à jovem. Antes de tomarem um cavalinho, a dama se deteve temerosa de enfrentar uma imensa poça d’água. Foi aí que o mancebo retirou sua casaca preta, atirou-a sobre a poça e acenou para que a donzela atravessasse cuidadosamente sobre seu traje para que não molhasse os delicados pezinhos. Foram-se de carruagem, que antes de sair, passou bem diante do IPHAN.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de setembro de 2010

Chapeuzinho Verde filmando a Praça da Matriz

Uma dama e um mancebo partem na carruagem

Muitas poças, pós chuva em Paraty

Eu diante da Igreja da Matriz em Paraty


Nôla filma e narra a Praça da Matriz


Nôla filma e narra a Praça da Matriz – parte 2.

Procissão

À procissão vão velhas senhoras, tão velhas quanto Paraty. São de velha moral e de velhos costumes. É velho, também, o Cristo magro e empoeirado que pende na cruz. Tudo tão velho quanto cada pedra do chão. Enquanto rezam e murmuram, enquanto clamam a cura de suas artroses, os jovens estão nos bares ou se devoram em qualquer lugar, menos ali. Não é de agora, é hábito velho, que a vida segue assim. Em cada noite uma procissão, com velas velhas acesas que não se apagam. E não é que há alguma beleza na procissão. E não é que há algum prazer em vê-la, em assisti-la ao longe, em fotografá-la. Será que há algum erotismo na ruga?

Antunes
Rio de Janeiro, 1 de setembro de 2010

A procissão

A Igreja do Rosário, em Paraty, destino da procissão

A Paraty do senhor meu pai

Meu pai é um senhor antigo, careca, com uns ares um tanto estóicos, um tanto franciscanos, um tanto budistas, um tanto confusos, que em dado momento da vida resolveu inventar que passou outras vidas em Paraty. Diz-me que morou pela Rua do Fogo, ruazinha singela e florida, num tempo colonial e, até hoje, singela e florida, num tempo que inda parece colonial. Ele diz-me que a rua do Fogo é a de nome mais simples, a de flores mais simples, de solo mais simples, de casas mais simples. Diz-me, também, que ali levou uma vida simples, rodeada de gente simples, de hábitos simples, de simples comidas. Meu pai quando volta de Paraty, sempre me conta esta simples história, mas a mim parece tão complexa.

Antunes
Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2010

A Rua do Fogo, antiga rua de Paraty, onde viveu e morreu meu pai

A rua do Fogo é a de nome mais simples, a de flores mais simples, de solo mais simples, de casas mais simples.

Na casa do senhor meu pai

Parati para alguém

Queria ver Paraty de dentro de um livro, confundir ruas com linhas e aventurar-me por becos de estórias. Li Parati para mim da Editora Planeta e achei a Paraty física mais lírica que a Paraty de letras que me foi oferecida. São três jovens autores que se arriscam a compartilhar contos que exibem a cidade como cenário: Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian. Com algumas passagens boas aqui, outras ali, hei de confessar que o livro não foi de meu agrado. Encontrei-me mais nas esquinas de pedra do que nas páginas de papel.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010

Capa do livro Parati para mim

E uma garrafa de rum!

Não que eu acredite em fantasmas… muito menos em fantasmas de piratas ou piratas fantasmas. Seja lá o que vi, o fato é que vi. Em Paraty os piratas vêm do mar e é pro mar que tornam. De dia, ficam entre as crianças, a tirar fotos, a fazer propositais caras de maus. De noite, findam-se as oito horas de trabalho. Os artistas, se é que se pode chamá-los assim, voltam a ser meros quaisquer um de nós e vão passar a noite nos bares ou na cama, que é lugar quente, esperando o horário de nascer o sol e de se pôr novamente a fantasia. Os pais dizem pros meninos: “já se foram, filhos, voltaram pro seu navio no mar.” Paraty enaltece este passado, faz dele turismo, entretenimento, parte da paisagem. Não só os homens vestidos, mas as lembrancinhas das lojas, o nome das vendas, dos pratos dos restaurantes, no rótulo das cachaças … certo mesmo é que os piratas ancoraram em Paraty e não mais sairão. Mas isto não justifica o que vi, leitor.

Era noite bem anoitecida, vinha eu mais minha esposa que não me deixa mentir, a flanar pelas ruelas da histórica cidade, quando avistamos um conjunto de três crianças. Atrás delas vinha um pirata sem loro, sem espada, sem perna de pau, mas um pirata. Por trás das crianças, o sujeito macabro gritou. Tomou o pirulito duma, beliscou as bochechas doutra e deu um arroto bem na face da terceira. Depois saiu a cantar por uma ruela sem gente. Corremos, minha esposa mais eu, até os miúdos. Virei pra ruela, saquei uma foto do patife (e uso esta palavra porque a acho bem designada a um pirata), virei novamente pras crianças e quando mirei novamente à ruela escura, o patife (friso) tinha fantasmagoricamente sumido. Voltei a olhar pras crianças que já, também, não estavam mais ali. E eu já duvidava se realmente vira tudo que vira ou se era a minha garrafa de rum que contava as histórias. Sorte que me sobrou a foto, leitor. E sabe você que as fotos são ainda mais sinceras que as garrafas de rum.

Antunes
Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2010