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As casinhas de Deus e dos homens tortos

Se Deus é tão grande, como cabe numas casinhas tão pequenas? Deus é tão grande que precisa morar em várias casinhas pequenas. Na verdade, Deus não mora nas casinhas pequenas. Só mora a via crucis – que mora não só ali, mas em todas as igrejas do mundo que conheço.

Congonhas tem o privilégio de contar com o maior acervo barroco do mundo. O Santuário Bom Jesus dos Matosinhos, é diferente de todas as outras igrejas que já vi, pois é muito mais rico por fora do que por dentro: fora estão os 12 profetas e as capelas da via crucis que são consideradas obras primorosas do Aleijadinho e lotadas crítica e bom humor. Dizem que para atacar a repressão política da época, Aleijadinho metaforizou a repressão nos judeus que crucificaram cristo e desfigurou-os: pés torcidos, narizes imensos… Aleijadinho talvez tenha sido o primeiro e único cartuinista barroco do mundo. Aprendeu a torcer as imagens com Deus que o deixou torto pra toda a vida.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de novembro de 2010

Eu entre as capelinhas onde mora a Via Crucis de Cristo e do Aleijadinho

Uma das capelinhas onde ficam cenas da via crucis

Enquanto apóstolo dorme, Cristo recebe visita de um anjo

A última ceia segundo Aleijadinho

Cristo sendo preso. Repare no nariz dos guardas.

A tortura de Cristo. Repare nas botas do guarda da direita.

Cristo sendo coroado como Rei dos Judeus

Cristo carregando a cruz

Crucificação de Cristo

O Décimo Terceiro Profeta

O Décimo Terceiro Profeta

1
E se os profetas não clamarem, as pedras clamarão? E quando os profetas são de pedra? O Décimo Terceiro Profeta é de carne e clama. O Décimo Terceiro Profeta não foi feito por aleijadinho, foi feito direto por Deus, e é um aleijadinho.

2
Enquanto todos os profetas estão de pé, aquele profeta de carne está jogado ao chão. Entretanto, enquanto todos os outros profetas estão em silêncio, ele clama: clama por uma mísera moeda que ninguém lhe dá, muito menos os outros profetas que são de pedra.

3
Quando o Décimo Terceiro Profeta chega bêbado ao Santuário, maldiz a Deus, joga merda nos colegas de profecia e mija nas escadas. Outro dia encontraram-no nu, querendo comer a baleia de Jonas, assada.

4
Dizem que o Profeta Amós é o autorretrato do Aleijadinho. Mas, Meu Deus!, há algum engano, então, pois o único aleijado que vejo é aquele farrapo que está ao chão. Outro dia, uma velha senhora tropeçou em sua ausência de pernas. O Décimo Terceiro Profeta esbravejou-lhe cega! Ela lhe pediu desculpas e o profeta, ironicamente, lhe deu uma moeda. Os aleijados somos nós.

5
Quando chegam as senhoras loiras, o Décimo Terceiro Profeta as insulta com os palavrões mais terríveis que ainda serão criados. Elas sequer se dão conta, pois sequer falam português. O Décimo Terceiro Profeta aprendeu, com os turistas que visitam seus colegas de profissão, algumas palavras em espanhol, francês, russo e até japonês. O Décimo Terceiro Profeta só não aprendeu nada em inglês, pois diz que é a língua do diabo.

6
Daniel passa a eternidade abraçado com um leão. Dizem que Daniel e seu leão compõem a estátua mais bonita. Imagine se todos os profetas quisessem um bichinho de estimação, o santuário deixaria de ser santuário e viraria um zoológico. O Décimo Terceiro Profeta quer passar a eternidade inteira com um pombo doente, mas ninguém vê o bichinho, pois nem dentro de sua barriga está mais não.

7
Outro dia, o Décimo Terceiro Profeta, levou uma mendiga pro Santuário todo interessado em se assanhar com ela. Entretanto, os outros doze, não paravam de lhe olhar com olhos celibatários. O Profeta, furioso, desceu de mão dada com a mendiga até uma das casinhas da via crucis e explicou pra acompanhante que aqui dentro ninguém nos perturba, pois a maioria é de romanos e o tal barbudo é amigo das putas e dos lazarentos.

