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El Soroche

De Nôla Farias – PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

Tenho uma charada para você, estimado leitor: como pode a seleção boliviana em 2009 ganhar da argentina de 6×1 e, apresentando tal excelente resultado, não ter sequer se classificado para a copa de 2010???

Charada boba, resposta simples: é a altitude. O jogo se deu em La Paz, a 3.600 metros de altitude, no estádio Hernando Siles, em frente ao hotel em que fiquei hospedada. Pude experimentar um pouquinho desta desagradável sensação, o soroche. A coisa existe mesmo e mexe com aqueles que vivem ao nível do mar.

Quando cheguei a La Paz senti efeitos sutis, apenas uma dorzinha de cabeça, que apesar da pouca intensidade, me perturbou constantemente. O cansaço provocado também é bem intenso e é potencializado pelas tantas ladeiras da cidade. Tomei o polêmico chá de coca, que aqui é vendido em sachês no supermercado, tal qual o chá de camomila ou hortelã, ou tantos outros no Brasil. Sinceramente, o chá não me provocou nenhum efeito fora o prazer de bebê-lo, visto que é muito saboroso.

Posso dizer que os sintomas do mal de altitude que tive quando cheguei em La Paz não foram nada diante dos que experimentei no dia seguinte, quando visitei a cidade de Tiahuanaco, a 3.800 m. Caminhar pelo sítio arqueológico, entre tantas subidas e descidas e sob um sol muito intenso me fez sentir muito mal. Experimentei muito desânimo, cansaço e enjôo, sintomas que só foram resolvidos quando cheguei de volta ao hotel, deitei e comi.

Dizem que para amenizar estes efeitos, devemos tomar muito chá de coca, mas é impossível tomá-lo o tempo todo, por que sob as ruínas incas, não há chá sendo servido. Resta então, ter paciência, contar com a compreensão do seu companheiro de viagem e diminuir o ritmo, respeitando seu organismo. Mas não se deixe intimidar e explore, suba e conheça, o quanto agüentar, pois conhecer é bom demais.

Nôla Farias
Santa Cruz de la Sierra (iniciado), terminado: Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2010

Emanoelle tentando sobreviver ao soroche à base de chá de coca

Contemplação ao Titicaca

O lago é imenso, mas os minutos são breves. E por trás dele outro país, enquanto eu nesta Bolívia. O lago é imenso e a calma também. É falsa a fúria que atribuímos aos gigantes. Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, o segundo maior da América Latina. Fico à beira, mãos dadas a alguém que amo sob a vigília de um taxista aimará. Parado, deixo apenas que a imaginação navegue por todos os mitos que aportam ali: pumas, lebres, lhamas, deuses e uma ilha paradisíaca com um nome muito familiar: Copacabana! Estive nela, pois nela estarei algum dia. Não há distinção entre os tempos. Hoje estou aqui ladeado por impérios. Hoje eu sou o Inca, inda que ontem tenha sido o colonizador. As águas do Titicaca contam-me algum segredo, mas é tão silencioso que não posso ouvi-lo. Apenas observo movimento algum, som algum. O gigante dorme e não há um ruído sequer, apenas imagens de fotografia.

Antunes
Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2010

Chegando ao Titicaca

Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, o segundo maior da América Latina

O lago é imenso e a calma também.

O gigante dorme e não há um ruído sequer, apenas imagens de fotografia.

Mãos dadas a alguém que amo sob a vigília de um taxista aimará.

A festa das cholas em Lloco Lloco

Donde saem estas mulheres cholas que estão em todo e qualquer lugar mesmo quando não há ninguém? Estão nas cidades entre o cinza e o ouro, estão por trás dos cestos de folha de coca, estão no meio do nada e no nada sem meio, estão nos lugares em que nem a lhama chegou. Estão por ali, atrás dos montes, debaixo das árvores, no meio do mato. Talvez a mijar. Mas como conseguem tal proeza se levam consigo tanta roupa que deve ser mais difícil de tirar do que deter qualquer vontade natural ou sobrenatural? E quando se reúnem há tanta festa. E não é que elas riem e não é que até gargalham! Encontrei montão de cholas numa festinha em Lloco Lloco, todas saudando o padroeiro, um santo bom que nem sei qual é. Dançavam dentre os homens que bebiam Paceña na roda. Dançavam, a subir e a descer do mirante. Dançavam inda que estáticas. Dançavam com os olhares. E ali estavam as cholas, em Lloco Lloco, como estão em toda a Bolívia. E ali estavam as cholas, mais presentes que qualquer santo padroeiro.