8
Há, todo mundo sabe, profetas maiores e profetas menores. Mas, nem todo mundo sabe, que há o profeta mediano que fica sentado nas escadas do Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos. O ruim de ser um profeta medíocre é que ninguém lhe repara. O bom de ser um profeta medíocre é que se pode tirar meleca em paz.

9
Um gato preto, bem no meio da noite, saltou na cabeça de Jonas. Quando enjoou, pulou pra cabeça de Baruc. Não satisfeito, pulou sobre Isaías. Depois de Isaías, o gato resolveu pular sobre o Décimo Terceiro Profeta que, nervoso, torceu seu pescoço. Com o cadáver do gatinho caído no chão, o profeta tentou ressuscitá-lo com um milagre, mas não conseguiu não.

10
É justamente o Décimo Terceiro Profeta o único dentre eles que pode entrar no Santuário. Os outros doze profetas morrem de inveja pois estão presos sempre ao mesmo lugar, submetidos às cagadas de pombo. Como a vida é sempre injusta e curiosa, o Décimo Terceiro Profeta também os inveja. Diz que preferia estar submetido às cagadas de pombo que aos sermões do pároco.

11
Desejoso, o Décimo Terceiro Profeta olhava a bunda de Oséias, nervoso com Deus. Pai, se é pecado, porque só me colocas pra viver no meio de homens? Foi até o pároco e lhe ditou uma reclamação, disse que exigia uma profeta, bem do sexo feminino, e que não precisava ser de pedra, podia ser daquelas de plástico mesmo.

12
No dia em que morrer o Décimo Terceiro Profeta, ninguém vai lhe fazer estátua alguma. Nos primeiros dias de sua morte, ainda o lembrarão, pois sentirão alívio. Dirão assim: que bom que já se foi este profeta que nos denunciava e cuspia no chão. Depois que passar um tempo, ninguém mais o lembrará e seus colegas de pedra o invejarão, porque só o Décimo Terceiro Profeta conseguirá descansar em paz ao lado de Deus.

13
Dizem que 13 é o número do azar. Deve ter sido por isso que são 12 tribos de Israel, 12 portas no muro de Jerusalém, 12 discípulos de Jesus e, claro, 12 profetas. Entretanto, sempre há um décimo terceiro. É este décimo terceiro que não entra pra história, não vira estátua, não é celebrado e sempre se ferra. Por isto devemos ser muito mais simpáticos ao décimo terceiro, ele tem mais de nós.

Antunes

Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2010

12 - Naum

11 - Habacuc

10 - Jonas

9 - Amós

8 - Abdias

7 - Joel

6 - Oséias

5 - Daniel

4 - Ezequiel

3 - Baruc

2 - Jeremias

1 - Isaías

Verso que me une a Matosinhos

volver a ser de repente tan frágil como un segundo
volver a sentir profundo como un niño frente a Dios

(Violeta Parra, Volver a los 17)

Um David desprovido de vitória diante do gigantesco Golias, eu diante do barroco. Congonhas em poucos segundos tornou-se a Igreja dos Matosinhos. Todas as Cidades Históricas tornaram-se apenas a Igreja dos Matosinhos. Antônio Francisco Lisboa feriu de morte a raça humana: se ele é o aleijado, o que somos nós? Paralisado, eu conversava com Mnemosine: em qual obra da literatura está algum verso que diga que os doze profetas de Deus foram petrificados pelo olhar de Medusa? Vasculhei, mentalmente, os versos de Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa. Vasculhei os versos de Drummond e os contos de Autran Dourado e nada achei. Estávamos sós, a Igreja dos Matosinhos e eu, abandonados no abismo que é o mundo, sem nenhum verso que nos unisse. Cunhei-o, então, eu mesmo, pois aquele encontro já ocorrera em algum lugar do futuro: “São doze profetas de pedra, outrora carne, antes do olhar de Medusa”.

Antunes
Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2010


Nôla Farias narra e filma o Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos

Todas as Cidades Históricas tornaram-se apenas a Igreja dos Matosinhos.

“São doze profetas de pedra, outrora carne, antes do olhar de Medusa”.

Antônio Francisco Lisboa feriu de morte a raça humana: se ele é o aleijado, o que somos nós?

A morte como ponto turístico

Todas estas são prendas
dos mortos do Carmo
.”
(Drummond, Carmo)

É claro que os homens que construíram tantas igrejas imaginavam algo que ia além da imaginação de sua época. Claro que Aleijadinho caprichou nas esculturas barrocas para que elas pudessem sair bem nas fotos dos turistas do Século XXI. Afinal, as igrejas barrocas já nasceram mais para ser cultuadas do que pra ser local de culto. O que não imaginavam estes homens é que sua morte poderia ultrapassar a fama duma igreja. Aconteceu no Carmo, o cemitério pede atenção e as tumbas fazem pose para os turistas. Aconteceu no Carmo: um poeta resolveu preferir os cadáveres aos fiéis. Homens de outrora agora são o cinza dos epitáfios que comprazem os visitantes, prenda da morte e do tempo, prenda dos que morreram apenas para compor o cenário duma foto.

Antunes
Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2010


Poema Carmo de Carlos Drummond de Andrade lido po mim em Ouro Preto

Mercês da prostituta

Pequena prostituta em frente a Mercês de Cima / Dádiva de corpo na tarde cristã/ Anjos caídos da portada e nenhum Aleijadinho para recolhê-los.”
(Drummond, Mercês de Cima)

São tantas as igrejas em Ouro Preto que, confesso leitor, começo a ficar entediado de vê-las e de escrevê-las. São chatas as igrejas, são muito chatas. Se fossem boas, não precisariam pregar Cristo na cruz pra que ele ficasse lá dentro. Drummond diz que os anjos caíram da portada, creio que caíram de sono diante de alguma missa. O Aleijadinho, também, deveria estar a tirar alguma pestana, pois não apareceu. Fiquei a me interrogar por que raios chamam a Igreja de Mercês de Cima e descobri que por motivo óbvio, pois há uma Mercês de Baixo… são monótonas as igrejas. Depois de se passar por cinco delas já não se sabe qual é a mais bonita, a mais rica, a mais fúnebre… Já não saberia qual é Mercês de Cima e qual é a Mercês de Baixo, não fosse a prostituta que está diante dela, como diz Drummond. E quem é esta meretriz que vemos senão a própria Ouro Preto, deitada, arreganhada diante de nossos olhos a dar-se outrora para os portugueses e agora a vender-se aos turistas?

Antunes
Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2010


Nôla filma a Mercês de Cima


Eu leio o poema Mercês de Cima de Drummond, diante da própria Mercês

Diante da Mercês de Cima

Sentado à beira da Mercês de Cima, atrás está Ouro Preto

Placa explicativa da Mercês de Cima

A maior e mais verdadeira obra de arte de Ouro Preto

É lixo o que fez o Aleijadinho. Ataíde não passa de um discípulo de quinta. O verdadeiro mestre de Ouro Preto não sei quem é, mas é ele quem reverencio. Fica atrás de uma grossa parede, talvez também seja aleijado e talvez também se chame Ataíde, mas sua obra é muito maior. Sua obra não fica exposta em museu algum, muito menos em igreja, talvez sua obra seja, na verdade, o maior dos pecados – não me cabe agora julgar. Tal arte fica à cozinha e também às prateleiras do Cantinho do Pão de Queijo, bem no Centro de Ouro Preto. Pois não adianta dizer-me da Igreja de São Francisco, nem da Casa dos Contos ou do Museu dos Inconfidentes: o que mata a fome do homem é a arte da culinária. Nunca comi pão de queijo igual. Faço críticas veementes à prefeitura de Ouro Preto por não divulgar este pão de queijo como patrimônio cultural. Se não bastasse ser servido puro, há como aprimorar a perfeição: o pão de queijo pode ser servido recheado e, recomendo, recheado de queijo minas. Mas, não é qualquer queijo minas, não é aquele monte de farinha com água que estamos acostumados a comer no Rio de Janeiro e em São Paulo, é queijo de verdade. Não há combinação de artes, não há Aleijadinho e mestre Ataíde somados, há apenas o pão de queijo recheado com queijo minas e confesso que voltarei a Ouro Preto e desprezarei todo aquele lixo barroco, virarei o rosto para a montoeira de anjos, ignorarei Tiradentes, seus cúmplices e seu traidor, voltarei a Ouro Preto apenas para comer pão de queijo e apreciar esta arte de raiz tão mineira.