Antunes
Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2010

Lloco Lloco está a 4.028 mestros de altura, é seco e provoca falta de ar

Muitas pessoas chegavam com seus carros para a festa

Cholas e cholos dançam na festa do padroeiro

Há fantasias diferentes, inclusive esta que parece de lhama

Paceña é a principal cerveja boliviana e ítem fundamental à festa. Como o frio durante a madrugada chega a muitos graus abaixo de zero, é habitual que cholos e cholas se embreaguem.

O Império Tihuanaco

Houve vida antes dos Incas. Quando se pensa em América pré-colombiana as imagens de Incas, Maias, Astecas são esmagadoras. Mas outros muitos povos passaram pela imensidão americana e lhes restou o olvido da História. Os Tihuanaco estão em raros livros didáticos, mas sua presença é muito forte a três mil oitocentos e setenta metros de altura, nos Andes bolivianos. Ao redor das ruínas, vivem populações que ainda preservam o aimará e muitos costumes de seus ancestrais, mesclados a uma boa dose de catolicismo, é claro. A viagem pode ser vista como páginas de Realismo Fantástico, como capítulos sangrentos da destruição de um povo, como ricas lições de antropologia etc. etc. etc.  Certamente é um dos lugares mais interessantes de toda a Bolívia e fica a menos de duas horas do Centro de La Paz. Dentre as ruínas, estão as construções sagradas, resquícios de pirâmides, a imensidão da Pachamama, muralhas… todos saídos da rocha ainda que continuem sendo rocha. A visão é de um deserto extremamente seco, o cansaço é gigantesco: frágeis turistas devem agüentar frio sob sol, falta de ar por causa da altura e várias subidas e descidas. É ali, entre deuses de pedra que talvez se movam à noite que os turistas se movem de dia.

Antunes
Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2010

Vários crânios fraturados: daí virá o Rachacuca? - Museu Tihuanaco

A múmia Tihuanaco.

Nós a 3.780 metros do nível do mar

Informações sobre os Tihuanaco ou Tiwanaku

Diante do que restou da pirâmide Tihuanaco

Um deus e um humano

um deus e uma deusa

Uma breve demonstração do poder das mulheres

Em um dos muitos portais

Degraus do império

Muralha

Brincando de ser deus do império

Local sagrado

Visão de cima do Império

Maquete do Império Tihuanaco

mercado para os turistas

PUMAPUNKU

No Pumapunku

A imensa Pachamama no museu Tihuanaco

La Paz de Dios

LA PAZ

Eu juraria por Deus ver uma favela, mas também juraria ver uma espécie de Israel. Sempre ouvira que favelas são chagas no tecido social, no entanto, naquele instante, eu gozava da beleza que via. Daí duas opções: ou não eram chagas ou eu atingi um grau de loucura que sentia prazer em ver aquelas feridas sobre a terra. Era possível que a altitude tivesse se apoderado e enlouquecido minha cabeça, mas o que eu mais temia é que o coração tivesse se apoderado de meu cérebro e simplesmente eu me apaixonara por tal lugar, ainda que fosse uma visão tão distante dos padrões de beleza, mas tão próxima de algum lugar da minha infância, quiçá aquelas casinhas de tijolo me remetessem a imagens de barracos que eu via, ainda menino, ao passar por algum viaduto de Cavalcante ou ao cruzar alguma avenida de Magalhães Bastos.  Eu estava alto. Alto como jamais estivera. Ébrio de altura. Abaixo, La Paz com seus infinitos tijolos, acima, eu, brincando de olhar como Deus, a jurar por mim às verdades que vi.

LA PAZ Y YO

Antunes
Rio de Janeiro, 13 de julho de 2010