Antunes
Rio de Janeiro, 7 de outubro de 2010

Aleijadinho não faria desses

É possível aprimorar o que já é perfeito? Queijo e linguiça.

A maravilhosa fábrica de pães de queijo

Guias da História

Do alto das ladeiras é possível ver o amontoado de guias turísticos diante da Igreja de São Francisco, ao lado da feirinha de pedra sabão. Vestem a camisa branca do uniforme e fazem cara de que Ouro Preto está mais dentro de mim do que fora. Há os que falam inglês, espanhol, francês e alemão. Com sorte, pode-se até achar algum que fale português. Sabem todos os detalhes minuciosos da construção dos anjinhos barrocos, sabem o significado de cada estria daquelas bundinhas de anjo. Sabem o que vestem todos os santos, as promessas de cada fiel, o que esconde cada tumba e podem precisar a época de cada elemento do rococó com incrível detalhamento de segundos. Alguns turistas, revoltados, os chamam de mentirosos. Mas a maioria delira diante das histórias que contam e tornam pra terra natal repetindo tudo para os amigos e parentes com uma arrogância de doutor e um maravilhamento de novo na fé. O que nem sempre os pios turistas sabem, é que há uma competição entre os guias turísticos locais. Certa vez um resolveu dizer que, naquele monte de anjos, um era o autorretrato de Aleijadinho; outro logo disse que não só o anjo, mas o Jesus crucificado também era um autorretrato do Aleijadinho; um terceiro foi e disse que não só havia os autorretratos do Aleijadinho como o espírito do Aleijadinho vagava por ali à noite; um mais inventor ainda garantiu que não só havia espírito do Aleijadinho como ele já tinha visto o espírito umas três vezes ou mais; ainda houve o que disse que era amigo do espírito do Aleijadinho; e, por fim, teve aquele que disse que não era espírito nada, assegurou que Aleijadinho estava de volta em carne e osso e que não era autorretrato nenhum, o Jesus na cruz era o próprio Aleijadinho sofrendo vivo pela eternidade.

Quando entrei na Igreja de São Francisco, vi um típico guia turístico com sua platéia como um auditório. Apontava pro chão e gritava em voz baixinha pra não acordar os mortos: aqui, bem aqui embaixo de onde estamos pisando, esteve enterrado Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os turistas arredavam o pé pra sacralizar o lugar, mas o valente guia continuava: eu, exatamente eu mesmo, minha pessoa, esteve aqui na exumação do corpo.  Fui o único guia desta Ouro Preto a participar. Trouxe, inclusive uma foto para que vocês possam ver aquele momento. O guia mostrou a foto, orgulhoso e indicava com o dedo quem era o suposto ele durante aquele feito. Os turistas satisfeitos com a melhor escolha, queriam tirar fotos com o guia, até mesmo tocá-lo por ter tocado o cadáver do mestre. Iam embora pras suas casas, mas jamais esqueceriam aqueles dias em que viram a história tão viva. Passados uns cinco minutos, a igreja novamente se enchia, agora com outro guia que repetia a ladainha, mostrava foto e a história se repetia. E a igreja novamente se enchia, até que chegava a noite e se ia o dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de outubro de 2010

Guias caçam turistas e turistas caçam guias diante da Igreja de São Francisco em Ouro Preto